Hoje é comemorado o Dia Nacional da Família. É notório que não existe uma homogeneidade nos relacionamentos domésticos, mas sim tipos diferentes tipos de relacionamento e concepção de mundo. Ao contrário do que se espera, não existe um modelo ideal a ser seguido. Para o padre e filósofo Mário José Filho, de Ribeirão Preto que pesquisou cem famílias de todo o Brasil, independente do seu modelo ou estrutura, é na convivência entre pais e filhos que o ser humano desenvolve sua cidadania.
O filósofo fala com autoridade. Suas palavras são embasadas por um estudo que durou quatro anos e se desmembrou em uma tese de doutorado. Através de entrevistas, que incluiu opiniões de casais de Bauru e também da região, o padre traçou o perfil da família brasileira e a enquadrou em modelos já propostos por uma estudiosa francesa da área.
Ao final do estudo, José Filho concluiu que a família formada por pai, mãe e filho, com tendências paternalistas, ainda é o modelo padrão no Brasil. “Segundo o Senso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), elas correspondem a 56% da realidade nacional”, afirma.
Em segundo lugar, estaria o modelo monoparental, chefiada pela mulher, que trabalha e cuida dos filhos, após separação do marido. “Este tipo representaria cerca de 24% das famílias brasileiras”, diz.
O estudioso aponta também que a estrutura e os valores familiares passam por constantes mudanças. “Aquele marido machão, que teria apenas a função de provedor, não condiz mais com a figura do pai atual. Hoje, ele é companheiro e ajuda nas atividades domésticas. Papel antes destinado apenas a mulheres”, aponta.
Segundo o padre, em 20% das famílias o pai perdeu o posto de “chefia”. “É corriqueiro que, por algum motivo, como perda de emprego e dificuldade em conseguir outro, a esposa assuma o papel de provedor, enquanto o marido, as atividades domésticas, resultado de uma mudança dos valores da sociedade”, afirma. “Creio que esta seja uma tendência”, completa.
Para José Filho, somente através da vivência familiar são apreendidos valores como respeito, justiça, liberdade. “Se as famílias tiverem a oportunidade de serem bem formadas, elas terão a capacidade de educar os filhos para exercer a cidadania. Não é algo mágico. É preciso que ela tenha, além da condição de sobrevivência mínima, acesso à educação, saúde, transporte.”
As modificações constantes nas relações de trabalho, tendência no mundo globalizado, teriam reflexo negativo, já que atrapalhariam o convívio social entre pais e filhos, que passam cada vez menos tempo em contato. “Se você está correndo apenas para poder pagar as contas no final do mês, não haverá tempo para se relacionar em casa e pensar em educação e valores”, acredita.
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Mãe confirma
A família de Márcia Dias Valotti se enquadra na tendência hegemônica no país. Casada há 21 anos, ela deixou o emprego para cuidar do casal de filhos, hoje com 10 e 14 anos. Ela não se arrepende da escolha que tomou. “Como eu e meu marido trabalhávamos, na época, achei que se os dois estivessem ausentes, a formação deles seria prejudicada. Como tivemos condição, decidi abdicar do serviço”, revela.
Mesmo com uma família de estrutura tradicional, a dona de casa, que antes de ter filhos lecionava biologia, educa seus filhos para estruturarem suas futuras famílias de forma diferente, confirmando a tendência apontada pelo estudioso. “Preparo meus filhos para que haja uma cooperação entre todos, no âmbito familiar, não existindo deveres específicos para cada pessoa. Creio que esta seja a tendência para o futuro”, aponta.