Durante o retorno de uma viagem, o imperador da China perdeu pelo caminho sua pérola da sorte. O monarca enviou, então, seus sábios para encontrá-la. Depois de longa procura, os sábios voltaram de mãos vazias. O imperador enviou, imediatamente, seus melhores espiões. Estes também voltaram sem encontrar a pérola. Irritado, o monarca enviou todos os seus soldados. Depois de grandes esforços, os soldados retornaram ao palácio sem êxito algum. Praticamente sem esperanças, o imperador enviou os homens mais displicentes e desocupados de seu reino. Em pouco tempo, eles retornaram trazendo ao imperador sua pérola da sorte.
“Ascese” significa um exercício prático que leva à efetiva realização da virtude. Por séculos, a palavra “ascese” esteve vinculada à religião e, por uma influência platônica, tornou-se praticamente um sinônimo de resignação, de renúncia à vida, ou pelo menos, às coisas boas da vida. Um “asceta”, ou uma pessoa que pratica a “ascese”, seria aquela que, para atingir virtudes espirituais, renuncia a tudo que oferece prazer sensitivo ou material. “Ascese” ficou conhecida como um exigente exercício de renúncia de si mesmo.
Porém, se eliminarmos a influência do platonismo, da divisão entre o espiritual e o material, encontraremos na “ascese” uma chance de concretamente enriquecermos a vida. “Ascese” continuará sendo um exercício de renúncia, mas não mais uma renúncia ao prazer, às coisas belas e materiais e muito menos uma renúncia de si mesmo. Esta forma original de “ascese” seria o exercício de renúncia ao normal, ao ordinário, ao sujeito que a sociedade deseja que eu seja. A este exercício de vida poderemos chamar de uma “ascese existencial”. Um exercício prático de transformação do “eu” em busca da autenticidade. A “ascese existencial” não se baseia em sacrifícios, em renúncias que se deve fazer de uma ou outra parte, de um ou outro aspecto do ser, mas a renúncia de um padrão, da forma de padronização imposta pela sociedade.
Esta “ascese” não significa a perda de algo, mas trata-se de adotar algo que não se tem, algo que não está em nossa rotina, em nosso cotidiano, em nossa natureza urbana. Esta “ascese” não é simplesmente uma submissão do indivíduo a determinadas regras rígidas, mas tem como princípio ligar o indivíduo às verdades que não são normalmente veiculadas ou vivenciadas. A “ascese existencial” nos propõe a abertura para verdades, a ampliação dos horizontes, a descoberta de novos comportamentos e novas formas de viver.
Este exercício prático permite que possamos descobrir a nossa própria verdade, pois através da “ascese existencial” nos colocamos diante de uma diversidade de situações que nos permite exercitar a escolha, criar caminhos próprios, realizar algo único. Em outras palavras, somente com ela podemos realmente nos realizar como pessoas sem a sensação de sermos cópias.
O exercício da “ascese existencial” é o esforço da quebra de qualquer rotina ou forma de padronização, começando pelos pequenos atos do cotidiano. Se sempre percorremos o mesmo caminho para o trabalho, devemos escolher a cada dia um novo caminho. Se o nosso quarto de dormir possui uma determinada disposição dos móveis, procuremos modificá-lo radicalmente. Se fizer parte da minha rotina assistir televisão à noite, vamos desligá-la para desenvolver uma conversa em família, ouvir música ou ler um livro.
Tente, por exemplo, não sair de casa e assistir um bom filme, escolhendo um gênero o qual não esteja normalmente acostumado a assistir. Ou se pertence à rotina ficar em casa, saia sozinho ou com os amigos. Se seus ouvidos estão acostumados com rock, tente ouvir musica clássica; se você gosta de MPB, tente ouvir jazz. A “ascese existencial” é o exercício de experimentar o novo sem preconceitos, com a abertura necessária para compreender o que existe de interessante neste “novo”. É a “ascese existencial” que me permite o enriquecimento da vida e evitar a sua mediocridade.
Trata-se de encontrar a si mesmo em um movimento cujo momento essencial não é o de repetir ou copiar o que os outros fazem, a verdade do outro, mas a subjetivação de uma vida verdadeira, em uma prática e em um exercício de si sobre si. Trata-se de procurar estar sempre em uma situação inusitada e, a partir dela, fazer suas as coisas que sabe fazer, fazer seus os discursos que se reconhece como verdadeiros. Nos inspirando em Nietzsche, “onde se encontra vida, encontra-se também vontade, entretanto, não somente a vontade de viver, de sobreviver, mas a vontade de poder, vontade de ir além e chegar ao ‘outro lado da lua’”. Somente com a “ascese existencial” podemos nos tornar verdadeiramente sujeitos e descobrir aspectos novos de nossa realidade que poderão ser verdadeiras pérolas da sorte.