O ano é 1970. No Brasil dividido pela ditadura, o verde e o amarelo unem culturas, credos e posicionamentos políticos diferentes e pintam as ruas tomadas pelo clima da Copa do Mundo. Este é o contexto revisitado pelo diretor Cao Hamburger para cenário do longa “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, que está em cartaz no Multiplex Bauru Shopping e no Cine’N Fun do Alameda Quality Center.
Um filme com tons autobiográficos sobre as várias formas de exílio e idealizado pelo diretor em meados de 2001, quando morava em Londres. “Eu também estava meio exilado, era um estrangeiro”, contou Hamburger em entrevista concedida ontem à noite em Bauru, onde esteve com um dos produtores, Fabiano Gullane, para lançar o longa.
De volta ao País, o diretor procurou pessoas com sua idade e que tivessem vivido no bairro Bom Retiro, em São Paulo, conhecido por abrigar pacificamente imigrantes judeus, italianos, gregos, árabes e até mesmo brasileiros. “Encontrei o Cláudio Galperin que havia morado no bairro e, juntos, fizemos o roteiro principal”, lembrou.
Misturando as duas vidas e inventando outras, os dois construíram a história principal. Para estruturar o roteiro, foram convidados ainda Bráulio Montovani, roteirista de “Cidade de Deus”, Cláudio Galperin, autor do ainda inédito “Antônia”, e Anna Muylaert parceira também do diretor no premiado longa “Castelo Rá-Tim-Bum”.
Da parceria, surgiu “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, em que o protagonista é Mauro, um garoto de 12 anos que carrega o sonho de ver o Brasil tricampeão mundial de futebol. De repente, ele é separado dos pais perseguidos pela ditadura e é obrigado a se mudar para o Bom Retiro e se adaptar a uma realidade estranha, mas não menos divertida.
Assim como o garoto, o diretor também viu os pais serem presos durante a ditadura militar, é filho de pai judeu e mãe católica e foi goleiro por vários anos na infância. Talvez seja por tamanha familiaridade que Hamburguer acerta no olhar subjetivo da câmera, em ângulos que, na maioria das vezes, privilegiam o testemunho dos personagens sem, no entanto, invadir suas intimidades. Como na cena em que o menino, vindo de Belo Horizonte, chega a São Paulo e olha com deslumbramento a monstruosidade dos prédios refletidos no vidro do carro.
____________________
Escalação
Para montar a seleção, faltavam ainda os jogadores. De times diferentes, a produção escalou atores de teatro, televisão e até mesmo emprestou as chuteiras para quem evitava a bola, como os novatos Michel Joelsas, o Mauro, e Daniela Piepszyk que interpreta a esperta Hanna. Os dois estudam em escolas da comunidade judaica e foram selecionados entre mais de mil crianças.
Da mistura, nasceu o time campeão que já levou dois troféus nacionais: um de Melhor Filme pelo júri popular no Festival do Rio de Janeiro e outro na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ambos neste ano. “Eu acho que o cinema fica mais legal quando os atores não estão tão desgastados pela televisão. Para isso, a gente tem que achar os atores onde eles estão e daí a mistura com os mais conhecidos, como Caio Blat, Simone Spoladore e Paulo Autran, foi muito legal”, afirmou o técnico, o diretor Cao Hamburger.
“O Ano...” é mais uma prova da qualidade da produção cinematográfica brasileira que, mesmo diante de adversários monstros, percorre o campo com gingado, dribla o pouco recurso, dá um chapéu na falta de salas de cinema, chega à grande área e, para o orgulho dos brasileiros - mesmo os que não puderam pagar o ingresso para estar no estádio -, faz um gol de placa!