São Paulo - Elegantérrimo, Clodovil Hernandes (PTC) pareceu o único realmente incomodado com as vaias recebidas durante a cerimônia de diplomação dos deputados federais eleitos por São Paulo, ontem na Assembléia Legislativa de São Paulo (Alesp).
Outros vaiados, como o ex-ministro Antônio Palocci (PT) e Valdemar Costa Neto (PR, eleito pelo PL), adotaram pose teatral, como se não estivesse acontecendo nada. Outras potenciais vítimas do apupo, como o presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PC do B), e o ex-presidente do PT José Genoíno nem compareceram.
A festa da diplomação acabou se tornando uma espécie de julgamento. Para além dos deputados apoiados por claques, somente a deputada Luiza Erundina (PSB) pareceu receber uma espécie de aclamação coletiva. Mas ela era exceção. O desfile foi em boa parte de acusados - particularmente pelo escândalo do mensalão. E quase todos estavam sob suspeita de patrocinar o próprio superaumento. Foi uma festa envergonhada da democracia.
No caso do costureiro e apresentador Clodovil, pode-se falar que houve humor. Afinal, entre vaias e aplausos, ele recebeu alguns “fiufius”, assobios tipicamente endereçados a mulheres. Só que esses assobios revelam também preconceito contra homossexuais. E assim a “festa” se tornou realmente o que era: tragédia, farsa.
O deputado mais votado no Estado apareceu de bengala, andando devagar. “Mais gordo e mais velho”, disse com certa pena um deputado tucano sobre o também vaiado Paulo Maluf. Entre os jornalistas, na sala de imprensa, a interpretação dominante foi a de que ele estaria atuando, fazendo jogo de cena para parecer uma vítima - ele que possui tantas investigações em seu encalço, das administrações na prefeitura paulistana à existência de contas no Exterior.
Na saída do plenário, os deputados eram sistematicamente parados para opinar sobre o aumento salarial, a decisão-frisson tomada pelo ex-comunista Renan Calheiros (PMDB) e pelo comunista (pelo menos em tese) Aldo Rebelo (PC do B). Em meio a notícias ainda desencontradas sobre decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de suspender a medida, pelo menos até que ela seja submetida ao plenário da Câmara, os deputados invocavam o STF para se safar das perguntas. Foi o caso de Walter Feldman (PSDB), que ao menos deu a senha para um movimento possível no plenário: “Se aprovarem, abrimos mão do salário”.
O mesmo disse o advogado Régis de Oliveira (PSC), invocando a inconstitucionalidade do projeto e declarando que a diferença, em caso de aprovação de fato, será doada para instituições beneficentes. No termômetro do saguão da Assembléia paulista, todos diriam que a aprovação do superaumento será algo impensável em Brasília.
Mas eis que surge o deputado Ricardo Berzoini (PT), ex-presidente do partido e um dos mais vaiados na manhã calorenta em São Paulo. Diante dos microfones, ele adota um discurso pouco objetivo em relação ao aumento (não diz que é justo, mas que é preciso analisar as distorções em relação aos três poderes) e define mais de uma vez a questão da votação no plenário como algo “técnico”.
“Mas, deputado, não é somente algo técnico, a votação em plenário implica uma prestação de contas para a sociedade”, argumenta o repórter. Berzoini desconversa e ouve a mesma pergunta. Diz “obrigado” e ouve pela terceira vez a mesma pergunta - “prestação de contas para a sociedade”, etc. Berzoini diz novamente “obrigado” e vai embora.
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Serra
A agitação foi tanta na Assembléia Legislativa de São Paulo (Alesp) que sobrou até para o governador eleito, José Serra. No momento de sua diplomação, um dos convidados se levantou e, da galeria, chamou o tucano de sanguessuga e vampiro. Em resposta, o público gritou o nome de Serra, provocando a adesão dos deputados aliados. Em retribuição ao coro, o governador eleito ergueu os braços.
Após posar para fotos com deputados eleitos e agendar audiências até com petistas, Serra deixou a Assembléia esquivando-se das polêmicas: pelos fundos. A galeria da Alesp tem capacidade para 230 pessoas. Pelo menos outras 50 pessoas assistiram à cerimônia de pé.
Folhapress