Ser

Momentos registrados na pele

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 9 min

Mais do que arte no corpo, a tatuagem é um estilo de vida que conquista cada vez mais adeptos no Brasil. Seguindo diferentes estilos, os traços, linhas e cores das tatoos marcam na pele os acontecimentos e momentos considerados importantes na história de vida das pessoas.

Assim como os fatos, elas são definitivas e dificilmente podem ser apagadas. Justamente por isto a escolha de uma tatuagem deve ser balizada por maturidade e responsabilidade, enfatiza o tatuador Marcelo Paro, 33 anos. Com aproximadamente uma década de experiência na área, ele defende que, antes de iniciar um desenho, o profissional deve prestar muita atenção na pessoa para captar aquilo que ela tem em sua mente. “A tatoo puramente comercial não funciona”, observa, em entrevista concedida em seu estúdio de tatuagem, montado em parceria com o irmão, Marcel Paro.

Para Marcelo, apesar de terem se transformado em ícones fashions, estampando roupas e acessórios, as tatuagens não seguem a moda e fazem parte da cultura do homem. Desde a antigüidade, elas já existiam como forma de expressão e consagração entre indivíduos da mesma tribo. Hoje, o simbolismo das tatoos ainda persiste e encontra adeptos em diferentes grupos de pessoas. Técnicas e estilos de desenho, além de mitos envolvendo o mundo das tatoos, foram questões abordadas no bate-papo. Confira a seguir.

Jornal da Cidade – Por que as pessoas fazem tatuagem?

Marcelo Paro – Para se identificar com algo. Muitas vezes, elas precisam disto. Por exemplo, a pessoa quer escrever a palavra amor no corpo porque tem muito amor no coração e quer marcar em si o que prega e cultua. Por isto a tatuagem tem um valor tão especial na vida dos indivíduos.

JC – A tatuagem deve ter algum significado?

Marcelo – Sim. E o significado da tatoo varia de acordo com a pessoa. Por exemplo, eu tenho diversas tatuagens que fazem parte da minha história e representam cada época da minha vida. Quando eu era punk, curtia coisas do gênero e por isto resolvi marcar aquela fase tão importante para mim. A mais recente que fiz no corpo é uma máquina de tatoo, porque acredito que me consagrei como tatuador. Tenho também uma outra tatoo que simboliza a mim e meu irmão. Nós trabalhamos juntos no estúdio.

JC – A tatuagem é um estilo de vida?

Marcelo – Para mim é um estilo de vida, é mais do que arte no corpo.

JC - Por quê?

Marcelo - Eu vivo da tatuagem. E isso também acontece com o indivíduo que deseja marcar o nascimento do seu filhinho no peito e com diversas pessoas. A tatuagem faz parte da vida e mesmo que não seja pela parte estética seu valor espiritual é importante e muito pessoal. Recentemente, meu irmão fez uma tatoo em uma moça. A mãe dela teve câncer, se curou e, para pagar uma promessa, escreveu dois provérbios em suas costas. Ela ficou feliz porque para ela e sua família a tatuagem estava relacionada ao poder de cura. Outro caso é de uma mulher que vai completar 50 anos e quer fazer uma tatuagem de fênix para simbolizar que está renascendo das cinzas. Por isto é preciso ter muita atenção para captar aquilo que a pessoa tem em sua mente. A tatuagem puramente comercial não funciona.

JC – Quem pode fazer tatuagem?

Marcelo – Pessoas com menos de 18 anos não podem fazer tatoo. Para maiores de idade, está liberado. Mas é preciso acompanhar bem o indivíduo, fazer diversos testes, estudar e explorar ao máximo sua mente para ajudá-lo a acertar na escolha. Depois de ter certeza do desenho e estilo de tatuagem que a pessoa quer, o tatuador deve procurar fazer o desenho à mão livre para deixá-lo anatômico ao corpo. A partir daí, tudo deve fluir para o lado positivo. Hoje em dia, o arrependimento em relação à tatuagem está quase zero, só não está completamente 100% porque ainda existem pessoas que fazem de qualquer jeito. Às vezes, isto ocorre por falta de instrução mesmo; de tanta vontade de fazer uma tatuagem, a pessoa pode fazer o procedimento com pressa e ocorrer algo errado.

JC – E nestes casos, é possível reparar uma tatuagem mal-sucedida?

Marcelo – Algumas vezes sim, outras não. Geralmente dá-se um jeito, mas o trabalho não fica 100%, como aquela tatoo feita com a pele limpa e de forma programada para que ela fique anatômica e tenha a ver com a história de vida da pessoa. Isto é importantíssimo.

JC – Em geral, qual é a faixa etária das pessoas que fazem tatuagem?

Marcelo – É difícil saber, mas geralmente as pessoas que vêm ao nosso estúdio têm mais de 25 anos. Fiz agora uma tatuagem em um homem de 70 anos e em sua esposa, de 68 anos. Os indivíduos que nos procuram, em geral, estão bem-sucedidos, são maduros e sabem o que querem da vida. Fazer uma tatuagem não é para qualquer um. A pessoa tem que ser decidida, estar realmente afim e ter muita personalidade, porque a tatuagem é definitiva.

JC – Quando você não faz tatuagem? Já recusou alguma?

Marcelo – Não chega a ser uma recusa, mas um aconselhamento. Por exemplo, recentemente um rapaz nos procurou, mas estava indeciso, não sabia se queria fazer ou não a tatuagem, e pediu a opinião dos amigos, mas não é por aí. É a pessoa quem deve decidir porque vai usar esta tatoo para o resto da vida. Então, precisa tê-la no seu coração, saber o que quer. Não basta chegar e fazer tatuagem porque é legal, bonito ou porque outros acham que é bom. Quando a pessoa está indecisa, eu prefiro fazer 100 testes, sem compromisso, para que ela tenha certeza do que deseja e, desta maneira, ajudá-la a direcionar seu pensamento para o caminho correto.

JC – Como são realizados estes testes?

Marcelo – Eles são feitos com retro-projetor e desenhos à mão livre. Por exemplo, seleciono um tema oriental e outro indiano, fotografo-os e os guardo em uma pasta no computador. Aí a pessoa leva o CD com as fotos para a casa, vê com a família e analisa as imagens até se identificar com alguma. Quando a tatuagem “bater em seu coração”, ela saberá o que quer. Na realidade, é a tatuagem que “pega” a pessoa e não o contrário. Ela está muito ligada à emoção, mas é preciso pensar racionalmente e ter certeza de sua decisão antes de fazer uma tatoo.

JC – A tatuagem está na moda? Qual é a influência disto?

Marcelo – Há dez anos, as pessoas ainda a criticavam, mas hoje a tatuagem virou um tema. Um caderno para criança tem tatoo. As roupas também. As pessoas querem vender, mas isto não abala o universo da tatuagem. É um mundo à parte que usa a imagem da tatuagem, mas que na verdade não é tatoo. É preciso saber separar o joio do trigo. Por outro lado, este aspecto comercial ajuda, de certa forma, a divulgar a tatuagem. É uma sementinha plantada e, com o tempo, as pessoas começarão a entender e perceber que ela tem um fundamento cultural muito forte. A tatuagem existe desde a antigüidade. Vou citar como exemplo um homem das cavernas, que lutou contra um tigre e venceu. Naquela batalha, ele rasgou seu corpo e, para ele, a cicatriz era uma tatuagem, que marcava determinado feito e era sinônimo de honra em sua tribo.

JC – O que motiva a onda das tatuagens?

Marcelo – Nos anos 60 e 70, havia uma influência hippie e as pessoas faziam estrelas, que estão na moda hoje, mas já vêm de muito tempo. Ideogramas, no Brasil, foram uma onda que “pegou” mais tarde e até hoje faz sucesso. Os tatuadores se especializaram nas tatoo oriental porque ela veste o corpo da pessoa e possui muitos temas e significados. Além disto, é muito bonita e vem de uma cultura milenar.

JC – E em relação às tatoos que reproduzem pinturas e obras de arte famosas? É novidade?

Marcelo – Nunca foi moda porque para fazer uma tatoo de uma obra de arte a pessoa precisa ter uma ênfase cultural avançada. Não é para qualquer um. Eu considero isto um segmento da tatuagem porque tem profissionais especializados só em tatuagens de obras de arte, como uma pintura de Miró, e fica bonito.

JC – Apesar dessas ondas, ainda existe preconceito contra a tatuagem? Por quê?

Marcelo - No Brasil, as tatuagens começaram a ser feitas no porto, por marinheiros, algumas mulheres e também por alguns historiadores e intelectuais considerados “malditos”. Eles faziam as tatuagens não por motivo de rebeldia, mas por amor à arte e prazer, só que isto era interpretado de forma negativa. É por esta razão que existia esta imagem, mas atualmente ela já está sendo expelida e se tornando cada vez menor. A pessoa pode ter preconceito contra alguém tatuado, por exemplo, mas quando menos esperar, seu filho ou neto pode aparecer com uma tatoo. E como ela os ama, perceberá que tudo continua igual. Aprenderá a aceitar e entender que a tatuagem é importante para a outra pessoa.

JC – Quais são os mitos envolvendo a tatuagem? Eles ainda persistem?

Marcelo – Existem muitos, mas reforço que não passam de mitos. Por exemplo, a idéia de que números pares de tatuagens dão azar. Esta história vem do século 16 e dizia que, se os pescadores fossem para o mar com um número par de tatuagens, teriam azar e todos iriam morrer; além disto, um polvo gigante iria derrubá-los. No Brasil, quando a tatuagem começou, os tatuadores não eram tão profissionais e usavam um pouco de malícia para conseguir trabalhos. Para atrair mais clientes, eles diziam que, para não ter azar, a pessoa não deveria fazer duas, mas três tatuagens, sempre com número ímpar de tatoos.

JC – Quais são as regras de higiene e limpeza utilizadas na hora de fazer uma tatuagem?

Marcelo - A higiene deve ser total. Todos os instrumentos devem ser muito bem esterilizados. No estúdio, usamos hastes – peças acopladas à máquina de tatuagem - descartáveis para fazer nosso trabalho.

JC – Quais os requisitos necessários para ser tatuador? Existe algum curso de formação específico na área?

Marcelo – Quando eu comecei não havia, mas é muito importante que o profissional tenha um bom preparo. Além disto, deve procurar um tatuador que deseja ensiná-lo a trabalhar e começar no caminho certo, mas é preciso ter feeling e se identificar com a tatuagem para se dedicar ao trabalho.

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