Buenos Aires - Cinco anos após o “corralito” financeiro, que limitou os saques bancários dos argentinos a 250 pesos por semana e levou a classe média a fazer panelaços pelas ruas, a Argentina segue seu caminho de recuperação econômica com outra receita heterodoxa: o congelamento de preços de produtos específicos.
A estratégia é alvo de duras críticas dos economistas, causa arrepios no empresariado e revolta o setor agropecuário, que ontem entrou em greve para protestar contra a política econômica do presidente Néstor Kirchner.
Ruralistas, que alegam prejuízos de US$ 766 milhões para o setor com o congelamento e a redução de preços, prometem fazer um “tratoraço” contra a tabela com preços de referência para os alimentos e as retenções sobre as exportações.
O plano é suspender a entrega de carne, cereais, frutas e hortaliças aos mercados e ainda bloquear estradas. Segundo o Centro de Educação do Consumidor, os cortes de carne mais consumidos podem subir 100% com o desabastecimento.
Alheio à reclamação dos ruralistas, para atingir dois objetivos difíceis de conciliar - manter elevados os níveis de consumo que sustentam o crescimento econômico e conter o avanço inflacionário -, o governo usa os chamados “acordos de preço” para estipular desde o valor de frutas, hortaliças, hambúrgueres e refrigerantes aos preços das vitrines de grifes como Yves Saint Laurent e Christian Dior.
Com os olhos fixos nas eleições para a Casa Rosada em 2007, o presidente Kirchner faz questão de mostrar seu envolvimento pessoal nesse controle. O marketing político funciona: a impressão que se tem, ao ler os jornais locais ou ao assistir à TV, é a de que o presidente cuida de cada pequena compra feita pelo consumidor argentino.
De acordo com estudo da consultoria Ecolatina, também são evidentes as limitações para avançar com os “acordos de preço” nos mercados em que operam muitos agentes, destacando aumentos importantes em serviços, sobretudo educação (21% só neste ano), além de habitação e vestuário.