Como qualquer cidade do Brasil, Bauru tem suas disparidades internas. No caso específico do abastecimento de água, não poderia ser diferente: enquanto alguns bairros convivem com a abundância, outros sofrem com a falta. Na Vila Maracy, por exemplo, o líquido jorra sem parar, tanto que a Universidade do Sagrado Coração (USC) consegue manter funcionando uma “bica”, que fornece a substância gratuitamente à população.
Outros locais vivenciam realidade oposta, sobretudo com a chegada das estações mais quentes do ano, que fazem com que o consumo de água na cidade cresça de maneira vertiginosa. É então que o nível dos reservatórios do Departamento de Água e Esgoto (DAE) cai e bairros inteiros deixam de ser abastecidos.
A autarquia identificou locais de Bauru onde o fornecimento de água costuma enfrentar períodos críticos. Por estranho que possa parecer, os bairros da zona sul (região mais rica da cidade), como Jardim Estoril e Altos da Cidade, integram a lista. O Centro é um local onde a carência também se manifesta com certa freqüência.
Se em áreas mais favorecidas a falta de água provoca aborrecimentos, em lugares mais pobres o problema chega a causar desespero. Rosemeire de Almeida, 39 anos, mora no Parque Júlio Nóbrega (zona leste de Bauru) e convive com a carência há bastante tempo. “Isso é comum por aqui: semana sim, semana não, falta água”, reclama.
Ela é diarista (faz trabalhos domésticos) e vive há seis anos no bairro. “Às vezes, chega a ser insuportável”, diz, revoltada. Almeida tem motivos para tamanho nervosismo: geralmente, sua residência deixa de receber água às 8h, permanecendo nessa situação até por volta das 22h.
Algo que dificulta ainda mais a vida da diarista é a dificuldade para armazenar água. A caixa d’água disponível da residência é pequena, com capacidade para apenas 250 litros, e no lugar moram mais duas pessoas: a mãe e a filha de Almeida. Para compensar o problema, ela poderia guardar água em garrafas plásticas usadas ou em baldes. “Mas como trabalho, não é todo dia que dá para fazer isso”, lamenta.
O drama enfrentado pela diarista é sentido por moradores de outras partes da cidade. Luís Ricardo Faria é comerciante na Vila Falcão, mas mora na Vila Souto (dois bairros da zona oeste de Bauru). Há pouco mais de uma semana, ele e os vizinhos se tornaram as vítimas mais recentes da falta de água. “Em alguns dias, fui obrigado a esperar até meia-noite para poder tomar banho”, conta.
Afetados constantemente pela carência, Almeida e Faria continuam sendo consumidores responsáveis, daqueles que dificilmente atrasam o pagamento das contas ao DAE. “E de que adianta?”, queixa-se a diarista.
Almeida considera injusto estar sujeita ao problema, mesmo sendo boa pagadora. “Se eu atrasar a tarifa, a prefeitura vem e manda cortar meu fornecimento de água. Mas, quando abro minha torneira e não sai uma gota sequer, com quem devo reclamar?”, diz ela.
O diretor de produção e reservação do DAE, José Brazoloto, explica que o problema é resultado do calor, que eleva o consumo na cidade. “Além disso existe muito desperdício”, completa. O aposentado João Guarnetti, 75 anos, morador da Vila Souto, parece concordar com a segunda afirmação. “O pessoal passa a vida jogando água fora, depois reclamam quando falta na torneira”, diz.
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‘Bica’ da USC sofre com vandalismo
Em épocas como a atual, quando a água potável tem se tornado cada vez mais rara em todo o mundo, um local como a “bica” da Universidade do Sagrado Coração (USC), que oferece gratuitamente o líquido à população, deveria receber todo tipo de cuidado da parte das pessoas. Num plano ideal isso talvez até pudesse ocorrer, mas na prática as coisas funcionam de modo distinto.
Situado na quadra 10 da rua Albino Tambara, a cerca de dez metros da rodovia Marechal Rondon (SP-300), o local é bastante freqüentado, independente de dia e horário. De manhã e à tarde, a maioria dos visitantes são pessoas comuns: munidas de garrafas e galões, vão em busca de água gratuita e de qualidade.
Mas depois que o sol se esconde, a “bica” passa a receber um público diferente: em vez de água, a maior parte do freqüentadores noturnos vão à fonte com intuito de realizar atos de vandalismo. “É um absurdo alguém ter coragem de depredar um lugar como este”, reclama Fabiano Bacarat, engenheiro da Prefeitura do Campus da USC.
Apesar de receber cuidados regulares por parte da instituição de ensino, a fonte exibe sinais claros da ação dos marginais. Os ladrilhos que revestem as paredes da bica, por exemplo, estão cobertos de pichação. Mas as torneiras, novas, reluzindo ao sol, podem dar a falsa idéia de que os rabiscos foram meros eventos isolados. “Na verdade, as antigas foram roubadas e tivemos de colocar outras no lugar”, conta o engenheiro.
Além de pichações e furtos, o local enfrenta outras formas de vandalismo. “Tem gente que vem aqui à noite e faz questão de sujar tudo, só pelo prazer de prejudicar os restante das pessoas”, denuncia Bacarat. Ele garante, porém, que a “bica” é higienizada constantemente. Apesar de tantos problemas, o prestígio da fonte continua em alta entre os bauruenses.
“Essa água é milagrosa”, exagera o aposentado Oscar Alves Rodrigues Júnior, morador do Parque Vista Alegre. Pegar água na “bica” da USC é uma rotina que ele segue há cerca de dez anos. “Levo 20 litros cada vez que venho aqui”, diz.
Outros freqüentadores do lugar também não poupam elogios à água. “Ela é ótima. Pena que algumas pessoas não dão valor e depredam tudo aqui”, lamenta a esteticista Sílvia Cristina Goulart, que vive no Jardim Brasil.
____________________ Uso irresponsável
A grande oferta de água em Bauru e região pode trazer riscos às futuras gerações. Quem faz o alerta são as duas principais entidades de defesa do meio ambiente existentes na cidade, o Instituto Vidágua e o Fórum Pró Batalha.
O problema, segundo especialistas das duas Organizações Não-Governamentais (ONGs), é que a abundância pode gerar a falsa impressão na população de que o líquido é infinito. “Como as pessoas sempre têm água disponível na torneira, pensam que nunca vai acabar”, diz a bióloga Fernanda Ribeiro de Franco.
Ela é membro do Instituto Vidágua e considera eficiente o sistema de abastecimento de Bauru. “Aí está o problema: como o serviço em geral é bom, as pessoas acabam perdendo noção de como a água é importante”, explica.
Quando Franco alerta que o líquido pode acabar, não quer sugerir que a substância H2O (fórmula química da água) está prestes a desaparecer da face da Terra. “Na verdade, o que vão acabar são as reservas prontas para serem usadas pelo homem, como rios, lagos e poços”, argumenta.
Sem água potável disponível, os seres humanos seriam obrigados a criar novos processos para obtenção da substância. “Só que isso é tão caro que acabaria se tornando inviável”, alerta ela. Cientistas calculam que quase 80% da Terra seja constituído de água. Desse total, apenas 4% ainda é potável. A situação é crítica e preocupa inclusive pessoas que não são ligadas à área ambiental.
“Tem gente que lava calçada até três vezes por semana. Hoje em dia isso ainda não está fazendo falta, mas e os que virão depois de nós?”, questiona a aposentada Anísia Pelosi, 66 anos, moradora da Vila Souto (zona oeste de Bauru). Sem encontrar respostas satisfatórias para o enigma da água, ela se resigna. “Tenho pena dessas crianças que estão chegando agora.”
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‘Gerente’
Que a “bica” da Universidade do Sagrado Coração (USC) é um lugar de sucesso ninguém duvida - afinal, ela vive lotada de gente. Explicar os motivos para tamanha procura, porém, é algo difícil, sobretudo se for levado em conta o fato de praticamente toda a população da cidade conta com água encanada em casa.
Ângela Maria Paiva, 46 anos, é uma das maiores conhecedoras do local e arrisca um palpite. “As pessoas sabem que esta água tem procedência, pois a universidade está sempre fazendo rigorosos testes de qualidades”, diz. Quem a vê falando dessa forma, pode imaginar que se trata de algum profissional ligado à USC.
Na verdade, Paiva é vendedora ambulante, que atua há anos nas proximidades da bica. Antes ela comercializava doces, aproveitando o movimento em torno da fonte. “Há quatro meses, vi que não existiam muitas quitandas nesta região, então arrisquei montar uma banca de verduras.”
Hoje ela vende alface, couve, almeirão... Para manter a freguesia, colabora para a conservação da “bica”. “Trago esponjas, detergente, e limpo por conta própria.”
Atitudes como essa fizeram com que Paiva ganhasse oz apelido de “gerente da bica”. “Preciso cuidar bem desse lugar. Dependo dele para viver”, diz.