Caracas - Depois de assustar a oposição e parte do mundo ao anunciar uma revolução socialista em seu discurso de vitória, na madrugada de domingo, Chávez adotou ontem tom mais conciliatório. Em encontro com a imprensa estrangeira, no Palácio Miraflores, em Caracas, disse que seu projeto socialista é de “inclusão e integração” - embora ainda não o tenha explicado completamente.
“Não se trata de seguir a dogmatização de uma ideologia, mas sim de reconhecer nossos erros e de continuar com a idéia de inclusão de todos os setores, inclusive daqueles que não estão comprometidos com esse processo”, falou. Em seu socialismo “original”, que ele chama de “indígena e venezuelano”, disse que as pessoas gozarão de liberdade de expressão e opinião. “O socialismo é democracia; peço à oposição que se incorpore ao debate socialista, porque esse é o caminho.”
Antes de ser eleito, Chávez havia dito que um de seus primeiros atos seria instituir uma comissão presidencial pró-Constituinte que proporia a possibilidade de reeleição sem limites do mandatário. Deputados ligados a ele haviam vazado à imprensa que a “nova etapa” da “revolução bolivariana” incluía a instituição do sistema de partido único e o monopólio dos meios de comunicação.
Não era isso o que dizia o presidente ontem, já pela manhã, ao ser empossado pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE). “Todas as pessoas que votaram em mim votaram por um projeto da consciência, por um projeto socialista democrático de participação”, disse. Depois diria que se referia também aos que votaram na oposição, “porque a pátria é também para eles”.
O venezuelano teme alienar um contingente que afinal atingiu quase 40% dos votos, do qual faziam parte pessoas que na noite de anteontem fizeram piquetes e fogueiras nos cruzamentos da praça Altamira, local de reunião da oposição. Pelo resultado final, Chávez teve 62,57% dos votos, sua maior marca até hoje. Foi esse “Chávez paz e amor” que chegaria a elogiar seu opositor, Manuel Rosales, até então sempre chamado pelo presidente de “golpista” e “candidatinho”. O presidente cumprimentou a posição de seu oponente de não ceder aos que queriam que “ele saísse gritando fraude!”.
Diálogo com os EUA
Chávez disse estar disposto a “dialogar” com os EUA desde que o diálogo ocorra “de igual para igual”. A afirmação foi em resposta à declaração feita na véspera pelo subsecretário de Estado americano para a América Latina, Thomas Shannon, que elogiou a democracia na Venezuela e disse que os EUA estão abertos ao diálogo com o presidente reeleito.
Após ter sua vitória confirmada pelo CNE, Chávez reconheceu que houve esforços de altos funcionários americanos no sentido de abrir novas vias para o diálogo. Mas expressou dúvidas sobre a “sinceridade” dessas intenções. Chávez se perguntou ainda como seria possível ter boas relações com um governo que “financiou atividades conspiratórias” e “espionagem” na Venezuela.