Nenhuma outra data tem o poder de reunir famílias inteiras como o Natal. Parentes chegam de todos os cantos para celebrar a ceia e o almoço de Natal. As casas ficam cheias. Para todo lado que se olha, tem gente conversando. Também, assunto não falta, porque em muitos casos o último encontro foi há vários meses, ou (por que não?) no Natal passado.
Mesa farta, presentes para todos, muita música e alegria em cada cômodo da casa. Por um momento, todas as dores e dificuldades da vida são postas de lado. É o espírito natalino que contagia a todos, ou a quase todos. Assim como o personagem Scrooge, criado pelo escritor britânico Charles Dickens, existem pessoas que não vêem graça no Natal. Mas é a minoria.
Os dois últimos fins de semana, a dentista Eliane Grellet Dip Lencioni, 52 anos, passou dentro da cozinha. Ao invés de descansar depois de uma semana inteira de muito trabalho, ela preferiu adiantar o banquete que será servido na ceia e almoço de Natal. Apesar da canseira, ela não reclama. “Dá trabalho, mas é muito prazeroso. É um cansaço compensador”, afirma.
“Estou fazendo tudo com antecedência, porque trabalho fora. Se eu deixar tudo para o dia, não vou ter tempo de curtir minhas visitas. Então, tudo o que eu puder fazer, desde que não comprometa a qualidade final dos pratos que vou servir, vou fazendo e colocando no freezer.”
Os assados vão ficar mesmo para o dia da festa, não tem como antecipar. Na ceia serão servidos peru, tender e pernil. Para o almoço, está reservada a leitoa. “Se não tiver leitoa, não tem Natal”, sentencia Eliane.
Ela conta que o marido, Beethoven Lencioni, sugeriu alugar o forno de uma padaria para assar a leitoa. Seria mais prático e não daria tanto trabalho, mas ela recusou a sugestão. “Não é igual do que assar em casa e servir na hora. Dá uma trabalheira, mas o prazer é imenso”, justifica.
É a primeira vez que Eliane vai receber a família em casa para as comemorações natalinas. Para poder acomodar todo mundo, cerca de 20 pessoas, teve de pedir colchão emprestado para os vizinhos.
Além dos parentes de Bauru, ela vai receber gente de São Joaquim da Barra, Rio de Janeiro, São Paulo e Ribeirão Preto. Reunir todos para as festas de fim de ano é uma tradição de longos anos. “Fazemos isso desde quando eu era criança. Tenho 23 anos de casada e faz 23 anos que eu passo o Natal desse jeito”, revela Eliane.
Muita história
A aposentada Neyde Dellecrode, 66 anos, também lembra das antigas celebrações. Do tempo em que o pai criava uma leitoa especialmente para o Natal. “Era sagrado”, afirma ela, relembrando a infância vivida em um sítio de Piratininga.
A tradição foi levada adiante pelos filhos e todos os anos eles reúnem as respectivas famílias para passar as festas natalinas juntos. É a única data em que é possível reunir todo mundo, segundo Neyde. É uma oportunidade única de colocar a conversa em dia. “Temos muitos casos para contar, muita história”, comenta.
A família tem o costume de se reunir em uma chácara. Lá passam a ceia, dormem e voltam a se reunir para o almoço. Até há pouco tempo, a família tinha por hábito permanecer na chácara até a passagem do Ano Novo. “Era uma semana separada só para nossa família”, conta Neyde. Faz três anos que a reunião passou a ser só para o Natal.
Alguns dias antes da chegada do pessoal, Neyde sempre faz uma faxina caprichada na chácara e começa a se preparar para receber todos da melhor maneira possível. Este ano, ela deve receber cerca de 20 pessoas.
As compras de mercado são feitas somente quando os parentes chegam, mas a leitoa já está encomendada faz dias. Segundo Neyde, o bichinho será assado no forno a lenha. A tradição continua.
____________________
Bem à vontade
Nada de presentes, roupas chiques ou cerimônias na noite de Natal. Assim é a festa na casa da engenheira civil Haidée Malheiro de Oliveira Haddad, 51 anos.
“Não temos o costume de trocar presentes e nem de comprar roupas para o Natal. Todo mundo fica bem à vontade. Quem quer ficar descalço pode ficar. Meu Natal é muito simples”, diz Haidée. “O mais gostoso é o fato de estarmos juntos”, afirma.
Até mesmo o cardápio sofre alterações dependendo do desejo gastronômico da família. “Às vezes, fugimos dessa coisa de leitoa e decidimos fazer um camarão na moranga ou uma salada”, exemplifica Haidée.
O trabalho para compor a mesa é compartilhado com as visitas. Cada um faz uma parte para que não fique tudo para a dona da casa. “Eu não esquento muito a cabeça. Só vou começar a pensar no que fazer quando as outras pessoas chegarem.”
Haidée espera receber este ano cerca de 25 pessoas para o Natal. A família, segundo ela, é pequena, mas o espaço na casa é preenchido por amigos que são de outras cidades e que não viajam. Ela conta que o pai gostava muito dessas festas familiares. Ela herdou essa satisfação dele e agora procura passar aos filhos o gosto por essa tradição.