Cultura

Dose Certa de tradição e verdade

Diego Molina
| Tempo de leitura: 3 min

Respeito às raízes e verdades do samba, seja de São Paulo, da Bahia ou do Rio, mas com os pés no presente e os olhos no futuro. É a proposta do grupo Dose Certa, que acaba de lançar o CD “Brasileiro Guerreiro”. Produzido entre 2003 e 2005, o disco apresenta em suas 12 faixas uma maneira de se fazer samba moderno sem maldizer a tradição secular do ritmo.

Paulistano envolvido há muito tempo com as escolas de samba, Alemão do Cavaco (compositor de oito sambas-enredo da Gaviões da Fiel, incluindo nos três campeonatos da escola) começou a desenhar, juntamente com o carioca Victor DC, um grupo que se afastasse da fórmula do pagode romântico que invade as rádios. A dupla convocou Wilsinho da Peruche (pandeiro, vocal solo) e Leandro Piter (banjo, vocal) para apurar a fórmula.

“Brasileiro Guerreiro” é o segundo álbum do grupo. “As bases foram gravadas em 2004, mas tivemos problemas com um empresário. Voltamos no final de 2005 e terminamos de gravar no começo do ano”, comenta Alemão, em entrevista ao JC Cultura.

Gravado sem bateria e com contrabaixo em apenas uma faixa, o disco é repleto das referências musicais do quarteto e também de presentes de ídolos como Carlinhos Vergueiro, Sombrinha, Gordinho, Paulo César Pinheiro e João Nogueira.

“Não gosto de rótulos, pois isso limita demais, mas nosso som é samba, MPB, choro, samba de quadra. Não sei o que as pessoas entendem por pagode, além da reunião de amigos pela música, mas aqueles arranjos com teclados, pandeiro, cavaquinho e letras pobres não é o nosso som”, alfineta Alemão.

Para o líder do Dose Certa, o objetivo do grupo é apresentar samba de qualidade, com influência de Cartola, Nelson Cavaquinho, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Candeia – nomes do samba-MPB do passado e do presente. “Nossas referências são essas, por isso ficamos livres para criar em cima do que cada um já viveu, das quadras, das escolas de samba. Feliz ou infelizmente, não tem ninguém fazendo um som como o nosso, sem bateria nem teclado. É outra concepção”, analisa.

Os arranjos comprovam o que na teoria pode parecer demagogia. Com produção apurada de Alemão, Euclides Marques e maestro Ivan Paulo, a sonoridade é leve e respeitosa aos violões e cavaco, repique e percussão geral, sem o peso imaturo do que se ouve em rodas de samba desrespeitosas à tradição.

A inédita de Carlinhos Vergueiro, em parceria com Sombrinha e Gordinho, “Nossa Aliança”, abre o CD em grande estilo, com participação de Alexandre Ribeiro no clarinete e exaltação ao gênero. Ao lado da temática social, as saudações ao samba permeiam grande parte das faixas.

A celebração do bom batucar caminha para a apoteose com as presenças do poeta, escritor e sambista Nei Lopes, que comparece ao lado de Cláudio Jorge (“Tia Eulália no Chiba”); Geraldo Pereira e J. Portela (“Até Hoje Não Voltou”); Dedé da Portela com Dona Ivone Lara (“Peço a Deus”). Alemão e Papacaça fecham o belo álbum com “Sonho de Menina”.

Outros destaques são “Gorgear de um Sambista”, que tem seu fraseado coberto pelo vozeirão do puxador de samba-enredo Ernesto Teixeira, e na faixa-título, de Alemão do Cavaco e Bruno Bassani.

A intimidade com o samba e seu riscado são as marcas do Dose Certa. De acordo com Alemão, o grupo faz o lançamento oficial do disco em janeiro, no Sesc Pompéia (São Paulo) e no Teatro Rival (Rio), com show dirigido por Ailton Graça, que deve percorrer o circuito Sesc no primeiro semestre de 2007.

“O Ailton faz a parte cenográfica e eu cuidei da direção musical. Já estamos fazendo shows mas esse vai ser todo novo. Esperamos passar pelo Interior”, finaliza Alemão.

Comentários

Comentários