No passado ele já foi responsável pelo fornecimento de praticamente toda a água consumida em Bauru. Relegado a segundo plano após a perfuração de 29 poços profundos pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE), o rio Batalha ainda possui papel importante no abastecimento da cidade.
Cerca de 40% da água consumida pela população provém do rio. Para chegar até as torneiras das pessoas, o líquido tem de percorrer um longo e difícil trajeto. O Batalha nasce em Agudos, há cerca de 22 quilômetros do perímetro urbano de Bauru.
São duas nascentes principais, localizadas nas fazendas São Benedito e Santa Rita. Correndo lentamente no sentido Noroeste - como se quisesse imitar as ferrovias do passado -, o pequeno riacho vai ganhando corpo, na medida em que se encontra com outros veios d’água.
Antes de se transformar em um rio de fato, porém, o córrego tem de enfrentar a força de duas cachoeiras, uma de 25, outra com 35 metros de altura. Depois disso, as margens já estão mais largas e o volume de água se torna mais respeitável. Não à toa, os seres humanos logo pensaram em tirar proveito do Batalha.
Em Bauru construiu-se uma lagoa, na qual foram instaladas grandes bombas que sugam o líquido do rio até a Estação de Tratamento de Água (ETA), situada na zona sudoeste da cidade. No local o Batalha é aprisionado e desaparece em meio a grandes paredes de concreto e tubos de metal.
Volta a surgir mais manso, na forma de uma aguinha meio turva, já no andar superior do prédio, pronto para passar pelo processo de tratamento, que o tornará próprio para o consumo da população.
A “faxina” começa com a adição de duas substâncias ao líquido: um bastante popular, conhecido como cal hidratada, muito usado na construção civil; o outro, sulfato de alumínio, bem menos famoso.
“A cal serve para regular a acidez, enquanto o outro produto retira os detritos sólidos da água”, explica Maria Domingues dos Santos, responsável técnica da ETA. Tão logo recebe as substâncias químicas, o Batalha é encaminhado a um local onde fica descansando, até que a água e sujeira se separem.
Em seguida, o líquido é filtrado, para depois receber cloro e flúor. Livre de microorganismos, a água potável segue seu caminho rumo às casas, enquanto a estação continua recebendo o Batalha de modo incessante.
São 500 novos litros a cada segundo, mas há espaço de sobra na ETA. Existem seis tanques de decantação no local (três de cada lado), e eles assustam pelas dimensões. Em conjunto, os poços têm capacidade para 2 milhões de litros de água. Cortados por passarelas de meio metro de largura, cada um tem quatro metros de profundidade.
Transitar tranqüilamente pelo meio deles não é tarefa para qualquer um. Quando se vêem cercadas de água por todos os lados, as pessoas travam: as pernas ficam bambas, os músculos enrijecem e os movimentos passam a ser medidos de maneira milimétrica.
Todo cuidado é pouco para evitar uma queda. Santos, por exemplo, procura não circular pelas passarelas centrais. “Vou pela lateral, onde sei que é raso.” Ela garante que até o momento nenhum funcionário caiu na água.
As pessoas que trabalham próximas aos poços de decantação da ETA têm de usar equipamento de segurança, que inclui colete salva-vidas. Em todo caso, o DAE já estuda a instalação de corrimãos nas passarelas que cortam os tanques. “É melhor prevenir. Nunca se sabe o que pode ocorrer no dia em que alguém cair ali”, pondera Santos.
____________________ 350 mil árvores na margem do rio
Nas duas últimas décadas, a participação da água do rio Batalha no total usado para abastecimento da cidade tem caído mais e mais. Umas da principais causas para essa diminuição é o assoreamento sofrido pelo rio ao longo dos anos, resultado da remoção da mata ciliar das margens do curso d’água.
“Praticamente toda vegetação natural que existia à beira do Batalha foi arrancada. Isso fez com que ele ficasse mais suscetível à erosão”, explica o engenheiro agrônomo David Geraldo Pompei. Ele é membro do Fórum Pró Batalha, Organização Não-Governamental (ONG) de defesa dos recursos hídricos, fundada em 1996.
Segundo Pompei, o longo tempo de exposição das margens à erosão fez com que rio passasse a sofrer um grave processo de assoreamento. “Antigamente muitos trechos do Batalha tinha até cinco metros de profundidade. Atualmente, nenhum chega a passar de meio metro”, acusa.
Além de facilitar a entrada de detritos sólidos no leito do curso d’água, a ausência de vegetação tornou a água mais fácil de ser contaminada por produtos químicos. “As raízes das árvores funcionam como uma espécie de filtro natural, que retêm os produtos tóxicos antes que eles atinjam o rio”, garante Pompei.
Desde 1998, a entidade vem tentando sanar a ausência de mata ciliar ao longo do Batalha. Pompei já coordenou sete projetos de reflorestamento, por meio dos quais foram cultivadas aproximadamente 350 mil plantas nativas da região.
O número pode parecer expressivo, mas o próprio engenheiro reconhece que a quantia está longe do ideal. “A idéia inicial era colocar 2 milhões de árvores na beira do Batalha. Se seguirmos esse ritmo, o trabalho vai demorar 30 anos para ser concluído”, afirma Pompei.
O reflorestamento das margens do rio vêm sendo feito com recursos do Governo do Estado. Apesar de a iniciativa também contar com apoio do Departamento de Água e Esgoto de Bauru (DAE), Pompei cobra maior comprometimento do poder público com o projeto. “Se os governantes não ajudarem de maneira firme, o rio vai acabar desaparecendo, antes mesmo que a gente tenha terminado de plantar todas as árvores.”
____________________ Pessimista?
Apesar de parecer o contrário, o engenheiro agrônomo David Geraldo Pompei, do Fórum Pró Batalha, não se considera uma homem pessimista - nem quando garante que projeto de reflorestamento do rio dificilmente levará menos de três décadas para ser concluído.
“Na verdade, sou otimista até demais. Estou plantando árvores que demoram 50 anos para crescer. Quando a floresta estiver formada, provavelmente já estarei morto, mas mesmo assim não desanimo”, garante.
De fato, Pompei teria muitos motivos para perder as esperanças. Iniciado em 1998, o projeto de reflorestamento das margens do Rio Batalha enfrenta resistências de parte das pessoas. “As mudas que plantamos sofrem todo tipo de dano: tem andarilho que passa e põe fogo, sitiantes que soltam gado no meio das árvores, gente que vem e corta a cerca de proteção”, enumera.
O problema, na visão do engenheiro agrônomo, estaria na falta de consciência ambiental da população. “As pessoas não percebem que se essa mata não existir o rio pode desaparecer. E se ele sumir, de onde vamos tirar água para beber?”, questiona.
Mesmo assim, ele espera apoio das pessoas para que o projeto possa avançar. “Não precisa ajudar a plantar árvores. Não destruindo o que já existe já será uma ajuda imensa”, diz Pompei.
____________________ 300 reclamações ao mês
Na cidade, problemas envolvendo encanamento quebrado estão entre os mais comuns de serem encontrados. Segundo a assessoria de imprensa do Departamento de Água e Esgoto (DAE) de Bauru, a autarquia recebe, em média, cerca de 300 reclamações ao mês, a maioria relacionada a danos na tubulação de água e esgoto.
Um dos mais recentes é um vazamento que vem ocorrendo há aproximadamente uma semana na rua Emílio Viegas (Núcleo Santa Luzia, zona nordeste de Bauru). “Eu e meu marido chegamos de viagem no domingo à noite e reparamos em frente à nossa garagem havia um pequeno buraco, do qual estava saindo um líquido vermelho, cor de terra”, conta Márcia Cristina Takahashi, moradora do local.
Ela afirma ter telefonado para o DAE no dia seguinte. “Liguei de manhã e à tarde, mas ninguém apareceu para consertar.” Nesse meio tempo, a água avermelhada - que, por sinal, não tem cheiro - continuou jorrando ininterruptamente. Temerosos de que o buraco aumentasse de proporções, vizinhos também resolveram entrar em contato com a autarquia.
“Meu marido ligou lá várias vezes, a vizinha da frente também, mas nada do pessoal do DAE vir até aqui”, afirma a aposentada Therezinha Souza Fernandes, 67 anos, que mora ao lado da casa de Takahashi.
O líquido vermelho que vem escorrendo pela rua Emílio Viegas não tem volume torrencial - na verdade, é um filete d’água que escorre sem parar, sujando o asfalto e as calçadas próximas. O buraco também não é lá aquelas coisas. Inclusive, quem não está a par da situação dificilmente daria importância ao vazamento.
Mas o problema, segundo os moradores, está na parte que não é visível aos que transitam pela rua. “Isso aí é um perigo. Imagina a quantidade de terra que já saiu desse lugar? Deve haver uma falha imensa aí embaixo. Daqui a pouco um carro vai acabar afundando por causa de um cano quebrado que não quiseram consertar”, preocupa-se Takahashi.
Ela tem evitado guardar o automóvel na garagem da casa onde mora. “Prefiro deixar na vizinha.” O DAE gasta, em média, R$ 400 mil na manutenção das redes de abastecimento da cidade. Até o fechamento desta edição, o vazamento da rua Emílio Viegas ainda não havia sido consertado.