Buenos Aires - Setores piqueteiros, estudantes, desempregados, organizações sindicais, partidos de esquerda e organizações de direitos humanos, representados por grupos críticos ao governo do presidente Néstor Kirchner, fizeram ontem marcha no centro de Buenos Aires para lembrar os mortos pela repressão policial há exatos cinco anos. Reduzido, o protesto que, segundo estimativas, não passou de 7 mil pessoas, só evidencia a retração da participação popular na Argentina depois da crise generalizada que explodiu em dezembro de 2001, quando a derrocada da economia levou à renúncia do presidente Fernando de la Rúa e ao fim da dolarização.
A manifestação de anteontem foi bem diferente da rebelião popular de 20 de dezembro 2001, quando um clima de agitação social e violenta repressão policial culminou com a fuga de De la Rúa, de helicóptero, da Casa Rosada. Ela impede que se diga que a efeméride passou em brancas nuvens.
Na prática, porém, os argentinos estão pouco preocupados com a data. Buenos Aires hoje, com a recuperação econômica e com grande aprovação ao governo de Kirchner, dá sinais claros de uma menor politização. Com partidos políticos enfraquecidos, a cidade, famosa por seus piquetes, também viu o tamanho das marchas diminuir. As manifestações que mais reuniram pessoas recentemente tinham como tema questões relacionadas à segurança.
“Claro que há muitas coisas contra as quais protestar. A confiança das pessoas nas instituições não se recuperou. O que as mobiliza hoje são questões mais imediatistas, como a construção de um arranha-céu no bairro ou a poluição que pode gerar uma indústria papeleira. Isso não acontece com temas mais intangíveis”, analisa o cientista político Sergio Berensztein. Segundo levantamento do Centro de Estudos Nueva Mayoria, realizado pelo analista Rosendo Fraga, 2006 teve a menor quantidade de bloqueios de trânsito por protestos dos últimos seis anos.
A média mensal ficou em 64, contra 115 em 2001, 194 em 2002, 106 em 2003, 98 em 2004 e 100 em 2005. O estudo também mostra que os piqueteiros “perderam protagonismo nessa modalidade de protesto”.