Cultura

Até na Educação cultura não é prioridade

Adriana Fricelli com Agência Folha
| Tempo de leitura: 4 min

Quem passou pelas carteiras escolares até a década de 70 deve se lembrar das disciplinas de canto orfeônico, educação musical e desenho, obrigatórias pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) da época. Com a publicação de uma nova lei, em 1976, essas disciplinas foram abolidas do currículo, respeitando a política neoliberal que prioriza a formação técnica do indivíduo em detrimento da humana.

A análise é do professor e dramaturgo bauruense Pedro Fernandes Ribeiro, para quem a educação atual tende a robotizar o homem. “Hoje, a escola está voltada para o mercado de trabalho, sem se preocupar com a formação humana propiciada por essas atividades lúdicas. O importante agora é formar mão-de-obra, a mão é a obra e não mais o cérebro”, afirma.

Mesmo sem um estudo fundamentado sobre o tema, o professor universitário e historiador Célio Losnak tem uma opinião sobre as mudanças ocorridas no currículo escolar. “Antes, havia uma política educacional com uma visão mais global do indivíduo. No final da década de 70, o ensino passou a ser mais técnico”, diz.

Losnak foi um desses alunos que teve a chance de estudar canto em Bauru. “Eu entrei na primeira série em 1971, na Escola Estadual Stela Machado, e me lembro da disciplina de canto orfeônico. Acredito que, independente do redirecionamento da política educacional, essas atividades deveriam ter sido mantidas”, coloca.

A professora Silvia Marisa Nogueira Mendes Pereira acompanhou toda essa mudança de perto, primeiro como aluna e depois como profissional. Quando ainda estudava, ela se recorda da movimentação cultural que existia dentro da escola. “Os alunos tinham uma atuação muito grande. Nós montávamos peças de teatro, além das aulas de música. Como era bom sair da aula de matemática e relaxar a mente com o canto”, lembra.

Atualmente como professora, ela sente a falta dessas aulas no processo de aprendizagem de seus alunos. “Essas atividades eram importantes para a compreensão de outras disciplinas. Agora, o foco está na informação pela informação, sem oferecer ao aluno a possibilidade de olhar o mundo de outra forma”, coloca.

Maria Luiza de Camargo também é professora e lamenta a ausência da cultura na Educação, além de enfatizar a importância do Estado em canalizar o acesso da criança à arte. “A cultura é tudo. Você aprende a ouvir, a interpretar. Quando estudava, aprendi a tocar flauta doce. Era uma forma dos alunos mais carentes aprenderem música porque não teriam condições de pagar aulas particulares”, enfatiza.

Sem palco

O desleixo do Estado com a cultura no processo educacional pode ser conferido na quase ausência de teatros nas escolas públicas de Bauru para apresentações de espetáculos de música, dança e artes cênicas. Segundo dados da Diretoria Regional de Ensino de Bauru, no Município existem 49 escolas estaduais. Dessas, apenas uma, a EE Ernesto Monte construída em 1934, conta com toda a infra-estrutura de um teatro. Nas escolas municipais de ensino fundamental, a situação é ainda mais grave. Dos 14 prédios, nenhum tem teatro.

A realidade bauruense é diferente da observada em grandes centros, como Ribeirão Preto e São Paulo. Segundo o arquiteto e vice-presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Bauru (Codepac), Nilson Guirardello, em outras cidades as escolas mais antigas tinham verdadeiros teatros, espaços extintos nas construções mais recentes.

“Como arquiteto, eu consigo observar essa mudança, não em Bauru, onde não temos bons exemplos. Mas, em outras cidades, nos prédios escolares dos anos 10 e 20 havia uma preocupação com a qualidade da construção que refletia no teatro. Eram edifícios imponentes e monumentais. Mas, por volta da década de 70, as construções passaram a ser mais simplificadas e o teatro perdeu espaço”, analisa.

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Escola integral

A fim de reforçar o aproveitamento escolar, a auto-estima e o sentimento de pertencimento dos alunos, o governo estadual lançou no ano passado o projeto “Escola de Tempo Integral”, em que os estudantes permanecem na instituição durante todo o dia, participando de aulas regulares no período da manhã e de oficinas de artes, línguas, esporte e informática à tarde. O programa prevê ainda aulas de integração social, educação ambiental, ética e filosofia.

Segundo a Diretoria Regional de Ensino (DE), em Bauru, apenas duas escolas possuem a infra-estrutura necessária para receber o programa, implantado neste ano. São elas as escolas estaduais José Aparecido Guedes de Azevedo, no Jardim Bela Vista, e Edison Basto Gasparini, no Núcleo Gasparini.

De acordo com a assistente técnico pedagógico da DE, Ana Maria de Almeida Belotti, as oficinas oferecem um suporte para o conteúdo aprendido na manhã, além de trabalhar o lado solidário, humano e cidadão do aluno que está se formando. Mas as duas escolas atendidas pelo programa estadual ainda carecem de infra-estrutura adequada para o desenvolvimento das atividades. “Precisamos de algumas adequações, como por exemplo as quadras, que precisam ser melhoradas, mas as escolas estão, aos poucos, se adequando”, afirma.

Neste ano, os alunos que participaram do programa realizaram diversas oficinas. No campo da arte, Belotti cita os trabalhos em artes plásticas e artes cênicas. Para apresentar as peças de teatro desenvolvidas, os alunos da escola José Aparecido Guedes de Azevedo ainda puderam encenar num pequeno palco construído no pátio, enquanto que os estudantes da Edison Basto Gasparini tiveram que se contentar com a própria sala de aula.

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