Tudo começou por acaso. No início, eram apenas as amigas e pessoas da família que pediam conselhos sobre o que vestir e como se portar em uma festa. A procura foi aumentando e atualmente Maria da Glória Meira Braga Ortolan, 61 anos, educadora e consultora de etiqueta social e profissional, mais conhecida como Glorinha Braga Ortolan, faz sucesso ensinando as pessoas sobre as regras da boa conduta.
Com milhares de alunos em seu currículo, além de dois livros e uma coluna semanal no Jornal da Cidade, ela procura orientar os pobres incautos a não passar vergonha diante de situações e grupos requintados socialmente.
De acordo com ela, o brasileiro ainda falha muito no quesito etiqueta, principalmente quando está sentado à mesa. Comer uma coxa de frango usando as mãos, por exemplo, é considerado um erro grave, segundo o manual de boas maneiras. E isso é uma das coisas mais comuns de se ver na mesa da família brasileira.
Por esse motivo, Glorinha sonha em ver seus livros passando de mão em mão entre os alunos das escolas públicas e particulares. Na opinião dela, além de criar uma geração mais refinada, a etiqueta iria ajudar no relacionamento dentro da sala de aula, entre colegas, alunos e professores.
Para ela, a etiqueta é uma questão de hábito. Depois que acostuma, não tem mais como errar. “É como trocar a marcha de um carro. Vira uma coisa mecânica, espontânea”, compara.
Na entrevista a seguir, Glorinha fala de seu trabalho e de outros assuntos, como sua paixão pelo serviço voluntário, por vinho e pela música clássica, que aprendeu a gostar por influência do marido, João Guilherme Ortolan. O piano que existe na sala de estar do apartamento não é tocado por Glorinha, como muitos podem supor quando se deparam com o instrumento, mas pelo marido. Ela apenas ouve e observa atentamente os dedilhados.
Jornal da Cidade - De modo geral, como está o povo brasileiro no quesito etiqueta?
Glorinha Braga Ortolan - Eu acho que não está no ponto ideal. Porque a etiquete ficou um pouco esquecida no tempo. Na época dos hippies isso não tinha importância. O que importava era paz e amor e nada mais. O feminismo também foi outra razão da etiqueta ser posta um pouco de lado. Por exemplo, quando o rapaz ia abrir a porta do carro para uma mulher, ela recusava dizendo que não precisava porque tinha duas mãos. Então, tudo isso colaborou.
JC - Em que parte as pessoas estão falhando mais?
Glorinha - Eu acho que o problema mais grave está na mesa. Muitos desconhecem as regras. Tem uma pergunta que sempre me fazem: “posso comer frango com a mão?” Não pode. O correto é usar garfo e faca e isso não é difícil. É uma questão de hábito. Aliás, tudo na etiqueta é uma questão de hábito. Quando você adquire o hábito, não muda mais. Meu avô falava “não se case antes de sentar à mesa com seu noivo”. Era um conselho. Se o noivo fosse educado à mesa ele seria educado também em outros momentos.
JC - Quando a senhora está sozinha em casa, mesmo assim segue à risca o manual de boas maneiras e etiqueta?
Glorinha - Eu sigo porque tornou-se um hábito. Por exemplo, na hora de pegar um copo, o hábito me faz agir da forma correta. Na hora de sentar é a mesma coisa. Torna-se algo mecânico, você simplesmente faz daquela maneira.
JC - Que público procura hoje pelas aulas de etiqueta?
Glorinha - A maioria que procura um curso de etiqueta é por necessidade, seja social ou profissionalmente. Tem uma parte que já tem uma noção e procura se aperfeiçoar. Outra parte procura porque, enquanto criança, não teve uma educação mais esmerada e hoje estão se formando e fazem parte de uma roda social mais refinada e eles querem acompanhar essa roda. Os pais ficam com vergonha de freqüentar até a casa do filho e também querem aprender para não se sentirem excluídos. Tem também as crianças que servem como uma espécie de vetor. Ela leva o que aprendeu para casa. Então, ela corrige o pai, o irmão. Ela corrige até a visita, porque a criança é muito espontânea. Tem avó que veio me contar que passou vergonha com a visita por causa disso.
JC - Existe idade ideal para aprender as regras de etiqueta?
Glorinha - Não, não existe. A criança não aprende a comer por volta dos 2 anos? Então, se ela começar a aprender a comer corretamente, não vai precisar de um curso de etiqueta. Já dei aulas para crianças de 3 a 6 anos em uma escola municipal e também para os usuários da Sorri, onde trabalho como voluntária. Eles aprendem direitinho.
JC - O trabalho da senhora na Sorri é ensinar etiqueta aos usuários?
Glorinha - Eu ensino cidadania e civilidade. A letra de um hino, por exemplo, eles repetem porque decoraram, mas não sabem o significado. Então, eu procuro fazer com que eles entendam a letra. Isso é ensinar cidadania. Civilidade e cidadania se entrelaçam. Uma pessoa educada é um bom cidadão. Uma pessoa educada não joga um papel na rua, não fala palavrão, não aborrece as pessoas no trânsito. Uma coisa completa a outra.
JC - O interesse em ensinar etiqueta a outras pessoas surgiu quando e de que forma?
Glorinha - Eu morei durante 20 anos em São Paulo. Nessa época, percebi que os parentes, os vizinhos vinham perguntar para mim se uma determinada roupa estava boa para a festa, se a bolsa combinava com o sapato, como eles deveriam sentar. Então, fui percebendo que eu poderia orientar mais pessoas e comecei a ministrar os cursos.
JC - A senhora tinha alguma formação nessa área que fazia com que as pessoas a procurassem para pedir opiniões?
Glorinha - Meu avô era uma pessoa muito requintada. Ele ficou viúvo muito cedo e passou a morar conosco. Ele sempre nos orientava e foi assim que eu adquiri o hábito. Depois disso, eu fui me aperfeiçoando e não parei mais. Com o vinho e a música clássica também foi assim. Eu conhecia muito pouco sobre eles. Então, procurei me aprofundar. Leio jornais e revistas especializadas para saber cada vez mais. Meu marido também me ajudou a entender melhor a música clássica. Hoje, eu já consigo diferenciar um instrumento do outro. Na verdade, eu gosto de qualquer música, mas aprecio mais a música popular brasileira, a bossa nova e o jazz.
JC - A senhora tem dois livros lançados: “Educação e Requinte” e “Com Licença... preceitos de civilidade e cidadania”. Fale um pouco sobre eles.
Glorinha - O primeiro livro (“Educação e Requinte”, lançado em 1999) surgiu pela necessidade de um material. Quando eu comecei com os cursos, não havia nem uma apostila. Eu passei a sentir falta de um material para oferecer aos alunos. Porque se, por acaso, eles esquecerem de algo, eles têm onde consultar. O segundo livro (“Com Licença”, lançado em 2001) surgiu quando eu comecei meu trabalho de voluntariado na Sorri. Ele é mais dirigido aos jovens e adolescentes. É mais focado no relacionamento entre pais e filhos e na escola. É um livro de comportamento. Já o primeiro livro é mais geral.
JC - Como foram as vendas?
Glorinha - O primeiro livro está esgotado. Foram vendidos 1.000 exemplares. Antes de uma nova edição, ele terá de ser revisado em muita coisa. De 1999 até aqui, tem muita coisa a acrescentar. Mas isso só deve ocorrer a longo prazo. Já o livro “Com Licença” ainda pode ser encontrado nas livrarias.
JC - Quando não está se aperfeiçoando na área de etiquetas, o que a senhora gosta de ler?
Glorinha - Atualmente, eu leio mais jornal do que livro. Isso porque eu preciso de informação. Não que eu não leia livro. Eu leio, mas demoro para terminar. Meu tempo é muito escasso. Mas gosto de todos os gêneros literários, menos o policial. Desse eu não gosto. Interrompi o curso de direito que eu estava fazendo por causa do direito penal. Aulas sobre crimes me incomodavam. Eu cheguei a me sentir mal na faculdade de tanto ouvir falar de crimes. Eu não nasci para isso. Com certeza, eu não seria uma boa advogada.
JC - Com os filmes é a mesma coisa? A senhora gosta de todos os gêneros, menos o policial?
Glorinha - Para mim, o cinema, além de ser cultura é divertimento. Eu não vou sair de casa para passar aflição no cinema. Quando é comédia ou algo assim, eu gosto. Não gosto da idéia de ir ao cinema para sofrer, chorar. Isso não.
JC - E na televisão, o que a senhora gosta de assistir?
Glorinha - Gosto muito dos programas de entrevista e de um sobre música clássica (“Quem tem medo da música clássica”) que passa na TV Senado (nos fins de semana). É com Artur da Távola. Ele dá uma aula de música. Acho muito bom. Também gosto de novela, quando não tem cenas de violência.
JC - Deu para perceber que a senhora não gosta de nada que seja violento.
Glorinha - Não mesmo. Diante dos meus 61 anos, falo de boca cheia que eles foram muito bem vividos. Eu quero viver a vida com sorriso, com alegria. Se eu levantar um pouco triste, dou um jeito de ficar alegre. Pouca coisa me preocupa hoje. Talvez eu deva isso à Sorri. Que beleza aquelas crianças rindo, alegres. E eu vou ficar triste? Com a minha idade, eu ainda tenho sonhos e vou devagarinho chegando lá.
JC - Quais são esses sonhos?
Glorinha - Por exemplo, eu sonho em ver meu livro nas escolas. Eu sonho porque falta isso. A escola está dando informação, mas falta a formação. Eu acho que a etiqueta deveria ser ministrada nas escolas. O relacionamento entre colegas seria melhor e também entre aluno e professor.
JC - A senhora acredita que ainda é possível realizar esse sonho?
Glorinha - Acredito. Talvez demore um pouco para as coisas acontecerem aqui no Interior, mas em São Paulo existem três colégios grandes que já ministram há algum tempo aulas de etiqueta. Para falar a verdade, eu até estranho que isso não tenha sido adotado ainda por aqui. Bauru tem ótimos colégios. Esse é o meu sonho. Ver meu livro “Com Licença” na mão dos alunos.
JC - A senhora segue alguma religião?
Glorinha - Vamos dizer que eu sou cristã. Eu não freqüento as missas porque não posso comungar, por ser a segunda esposa do meu marido. Mas toda vez que tenho vontade de rezar, eu entro numa igreja e rezo. Sou católica, mas também gosto de algumas doutrinas espíritas e da seicho-no-ie. São coisas que me ajudam a viver.
JC - Até hoje, qual foi a viagem que mais encantou a senhora?
Glorinha - Eu não me esqueço de um amanhecer que pude acompanhar da cabine de um avião quando eu estava voltando de uma viagem aos Estados Unidos. Eu fiquei emocionada com aquela cena. Da mesma forma, as cataratas do Iguaçu, no Paraná, foi algo maravilhoso. Essas coisas fazem com que a gente creia ainda mais em Deus. Tudo tão bem organizado na natureza. Tudo tão perfeito.
JC - A senhora nasceu em Bauru?
Glorinha - Não. Eu nasci em São Manuel, mas vim para Bauru com quase 5 anos. Passei 20 anos em São Paulo, mas vinha constantemente para cá para visitar meus pais. Até que um dia meu marido ficou preso no trânsito da Capital durante duas horas e decidiu voltar para Bauru. Moramos um tempo em um sítio entre Bauru e Piratininga, mas quando meu pai faleceu o sítio ficou muito triste e nós decidimos voltar para a cidade.
JC - Se tivesse de mudar de Bauru, para onde a senhora iria?
Glorinha - Se eu fosse mais moça, eu iria para Palmas, no Tocantins. Porque é uma cidade que está crescendo e oferece oportunidade das pessoas crescerem junto profissionalmente. Agora, se fosse só para viver, eu escolheria o Rio de Janeiro. A cidade é lindíssima. E uma coisa que me espanta é a quantidade de e-mails que eu recebo de pessoas do Rio de Janeiro fazendo consulta sobre etiqueta. Do Brasil todo, é o lugar de onde eu mais recebo e-mail.
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