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Escola particular segmenta atuação

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 6 min

Desde a virada do milênio, o mercado das instituições particulares de ensino no País tem enfrentado um cenário socioeconômico oscilante, que alterna altos e baixos gerados por uma equação que combina a elevação da concorrência com a diminuição da quantidade de alunos e os altos índices de inadimplência. Por essas razões e para superar tais desafios, as escolas do segmento têm apostado no direcionamento do público-alvo e, principalmente, no investimento em tecnologia e qualidade para manter a solidez de seus negócios.

Os números do setor na cidade, fornecidos pelo Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo (Sieeesp)-Regional Bauru, exemplificam as dificuldades encaradas pelo segmento. Somente no período de 2002 a 2005, o número de escolas particulares na cidade saltou de 63 para 86 - aumento de quase 37% -, enquanto o total de alunos, incluindo os matriculados no infantil, fundamental e médio, manteve-se praticamente estável - cresceu de 19.154 em 2002 para 19.283 em 2003 e 19.888 em 2004, diminuindo para 19.335 em 2005 -, o que provocou a diminuição dos números médios de estudantes por instituição de ensino. Os dados do setor referentes a 2006 só serão calculados em 2007, segundo o sindicato.

“Em Bauru, as escolas particulares continuam crescendo. No ano passado houve aumento do número de alunos, no fundamental e no médio, em torno de 5% a 6%. E mesmo com o empobrecimento da classe média, que perdeu 40% do seu poder aquisitivo nos últimos dez anos, o crescimento da escola particular sempre existiu, mas não foi na mesma proporção como antigamente”, enfatiza o empresário Gerson Trevizani, proprietário de uma instituição de ensino particular e líder do Sindicato das Escolas Particulares de Bauru.

Trevizani lembra, ainda, que os altos números de inadimplência consistem em grande desafio enfrentado pelo setor. “Hoje, a inadimplência no ensino fundamental e médio varia em torno de 10% a 15% e chega a 30% nos cursos superiores. Isso porque a classe média que vinha para a escola particular começou a não honrar o pagamento das mensalidades. Com o surgimento da lei do calote, que você não pode tomar nenhuma atitude enquanto existir o contrato, a pessoa faz a matrícula em janeiro, fica 12 meses sem pagar e as escolas ainda são obrigadas a dar apostila, laboratório e informática. Assim, grande parte das escolas particulares, principalmente aquelas que vieram só atrás de dinheiro, perceberam que a coisa não era mais um grande mercado e o pote de ouro que foi”, ponderou.

Para o empresário, diante das dificuldades existentes no setor, só resta uma estratégia às instituições: priorizar a qualidade em todos os setores. “Só vai ficar quem tem qualidade. A clientela que pode pagar está selecionando as boas escolas. Quem não está investindo em educação, não está se modernizando e não tem qualidade, vai sair do mercado. É a lei do capitalismo. E para conseguir atingir a qualidade não há outro caminho senão com investimento, treinamento de professores, laboratórios modernos e informatização”, argumenta Trevizani.

Já William Bornia Jacob, mantenedor de outra escola particular, considera o investimento em tecnologia e a segmentação do público-alvo como necessidades de sobrevivência das instituições. “As escolas particulares do futuro são aquelas que funcionarão focadas em um segmento específico de mercado e investirão maciçamente em tecnologia. Quando existe um mercado muito concorrido, você tem de procurar um nicho e atuar nele tendo uma identidade, sabendo para quem você irá prestar o serviço e a maneira adequada de atingir esse público escolhido, criando seus diferenciais”, sustenta, para depois completar:

“Foquei um público em que investir em tecnologia passa a ser questão de sobrevivência, não só uma tendência, pois o aluno de hoje vive uma realidade distinta daquela em que eu vivi, por exemplo. Por isso, além da informatização, utilizamos vídeos eletrônicos e mantemos um site bem elaborado com clubes de disciplinas, bancos de vestibulares, simulados e plantões.”

O raciocínio também é compartilhado por Ademir Lopes Correia, diretor-geral de uma instituição particular. “Vão sobreviver e ter mercado crescente e com boas expectativas aquelas escolas que buscarem os diferenciais que atendam as expectativas da sociedade. Caso contrário, o mercado estará em franco estacionamento. Mas aquelas que realmente tiverem qualidade de ensino, bom corpo docente e boa infra-estrutura física de laboratórios e biblioteca e aliarem a isso preços acessíveis, estarão em franco crescimento”, prevê Correia.

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Professores

Os empresários do setor particular de ensino consultados pelo JC também ressaltaram a importância do papel do corpo docente na busca pela consolidação das empresas no mercado. “Diria que eles representam 90% desse objetivo. Escola é professor. Se você tem um bom corpo docente, tem escola boa. Não adianta nada ter um monte de aparelhos sem bons profissionais para executar. Um computador bom na mão de um profissional ruim não serve para nada. O professor hoje é um motivador e essa é a principal missão de um docente”, considera Gerson Trevizani.

Já para William Bornia Jacob, mantenedor de outra escola particular, o professor atual tem de ser mais flexível e, principalmente, criativo. “Houve um tempo em que o docente era apenas um transmissor de conhecimentos, pois talvez ele fosse um dos poucos detentores do conhecimento. Hoje o aluno consegue a informação em qualquer lugar. Para isso, ele entra nos sites de busca da Internet e faz pesquisas. Desta forma, o professor tem de ser mais um agente facilitador e uma pessoa que vá ensinar o aluno a aprender”, salienta.

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Modelo ideal

Não são poucas as pessoas que enfrentam o “dilema” de ter de escolher a melhor escola para seus filhos. Para facilitar o trabalho dos pais nessa hora, o JC ouviu a opinião da psicoterapeuta e psicopedagoga Jane Cristine da Silva, que recomenda como principal cuidado conhecer a fundo as escolas.

“Os pais devem atentar-se para os métodos pedagógicos, as atividades desenvolvidas e os projetos, pois atualmente não se resolve estar em uma escola por seu nome famoso, e sim pela qualidade de ensino que ela oferece. E, quando falamos nisso, queremos dizer que os pais devem chegar na escola para conhecer desde a estrutura física e segurança até os profissionais que nela trabalham, observando se estes são competentes, se a abordagem pedagógica é atualizada e dentro das normas políticas do País. Além disso, deve-se checar se existem atividades e projetos que estimulem a criatividade do aluno, a imaginação, a curiosidade, o prazer e o gosto pelo saber, além da cidadania, ética pessoal e profissional e o pensamento autônomo”, orienta. E complementa:

“Isso pode e deve ser questionado, pois é um aprendizado que os filhos levarão por toda a vida. Deve-se, ainda, verificar se os valores são adequados com os valores familiares, se é uma escola que prepara o aluno para enfrentar a vida, investindo na qualidade de formação dele e conhecer o máximo possível dessa instituição, procurando referências e o que ela já desenvolveu durante o ano.”

Por fim, a psicopedagoga recomenda levar os filhos para visitar a escola. “É importante que o aluno se sinta bem e acolhido e seja estimulado pelos pais para estudar nessa escola, tendo o cuidado de observar bem a reação do filho e explicando tudo”, conclui Silva.

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