Pesca & Lazer

História de pescador: Pescador e violeiro


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Senhor Francisco Ribeiro, morador lá pras bandas de Arealva, violeiro bom que só vendo, resolveu mudar para o município de Piratininga. Fim da década de 40, Seu Chico com a mulher, seus 4 filhos, aportavam com a mudança na fazenda São Geraldo. Era a febre do café, ao longo da linha da paulista de estrada de ferro, esta fazenda ficava na estaçãozinha de Alba, no pé da serrinha da Jacutinga.

No fim dos anos 50, seu Chico, já com a criançada formada, folgou um pouco nas tabelas de café e passou a sair mais com sua viola, coisa que fazia muito de vez em quando. Passou a tocar mais ali pela colônia da fazenda nos dia de semana; sábado ele ia até Piratininga, na venda do seu Romano, tinha sempre uma boa conversa, uma pinga de corote, que lá pelas dez da noite já fazia o seu Chico misturar a turina com a tuera.

Num desses sábados, seu Chico resolveu levar seus dois filhos mais velhos. Lá foram para Piratininga, seu Chico, o Geraldo e o Nelson. Antes de saírem da fazenda, ali mesmo pela colônia, os meninos arranjaram algumas companhias, seguiram em seis para Piratininga. Seu Chico, como de costume, chegou na venda do Romano, sentou numa lata de querosene que ele mesmo forrou com um saco de estopa, aparecendo logo outros amigos.

Ali saía de tudo, modas de viola, mentiras de pescadores e até alguns causos de assombração. Enquanto isso a rapaziada fazia a praça, passeando no jardim da Igreja Matriz de Santa Maria de Piratininga. Às dez da noite, como que por encanto, todos se recolheram, só o pessoal das fazendas ainda era visto nas ruas de saída da pequena cidade, entre carroças, charretes e bicicletas, muitos moços e moças a pé.

Em meio aos retirantes, um pequeno grupo de cinco rapazes parou na venda do seu Romano, que eles chamavam de último gole. Seu Chico e seus amigos seguiam animados com a cantoria. Nelson, Geraldo e seus colegas chamaram seu Chico de volta pra fazenda, mas o velho acabou convencendo os rapazes a entrarem no bar. Nelson, o mais novo, puxara ao pai e era um exímio violeiro e pegou a viola do pai, refez a afinação, que naquela altura do campeonato seu Chico já não dava a devida importância, e em dueto com um dos presentes ainda cantou umas modas de viola.

Apaixonado pelas modas caipiras e com o sossego daqueles freqüentadores, seu Romano, já do lado de fora do balcão, sentado numa velha cadeira de vime, segurando um grosso cigarro de palha, dava as primeiras bocejadas e torcia seu bigode branco amarelado pelo fumo. No corredor que ligava o salão ao corpo da casa, um velho relógio de parede dava uma seqüência de 12 badaladas. Era meia-noite, todos deram conta do avançado da hora, sem parcimônia despediram-se e cada um segue seu rumo. Seu Romano fechou a única porta que ainda mantinha aberta, encostando as duas folhas de porta em madeira, colocou a travessa de ferro que pega de batente a batente, apagou a lâmpada que pendia de um forro de madeira pintado em azul, cheio de teia de aranha e merda de mosquito, deu uma cuspida no canto do salão e ganhou o corredor da casa.

Seu Chico e os rapazes seguiram conversando animadamente pela estrada em direção à fazenda São Geraldo. Depois de uns 15 minutos de caminhada, apesar da pinga do corrote e da idade, seu Chico ainda acompanhava a rapaziada. Já longe da iluminação pública, a escuridão era total. Nas brincadeiras de agarra-agarra, um dos rapazes virou-se e, olhando para trás, mudou repentinamente seu comportamento e em voz baixa disse ao seu colega que estava mais próximo: “- Vê si ocê vê o que eu tô vendo”.

Em pouquíssimos segundos, o pânico tomou conta do grupo todo, com exceção do seu Chico, que caminhava alguns passos atrás dos meninos. Um dos filhos tentou animar seu Chico para uma desembestada geral, mostrando também ao velho aquilo que os perseguia. Seu Chico olhou mas continuou no mesmo ritmo, apenas trocou de ombro a viola que trazia pendurada, olhando o filho que já corria desesperadamente embolando-se com o grupo de amigos, que rapidamente sumiu na curva da estrada que dava acesso à fazenda São Geraldo. Lá chegando, por volta de uma hora da manhã, todos dormiram na mesma casa, apesar de morarem na mesma colônia e serem vizinhos próximos. Ninguém teve coragem de ir sozinho pra suas casas.

Só pelas duas e meia da manhã, seu Chico foi chegando na casa onde os rapazes e o resto da família o esperavam ansiosamente. Já era consenso entre os rapazes de que todos tinham visto a mesma coisa: uma mulher de roupa branca e da altura da cuminheira da casa. Só queriam saber se seu Chico também a viu... Confirmando: “- Ví uma muié de roupa branca, que não cabia dentro dessa casa”.

Várias perguntas ao mesmo tempo eram endereçadas ao velho pelo grupo de medrosos: “- Senhor não correu por quê? Senhor não ficou com medo? Ela alcançou o senhor? Qui qui ela fez? .Seu Chico pediu calma pra moçada e disparou: “- Não aconteceu nada de esquisito. Subi no barranco da estrada pra ficar na mesma altura dela. Conversamos um pouco, dei umas repicadas na viola evim embora...”.

Lázaro Carneiro é pescador e contador de histórias.

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