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O direito de dizer e o dever de ouvir


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Lady Astor a Winston Churchill: “Winston, seu eu fosse casada com você, botaria veneno no seu café”. Churchill a Lady Astor: “Se você fosse minha mulher, eu certamente o beberia”.

Nancy Astor estava brava com Churchill que trocara ofensas com seu marido na campanha eleitoral. A grande dama não quis perder a chance do revide, no encontro casual no restaurante, quando o primeiro ministro tomava seu cafezinho para encerrar o jantar.

Quem diz o que bem quer, ouve o que não quer. Nem sempre com a tirada inteligente de Churchill. Os ingleses avaliam a elegância das pessoas pelo “fair-play”, isto é, saber ganhar e perder. É na limitação que se revela o condutor. Goethe tem uma definição que parece ajustar-se no que quero dizer: “Converte-se em erro grave tanto o se julgar mais poderoso do que se é quanto o se estimar menos do que merece”. Aplicar palavras certas, em lugares certos, no tom correto, são atributos indispensáveis a quem se propõem bem liderar.

Outro dia, numa festa animada, um amigo que já transpôs a gloriosa barreira dos 80 incomodou-se com o som alto do rock. Pediu para baixar porque não conseguia conversar comigo, que estava ao seu lado. No comando da mesa de som de nem sei quantos canais, o garotão de rabo de cavalo tirou o fone do ouvido para ouvir o pedido daquele que pensou ser um hippie dos anos 60. “Abaixar??? Mas eu sou Dijei!!” A resposta saiu no mesmo tom: “E daí. Eu sou o João!!” Sem acordo, mandou o animador enfiar as caixas de som e foi embora.

Achei correto. Depois de uma certa idade todos têm direito a um destampatório. É uma forma de proteger as coronárias que ficariam se remoendo sem a possibilidade de um desabafo. Lembro-me daquele velhinho que investiu contra José Dirceu com a sua bengala, chamando-o de “Fristão”, maligno ladrão dos livros de d. Quixote. Aquele mago que transformou gigantes em moinhos, só “para me privar da glória de vencê-los”.

O episódio deve ter inspirado Luiz Fernando Veríssimo ao reivindicar que a lei permitisse a toda pessoa, depois dos 70, usar sua bengala contra quem quisesse, sem o risco de retaliação, reprimenda ou processo. Para que não fosse acusado de insuflar a violência, haveria uma quota anual de bengaladas contra velhos desafetos, implicâncias, diferenças, artimanhas políticas ou monetárias. Imagino todos os velhinhos do Brasil, na porta do Congresso Nacional, despejando as suas cotas de bengaladas nas cabeças dos parlamentares que duplicaram os próprios salários. Depois de tantos mensalões e sanguessugas, deputados e senadores ainda se acharam no direito de se presentearem com um trem da alegria às custas da viúva.

Na política, o boquirroto se vale do muito falar e da indiscrição, simulando ingenuidade ou autenticidade, para desviar atenções daquilo que se quer ver oculto. No alardear o que pensa, cria fatos e projeta uma imagem na mídia, capaz de torná-lo conhecido em todos os mares navegáveis, tamanho é o impacto das palavras e conceitos. Montesquieu dizia que, para alcançar sucesso na sociedade humana, era preciso ser louco e inteligente. Acho que, no curto prazo pode-se conseguir vitórias circunstanciais, mas que não se concretizam em êxitos definitivos.

Os behavioristas - aqueles que estudam as ações humanas - afirmam que nossas palavras e ações podem ser explicadas sem que ponhamos em jogo experiências psicológicas, como intenções, desejos e sentimentos. Por isso foram acusados de “fingir analgesia”. Provocados, usam uma navalha que corta e separa entidades de modo a que possam ser postas no devido lugar. É complicado explicar que a consciência não desempenha papel algum no modo como agimos...

A cidade comenta os entreveros verbais do prefeito Tuga Angerami, um behaviorista. Conta-se que no restaurante da Márcia, de boa comida, encontrou-se com uma senhora que estava com sua cota intacta de bengaladas. Bateu, levou. Precavido, no dia seguinte resolveu almoçar no Reghini, conhecido pela freqüência de caminhoneiros. Por via das dúvidas, com a cara na porta sondou o ambiente. Um motorista o reconheceu e gritou lá da mesa do fundo: “Pode entrar que aqui ela não vem!”

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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