É triste ver que algumas pessoas tentam escrever sobre a Bíblia e nem ao menos conhecem os aspectos da revelação bíblica ou possuem uma compreensão teológica a ponto de fazer uma reflexão correta sobre o Antigo Testamento. Um estudo científico deve estar desassociado de traumas e paixões. Além do mais, não podemos nos esquecer que a ciência não é a verdade última das coisas.
A hipótese de que os cristãos devem renegar o A.T. não é algo recente. A história nos fala de Marcião (90-160 d.C), teólogo radical ortodoxo nascido na Ásia Menor (atual Turquia), que idealizou uma seita, os marcionitas, que colocava o Deus do Antigo Testamento como um falso Deus, inspirada no seu gnosticismo, ou seja, segundo ele Javé era um falso Deus. Ele passou a pregar por um único evangelho, o de Lucas, e as dez Epístolas desjudaizadas de Paulo e afirmava que o Deus verdadeiro era o Deus pregado por Jesus Cristo, um Deus de amor, perdão, bondade. Por isso mutilou os Evangelhos nas passagens que não lhe interessava, rejeitando tudo o que poderia contradizê-lo nas Escrituras. Ele foi considerado herege em 144 d.C.
A reportagem publicada pelo JC mostra que a professora Mariza desconhece todo o processo da formação do Antigo Testamento. Estudar minuciosamente o texto não significa que tenha compreensão exata do que leu. Podemos perceber que a dificuldade gira em torno da pessoa de Deus. Mas quem não conhece a revelação bíblica e os processos de formação da Bíblia não pode falar sobre Deus e Sua revelação. O Deus mostrado no A.T. não é diferente do Deus que aparece no N.T. A Bíblia nos mostra que há uma incompatibilidade entre a Santidade de Deus e o pecado humano. Portanto, esta idéia de dois “deuses”, um do Antigo e outro do Novo Testamento não encontra fundamento. Nas duas partes da Bíblia encontramos o contraste entre um Deus Santo e o homem pecador, vemos o amor e a justiça, a ira e a misericórdia de Deus. A mensagem bíblica é para que este homem se arrependa de sua rebeldia e volte-se para o Senhor. Pois como diz o profeta Isaías: “Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto. Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao SENHOR, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar” (Is. 55:6,7).
Outro fator importante para entender o A.T. é que os escritores bíblicos não tinham nenhuma preocupação científica. A Bíblia não é um livro de arqueologia, geologia ou física. Embora algumas pessoas tentem colocar dúvidas sobre o que a Bíblia descreve, a verdade é que a Escritura está mais perto da realidade histórica do que qualquer outro documento da Antigüidade. A acusação de que a o A.T. é formado por mitos baseados em outros mitos já existentes revela uma falta de compreensão da formação do texto do A.T. e sua evolução histórica. Embora a entrevistada tenha afirmado de que a Bíblia é um “discurso passional que esqueceu toda a lógica da vida”, na verdade revela a total ignorância do próprio texto. A Bíblia não esconde erros. Fala de Abraão, o pai da fé como um homem mentiroso e às vezes confuso quanto suas decisões. Descreve Davi, o amado rei de Israel, valente guerreiro, como alguém com momentos de depressão, assassino, adúltero e péssimo pai. Se a Bíblia fosse passional ela não mostraria os erros destes homens.
E finalmente, se não existe “verdade verdadeira”, então o que é que cremos? Quando alguém fala que toda verdade depende do ponto de vista, revela de fato uma falta de firmeza, pois o que afirmou hoje ser verdade, amanhã pode não sê-lo. A verdade bíblica se baseia em verdades espirituais e eternas. Deus como Eterno, Criador e Sustentador do Universo têm a Verdade. Jesus é a verdade (Jo. 14:6), e Ele disse que a verdade liberta (Jo. 8:32,36). Esta verdade não muda de acordo com as conveniências e produz segurança em todo aquele que crê. A Bíblia é um livro de fé, e embora alguns tentem desacreditá-la, quem lê na perspectiva correta, encontra resposta aos dilemas mais inquietantes da vida.
Gilson Souto Maior Jr. - pastor da Igreja Batista do Estoril e professor de Antigo Testamento da Faculdade Teológica Batista de Bauru - Fateo