Cultura

Artigo: Aplausos a Marisa Orth

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 2 min

Só depois de assistir à peça “Fica Comigo Esta Noite”, escrita por Flávio de Souza e encenada neste final de semana no Teatro Municipal, foi possível entender o porquê do sucesso do texto que chegou à terceira montagem e alcançou recentemente o cinema, com uma adaptação sob a direção de João Falcão. Construído com inteligência, sensibilidade e humor, o espetáculo aborda situações comuns ao público, mas muitas vezes indescritíveis por pertencerem ao campo das emoções do amor e da morte.

No palco, um único cenário recebe tempos diversos trazidos pelos efeitos da luz e do som. Tudo perfeitamente simples. Por trás dos figurinos, dois atores fazem jus ao estrondo do texto de Flávio de Souza: Marisa Orth e Murilo Benício. Ele, como o morto – ops, morto não, sua mulher tem horror à palavra – melhor falecido; e ela como a viúva histérica, apaixonada e ressentida. O mesmo papel que interpretou na primeira montagem do texto, mas que agora, depois de 20 anos, é ainda mais seu, seja pela experiência acumulada ou pela idade muito mais compatível entre atriz e personagem.

E no meio daquela loucura, daquele entra e sai de gente - como o próprio falecido analisa - situações típicas de velórios onde na maioria das vezes se quer ir embora, mas, por compaixão à família, as pessoas são levadas a ficar; que a viúva expulsa todos para estar apenas com ele, para se despedirem.

E sua alma, até então vista apenas pelo público, mostra-se a ela para uma noite de acerto de contas. É neste momento que a peça alcança o seu máximo, quando ator e atriz mostram perfeita sintonia em cena em diálogos escrachados e dramáticos, dissecando a relação desgastada por palavras não ditas.

Murilo cumpre o seu papel, enquanto Marisa simplesmente encarna a viúva, levando o público a acompanhar todo o velório do marido que se faz na cama do quarto do casal, lá mesmo onde ele morreu. Verdade que nossa presença é anônima e onipresente, acompanhando com exclusividade alguns pensamentos e momentos íntimos, como o dia em que se conheceram e a última noite de amor. Com o nascer do dia, vem a despedida e as cortinas se fecham...É hora de ir embora também, mas sem antes se despedir com risos, lágrimas e aplausos, muitos aplausos.

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