Regional

Simesp acusa hospitais de promoverem ‘trabalho escravo’ nos plantões a distância

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 3 min

Jaú - De um lado hospitais, como santas casas, sendo acusadas de não pagarem o plantão a distância. Do outro, médicos especialistas exigindo o recebimento pela disponibilidade.

Em entrevista ao JC ontem, o presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), o médico neurocirurgião Cid Célio Jayme Carvalhaes, comparou a situação ao trabalho escravo: “Especialmente as santas casas não querem remunerar e estão, mais ou menos, assumindo uma postura de trabalho escravo. Trabalha sob todas as responsabilidades e não ganha. Evidentemente, trabalhar sem ganhar não é justo”.

Essa queda-de-braço mobilizou ontem representantes do Simesp, Conselho Regional de Medicina (CRM), Associação Paulista de Medicina (APM), diretores clínicos e outros médicos para tomarem uma posição.

O médico Paulo de Tarso Nuñes Chiode, diretor da Regional da Simesp em Jaú (47 quilômetros de Bauru), explica que o problema é nacional. A regional do Simesp em Jaú abrange 11 cidades e representa 250 médicos.

A reivindicação da classe médica se baseia em recente portaria do Conselho Federal de Medicina, órgão do Ministério da Saúde, que determinou que todo plantão de retaguarda deve ser remunerado em um terço do valor pago por plantão no local. Segundo Chiode, o prazo para se firmar acordo se encerrou na semana passada. “Existe uma situação cômoda das instituições hospitalares que dizem que não têm dinheiro para pagar esses valores”, avalia.

Hoje, nos plantões hospitalares existem, basicamente, duas estruturas de atendimento. A primeira conta com médico plantonista que recepciona as emergências e urgências na porta do hospital, fazendo uma triagem. Esses profissionais encaminham o paciente para o especialista de cada área, que são os médicos de retaguarda e que ficam disponíveis para ser chamados a qualquer hora.

São neurocirurgiões, ortopedistas, cardiologistas e cirurgiões gerais, entre outros que são da retaguarda. Na opinião de Chiode, eles ficam preso à disponibilidade, mas não estão sendo remunerados pelo plantão a distância.

“Ele (médico de retaguarda) responde civil e criminalmente e ai dele se não for atender ao chamado. Não queremos travar o sistema de atendimento, mas não podemos ficar de braços cruzados”, salienta. Chiode esclarece que 99% dos atendimentos nas santas casas são pelo convênio com o SUS.

O diretor da regional do Simesp em Jaú avalia que o valor pago pelo SUS é irrisório. Segundo Chiode, numa hipótese de cirurgia de retirada de baço em paciente atropelado e com hemorragia, o médico recebe do SUS cerca de R$ 50,00, num prazo de 90 dias.

Ele esclarece que recebe por paciente que interna particular ou por convênio na Santa Casa. “Há de convir comigo que paciente particular hoje é raridade em hospital. Alguns pacientes conveniados têm já o seu médico que o trata de maneira familiar. Chega lá um paciente com apendicitem, só que não adianta eu estar de plantão porque ele trata com o médico fulano ou sicrano. Ele é direcionado para o médico que faz o acompanhamento dele. Só passa pelo médico de retaguarda quando o paciente escolhe”, garante.

Qual for o sistema (convênio o particular), a Santa Casa recebe as despesas com hotelaria do paciente. Chiode acrescenta que, no caso específico da Santa Casa de Jaú, o médico de retarguarda recebe apenas R$ 40,00 a título de pró-labore para um plantão de 24 horas. “Isso não paga nem a instrumentadora que eu tenho que pagar para estar no plantão”, salienta.

Carvalhaes acrescenta que, caso o médico não aceite atender sem receber, será responsabilizado por omissão de socorro. Ao justificar o pagamento pelo período à disposição de hospitais, o presidente do Simesp acrescenta que os médicos querem sim atender a população e com o atendimento mais ágil. Ontem à noite, a reunião na sede da regional do Simesp em Jaú definiria uma forma de reverter a situação desfavorável para os médicos.

O JC tentou ontem contato com a Santa Casa de Jaú, mas a assessoria de imprensa não foi localizada no hospital e nem um representante da direção.

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