Geral

Mães ‘trocam' filhos por diversão

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

A imagem de zelo e carinho a que estão associadas as mães no imaginário popular nem sempre encontra equivalente na vida real. Pesquisa para trabalho de conclusão de curso (TCC), realizada por duas alunas de serviço social da Instituição Toledo de Ensino (ITE), aponta que a negligência é a forma mais recorrente de violência em lares comandados por jovens mulheres.

Entre fevereiro e outubro deste ano, Paula Gallotti Baezza e Simone Martins Dantas acompanharam a oito trajetórias de pessoas atendidas pelo Centro de Registro e Atenção aos Maus Tratos à Infância (Crami), órgão ligado à Fundação Toledo (Fundato).

As duas pretendiam analisar a violência doméstica nas famílias matrifocais de Bauru. O termo designa situações nas quais o sustento e a educação dos filhos são deixados sob responsabilidade da mulher, independente da presença ou não de um homem na casa.

Todos os grupos pesquisados contavam com três ou mais crianças, cada uma de um pai diferente. No decorrer do trabalho, as estudantes constataram que se tratavam de mães jovens, com menos de 30 anos. Todas tinham baixa escolaridade, trabalhavam em condições precárias e eram obrigadas a sobreviver com rendas bastante baixas. Apesar de tantos fatores, Dantas acredita que a pouca idade seja a principal causa para tal negligência da parte das mulheres.

“Elas querem aproveitar a vida, sair à noite, ficar no bar, por isso deixam as crianças abandonadas em casa”, explica. O achado causou surpresa nas duas pesquisadoras. “Pensávamos que as mães nessa situação cometiam a violência devido ao acúmulo de tarefas e responsabilidades no dia-a-dia. Na verdade, elas deixam os filhos sozinhos para poder se divertir”, afirma Dantas.

Uma moradora de um bairro da zona norte de Bauru enquadra-se quase que perfeitamente no descrição feita pelas duas pesquisadoras. Tem 26 anos, não é casada e precisa sustentar a casa. A única diferença, é que ela tem dois filhos de um mesmo pai: um menino de 4 anos e uma garota de 5 anos.

Apesar de toda essa responsabilidade, a mulher não costuma ser muito zelosa com relação às obrigações maternas - inclusive, ela chegou a ser atendida pelo Crami, há algum tempo, mas seu caso não estava entre os analisados por Dantas e Baezza. “Ela não pára em casa. Fica no bar a noite toda e deixa as crianças largadas.” Quem afirma isso é a própria irmã da pessoa em questão.

A versão é confirmada pela própria mãe da jovem. Ela diz que a filha é violenta, usa drogas - inclusive na frente dos menores - e não gosta de trabalhar. “Tem dias em que ela chega bêbada em casa e espanca as crianças”, diz. Dantas e Baezza também constataram diversos casos de agressões físicas nas famílias pesquisadas. “É uma forma de violência muito recorrente nesses meios”, garantem.

Os efeitos dessa negligência já podem ser notados no comportamento das duas crianças. O menino passa os dias pedindo esmolas pela vizinhança. Com uma chupeta na boca, repete sem parar a palavra “dinheiro”. “Teve vezes dele chegar em casa depois das 23h”, denuncia a tia.

A avó já desistiu de segui-lo pelas ruas. “Quando vejo, ele já escapou pelo portão. Como tenho problema na perna, não posso correr atrás”, explica. Segundo a mulher, a filha não demonstra estar muito preocupada com o comportamento do menino. “Ela fala assim: ‘só se eu deixar ele amarrado'”, diz.

Ao contrário do garoto, a menina é mais comportada, mas de vez em quando solta fala palavrões. Desalentada, a avó não tem grandes esperanças quanto ao futuro das crianças. Em determinado momento, diz que preferiria ver os dois em um orfanato, mas depois se arrepende e fica pensativa. “Eu sonho se tornem boas pessoas quando ficarem grandes. Mas do jeito que a coisa vai indo...”, lamenta.

Comentários

Comentários