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A polêmica do Antigo Testamento


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Este “espaço nobre” do jornal é destinado exatamente para a troca de opiniões diversas e contraditórias. No domingo, 03/12, achei que o jornal não tinha dado um tratamento sério à minha entrevista de três horas, em meu apartamento, onde fui procurada para falar de meu estudo sobre a Bíblia. Mas depois dos esclarecimentos do redator da matéria, e também com o furacão criado por opiniões de todo tipo, expressas no próprio JC e no meu orkut, concluí que o jornal conseguiu seu objetivo: criar polêmica em torno de um assunto perigoso, um “vespeiro”, como disse M. Soriano, filósofo francês, sobre os “contos de fada”, tema de minha dissertação de mestrado, defendida em 1992, na Unesp-Assis, e publicada em livro com o mesmo título: em busca dos contos perdidos. A significação das funções femininas nos contos de Perrault (Ed. Unesp, 2000).

Ao descobrir, na minha primeira pesquisa, que os contos de fada eram herdeiros dos mitos folclóricos, que por sua vez se originavam dos ritos das sociedades primitivas, resolvi ir aos mitos primeiros da nossa civilização, os que estão no Antigo Testamento, que não é o livro mais antigo do mundo mas tão somente um dos mais antigos. A prioridade cabe à epopéia sumeriana Gilgamesh, recomposta a partir de um monte de cacos de cerâmica, encontrados no final do século 19 num sítio arqueológico, texto famoso por conter a primeira versão preservada do mito do dilúvio, escrita há uns 5000 anos. Na verdade, a palavra “livro” originalmente significava “rolo” (de papiro ou pergaminho), razão pela qual os hebreus, chamados de judeus a partir 500 a. C., após a volta do cativeiro da Babilônia, eram chamados “o povo do livro”. E a versão escrita canônica da Bíblia hebraica se fez nesse momento, portanto os seus textos têm pouco mais de 2500 anos.

O que me levou aos cinco anos na elaboração de uma tese de doutorado sobre o discurso bíblico, defendida em 2003na Unesp-Araraquara, não foi qualquer desilusão com a Igreja ou com a vida, como alguns pensam, mas uma busca científica: desvendar os intrincados mistérios de um discurso etnoliterário, isto é, um mito religioso, de origem oral e folclórica, como todos os outros, sejam eles pagãos, gregos, gregos, romanos, sumérios, egípcios, africanos, cananeus ou americanos. Esse tipo de discurso ainda hoje encanta muita gente, pois que a Bíblia seja um dos livros mais lidos no mundo, não há dúvida, assim como o Alcorão, os Vedas e os contos de fada. Por essa razão, classifico-os como “discursos fundadores” de uma cultura. Para judeus e cristãos os outros mitos são ficções, mas o “nosso” é a palavra divina, santa ingenuidade. Foi uma pena que o repórter não tivesse lido alguma coisa do livro que contém o meu mestrado ou do original da tese, textos que lhe emprestei, pois os enganos e confusões não teriam existido na matéria de 3/12.

O objetivo de uma tese acadêmica é apresentar algo inédito, no meu caso, uma leitura nova do discurso contido nos primeiros livros bíblicos. O tema já está no título: no princípio era o poder. Uma análise semiótica das paixões no discurso do Antigo Testamento. Mas o erro mais grave do jornalista foi reproduzir palavras que eu não disse: “os cristãos perderam todas as guerras narradas na Bíblia, mas como é uma história contada pelos derrotados, a verdade deles prevaleceu.” Os cristãos do Novo Testamento nunca se meteram em guerras, pois eram fracos e oprimidos. Foi só depois de um imperador romano do século 4º d. C. adotar o cristianismo como religião oficial que começaram as guerras cristãs, tão ou mais violentas que as guerras israelitas, e sempre em nome de Javé, a mesma divindade para judeus e cristãos. (Meu espaço acabou, e eu ainda tinha muito a dizer!).

A autora, Mariza B. T. Mendes, é professora-doutora e membro de grupos de pesquisa do CNPq

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