Hoje ele está aposentado, mas carrega consigo o duplo privilégio de já ter trabalhado na imprensa paulistana e também de ser considerado um dos primeiros bauruenses a ter se projetado num órgão de comunicação nacional. Trata-se de Ary Nunes Garcia, que além de jornalista já foi advogado e comerciante, profissão em que ganhou grande destaque na cidade por ter liderado, juntamente com seu pai, Antonio Garcia, a tradicionalíssima e famosa Casa Luzitana, um dos ícones do comércio local até ser fechada, em 1975. Também marca sua trajetória em Bauru por suas fortes ligações com o extinto BAC e com o Rotary Clube.
Nesta entrevista, Garcia conta detalhes de sua trajetória profissional, que iniciou como jornalista da antiga Folha da Manhã (hoje Folha de São Paulo), na Capital paulista, passando pela advocacia até culminar com a carreira de comerciante na Casa Luzitana.
Além de relatar as dificuldades de um repórter novato iniciando na profissão, Nunes recorda de passagens curiosas enquanto exerceu o jornalismo, além de revelar detalhes de sua vida pessoal, como o gosto pelas viagens e a pouquíssima intimidade - por vontade própria - com computadores e telefones celulares. “Não fazem falta para mim”, ressalta.
Por fim, o bauruense explica a consolidação das raízes familiares em Bauru, bem como o surgimento da Casa Luzitana. A seguir, os principais trechos da entrevista:
Jornal da Cidade - É verdade que o senhor foi um dos primeiros bauruenses a trabalhar na imprensa paulistana?
Ary Nunes Garcia - Acredito que seja verdade porque prestei exame na Faculdade de Direito em 1947 e fui aprovado. Quando estava no primeiro ano, fui convidado para trabalhar na Folha da Manhã por José Nabantino Ramos, que era diretor superintendente das Folhas. Ele tinha sido um bauruense que foi um dos fundadores do Rotary Clube de Bauru e pela sua capacidade profissional como advogado foi convidado para trabalhar em São Paulo no escritório do professor Benedito Costa Neto, que foi um dos que comprou a Folha, que estava em uma fase crítica. Eles queriam colocar um profissional competente para reerguer o jornal e esse foi o José Nabantino Ramos, que em Bauru foi amigo de meu pai e eu pude então conseguir essa função de jornalista. Fui escolhido para ser repórter de setor. A Folha tinha vários setores, como educação, esportes e um setor era o de Direito e Justiça. Como eu era um estudante que estava começando a cursar a faculdade, Ramos achou que deveria trabalhar nesse setor. Trabalhava junto ao Fórum, que naquele tempo só existia um em São Paulo e era onde funcionavam 16 varas cíveis, 12 criminais, da Fazenda, da Família, Tribunal do Júri e Tribunal de Justiça. Trabalhei por lá de 1947 a 1951, que foi quando me formei na Faculdade do Largo do São Francisco.
JC - E como era trabalhar naquela época? Quais as dificuldades?
Garcia - Tinha aulas de manhã, das 8h ao meio-dia, na faculdade, às 14h ia para o Fórum, onde permanecia colhendo as notícias até as 17h, quando ia para o jornal. Naquele tempo, sentava em uma máquina de escrever na sua frente e redigia as notícias que havia levantado. Quando entrei no jornal, logo no primeiro dia, o José Nabantino Ramos falou que ia começar no outro dia no Fórum para trazer as notícias importantes que interessavam ao jornal. Mas o que eu ia fazer no Fórum? Como ia colher notícias se eu nunca tinha entrado lá? Minha sorte é que lá também ficavam dois repórteres, um dos Diários Associados e outro do Estado de São Paulo, que eram experientes e me foram apresentados por um escrevente do cartório. Assim, durante 15 dias acompanhei o trabalho deles no levantamento das notícias a fim de saber quais eram aquelas que interessavam ao público. Passado esse período já tinha o discernimento necessário para colher as notícias, pois depois os próprios juízes e escrivãos que fiquei conhecendo me avisavam dos fatos importantes que apareciam.
JC - O senhor se recorda de sua primeira reportagem?
Garcia - Não, mas me lembro de alguns episódios curiosos e engraçados que ocorreram comigo. Um deles foi no Tribunal do Júri. O professor Soares de Melo, que era meu professor de direito penal na Faculdade, era o presidente do Tribunal do Júri e ele proibia que se tirassem fotografias durante os julgamentos. Mas houve um julgamento importante de um criminoso muito conhecido em São Paulo, que era o Meneguetti. O secretário do jornal, quando soube que ia ter esse julgamento, me pediu para me virar para conseguir uma foto do julgamento mesmo eu o alertando que era proibido pelo Soares de Melo.
A sala do julgamento era enorme e estava cheia e falei com o fotógrafo, que era o Gil, para ir comigo e não usar flash para dar um jeito de tirar essa foto escondido. Essa foto foi tirada exatamente no momento em que o Soares de Melo entrou na sala para iniciar o julgamento. Todos se levantaram e nessa hora o Gil, com jeitinho no meio de todo aquele público, conseguiu tirar a foto. Assim, na foto o Soares de Melo saiu de frente e o Meneguetti, que estava sentado na frente dele, saiu de costas. Dei o noticiário normal e a Folha publicou. Só que a Folha da Tarde publicou a fotografia com a seguinte manchete: “Quebrada a cortina de ferro do Tribunal do Júri”. Logo pensei que iria dar rolo e não deu outra.
No dia seguinte, quando fui no cartório para colher notícias, estava lá afixado na parede uma portaria do Soares de Melo me suspendendo por 30 dias. Fui procurá-lo e ele me disse que tinha certeza que não tinha sido eu o autor da foto, mas falou que também tinha certeza que eu tinha colaborado para ela ser executada. Ele argumentou que como não poderia dar uma punição ao fotógrafo ele resolveu suspender o representante das Folhas junto ao Tribunal do Júri. Fiquei 30 dias impedido de trabalhar lá por causa daquela foto.
Outro episódio marcante também foi no Tribunal do Júri. Tinha dois professores que eram livres-docentes, a Ester Figueiredo Ferraz e o Gama e Silva, e fui a um julgamento em que a Ester fez a defesa do reú e o Gama e Silva era o assistente do promotor público. Tive a oportunidade de assistir esse debate, que durou a noite toda, e para mim foi muito interessante ver meus dois professores defendendo suas teses.
JC - O que o senhor faz atualmente? Ainda mora em Bauru?
Garcia - Atualmente não faço nada. Gosto de visitar os netos e minhas filhas quase diariamente, além de ir para uma pequena chácara que tenho em Birigüi, onde tenho muitos parentes e cuja sede da chácara foi a sede da fazenda do meu avô Nicolau da Silva Nunes, que foi o fundador oficial de Birigüi. E hoje ainda moro em Bauru e no mesmo local em que nasci, na praça Rui Barbosa, quase esquina com o Calçadão, próximo a um estacionamento.
JC - Mas sabemos que o senhor gosta muito de viajar...
Garcia - Graças ao Rotary Clube, viajo muito. Todos os anos vou para Portugal, onde tenho meus parentes. Conheci minha avó e tias, que são falecidas, mas ainda tenho primos. Sempre quando vou para lá tenho relacionamento muito bom com eles, que também nos visitam por aqui. E já levei todos os filhos para lá para conhecer suas raízes em Portugal, pois com isso consigo manter um relacionamento muito agradável e bom para mim e meus familiares. Além disso, também aproveito quando estou em Portugal para fazer um tour pela Europa. Já visitei a Escandinávia, França, Itália, Hungria e Marrocos e nesses lugares tenho de almoçar e jantar. Fico sabendo onde são as reuniões rotárias e vou lá jantar com um pessoal que nunca vi na vida e aproveito para fazer amizades.
JC - As ligações de sua família com Bauru sempre foram muito fortes. A Casa Luzitana, que foi administrada por seu pai durante muito tempo, foi um dos marcos do comércio bauruense e é um exemplo disso...
Garcia - Quando me formei, deixei o jornalismo e comecei a advogar em São Paulo, onde fiquei por cerca de 14 anos. Depois vim para Bauru no início da década de 60 porque meu pai já estava com a idade um pouco avançada e minha mãe me pediu para retornar a fim de ajudar meu pai na administração da Luzitana. Mas aqui ainda exerci a advocacia até meu pai falecer, em 1967, momento em que passei a atuar exclusivamente no comércio. A Casa Luzitana nasceu em 1912 na rua Araújo Leite. Era dirigida pelos irmãos Domingues, que eram patrícios que nasceram na mesma aldeia do meu pai no norte de Portugal. Meu pai veio para o Brasil com 11 anos e foi parar em Belém, no Pará, onde foi trabalhar com os Domingues. Depois de cerca de dez anos, eles vieram para São Paulo e fundaram em Bauru a Casa Luzitana, sem esquecer de chamar meu pai, que tinha sido um bom funcionário. Assim, meu pai foi trabalhar na Casa Luzitana e, à medida que as pessoas iam evoluindo, adquiriam cargos mais avançados. Os irmãos Domingues se separaram e abriram outras duas Casas Luzitanas, em Birigüi e Penápolis. O mais velho deles ficou com a de Bauru e meu pai passou a ser o braço direito dele até assumir o comando do estabelecimento após a morte do antigo proprietário. A Casa Luzitana saiu, no começo da década de 20, da Araújo Leite para a Batista de Carvalho em um prédio que foi construído pelo meu pai. Naquela época era um prédio muito grandioso e bonito e ali meu pai a dirigiu até 1967, quando faleceu.
JC - Quais as razões da Casa Luzitana ter sido tão famosa? Dizem que era o grande shopping center da cidade na época em que funcionou...
Garcia - Exatamente. Chegamos a ter até 6 mil fregueses que compravam fiado. Tínhamos uma frota de 13 veículos com cinco viajantes que percorriam as regiões de Botucatu, Lins e Jaú, além de termos uma seção de atacado que hoje é o local da Cybelar. E onde hoje é o Unibando ali também era a loja. Era uma loja muito grande onde vendíamos de tudo, como miçangas, fitas métricas, botões, sapatos, tecidos, confecções, mercearia, ferragens, eletrodomésticos, arados etc. Éramos diversificados e vendíamos tudo fiado, pois quando chegava o fim do mês emitíamos as contas e os fregueses iam pagar. Não tinha prestação, juros, nada. Durante muitos anos ela funcionou assim, com meu pai até 1967 no comando até eu fechá-la em 1975.
JC - O senhor também sempre foi muito ativo em Bauru ao ingressar e ser membro atuante de diversos clubes na cidade...
Garcia - Sim. Fui presidente da Santa Casa de Misericórdia, presidente do Conselho Deliberativo do Bauru Atlético Clube (BAC) e atualmente sou conselheiro da Associação Comercial, onde meu pai foi presidente durante 30 anos por ser um comerciante tradicional. Além disso, participei da fundação da Associação Luso Brasileira e também fui conselheiro durante muito tempo da Sociedade Hípica de Bauru, do Bauru Tênis Clube e hoje sou um dos membros ativos do Rotary Clube de Bauru, onde fui presidente duas vezes. Sou o rotariano mais antigo da cidade, com 47 anos de atuação e tenho uma freqüência louvável de 100%.
JC - Como o senhor analisa o desenvolvimento de Bauru ao longo das últimas décadas e quais as perspectivas que vislumbra para o futuro da cidade?
Garcia - Acho que Bauru continua crescendo muito no aspecto físico, mas creio que falta um pouco de administração empresarial. Infelizmente, estamos sem uma projeção que deveríamos ter. Bauru precisa de uma pessoa que tenha qualidades de um administrador, sendo uma pessoa viajada, que já conheça administração pública e saiba analisar detidamente os problemas da cidade. Além disso, também precisamos ter um orçamento maior, pois com a saída das ferrovias a cidade perdeu um pouco de sua capacidade aquisitiva. Precisamos ter mais recursos atraindo indústrias e tornando o comércio mais ativo, que perdeu muito com a saída das ferrovias, quando era uma cidade com o comércio, talvez, mais importante do Estado. Enfim, Bauru necessita assumir a vocação para ser líder que ela sempre teve.
JC - É verdade que o senhor é um pouco avesso à tecnologia?
Garcia - Não é que sou avesso, mas é que determinadas coisas não são indispensáveis e não fazem falta para mim. Sempre digo que não tenho computador na minha casa porque gosto muito de ler e ouvir músicas. Para isso tenho um método antigo de fazer e não preciso do computador. Outra coisa que você vai estranhar é que não tenho celular. Não preciso dele, pois não tenho nenhuma atividade comercial e, quando estou em casa, atendo o telefone. Tenho três netas que cada uma tem seu celular e dou risada com isso, pois não sei como elas conseguem falar tanto e por tanto tempo.
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Perfil
Nome: Ary Nunes Garcia
Data de Nascimento: 30/03/1925
Naturalidade: Bauru
Estado civil: Viúvo, com quatro filhos
Profissões que atuou: Advogado, jornalista e comerciante
Hobby: “Estar em contato com os netos e ouvir música, principalmente jazz.”
Livro que está lendo ou recomenda: “Todos de Machado de Assis.”
Time do coração: “Quando o antigo Luzitana Futebol Clube existia, que depois virou o Bauru Atlético Clube (BAC), torcia para ele. Mas hoje sou São Paulo aqui e Fluminense no Rio de Janeiro.”
Cor preferida: Azul
Para que ou quem daria nota 10: “Para Winston Churchill, pois foi um homem fantástico, principalmente por sua importância como estadista para a Inglaterra.”
Para que ou quem daria nota 0: “Para os que contribuíram para a extinção das estradas de ferro que serviam Bauru e para Jânio Quadros, que transformou a escola agrícola em presídio em Bauru.”