No mundo dos automóveis existem várias lendas e uma das mais persistentes é a de que os carros antigos eram mais resistentes devido à espessura da chapa usada em sua carroceria. Verdade ou mito? Ambos, acredite se quiser. Realmente, os carrões de antigamente tinham uma estrutura muito forte devido à chapa mais grossa usada e eram pesadíssimos por causa disso. Em caso de colisões, não chegavam a amassar muito se o acidente ocorresse em velocidades moderadas. Mas em velocidades mais altas, a batida era muito forte devido à inércia de sua massa elevada. E, com um agravante, por ter uma carroceria relativamente resistente, não se deformava tanto e, desta forma, acabava transferindo toda a energia da batida aos passageiros, pois a física não perdoa nem dá desconto.
Hoje em dia, o conceito de projeto de uma carroceria é bem outro. Estruturalmente ela é tão ou mais resistente do que as antigas, mesmo usando chapa mais fina, devido ao projeto estrutural com chapas conformadas e a estrutura monobloco, que dispensa chassis. A estrutura é autoportante, ou seja, todos os agregados mecânicos (motor, cambio, suspensão) são fixados diretamente a ela. Mais, os projetos novos contemplam ainda que as superfícies externas da carroceria sejam deformáveis, absorvendo o impacto em caso de colisão. Isto permite que a energia da batida se dissipe através do amassamento parcial da estrutura, impedindo que esta energia chegue aos passageiros.
Como isso ocorre? É a física novamente, através da lei da conservação de energia. Já sabemos que energia não se perde, ela se transforma. Uma lâmpada transforma energia elétrica em energia luminosa (luz) e energia térmica (calor), em diversos graus de eficiência. O mesmo ocorre com um carro durante uma colisão. Imagine um veículo com quase uma tonelada e meia dando uma senhora batida a mais de 100 km/h, parando em menos de 5 metros. A energia acumulada devido à inércia e a quantidade de movimento daquela massa toda precisa ser dissipada, e a forma que ela encontra para tal é em energia sonora (o barulho da batida), energia térmica (o calor gerado pelo atrito da colisão) e, principalmente, energia mecânica de deformação.
Se esta energia for bem canalizada, poderá atuar sobre as partes envolvidas no acidente de forma a provocar sua deformação controlada, absorvendo a energia sem atingir os ocupantes. O conceito é manter a cabine mais rígida, a chamada estrutura diferenciada ou célula de sobrevivência, enquanto que as partes dianteira e traseira, além dos pára-lamas, sirvam para absorver o impacto e dissipar a energia.
Portanto, vamos pensar melhor antes de criticar os carros “frágeis” de hoje. Os modelos de antigamente podiam parecer mais fortes, mas não tinham estrutura deformável nem cintos de segurança ou vidro laminado no pára-brisa. Em caso de colisão frontal mesmo moderada, eles eventualmente não se amassavam muito, mas os passageiros eram jogados para frente, saindo pelo pára-brisa com seríssimas seqüelas, até fatais.
Hoje, com cintos de segurança, airbag, estrutura deformável e uma infinidade de dispositivos de segurança ativa e passiva, é comum que em casos de acidentes com grande impacto e destruição, o motorista desça andando do carro após a batida para ver o estrago. O carro cumpriu sua missão de preservar os ocupantes, mesmo a custa de grandes danos materiais. Mas para isto tem seguro...
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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e assina uma coluna na revista Quatro Rodas Nitro. Seu site é www.marcoscamerini.