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Natal na redação


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Todo jornalista já cumpriu muitos plantões no Natal e no Reveillon, com a família em casa e os filhos pequenos esperando pelo papai. Tenho muito pena dos coleguinhas escalados para trabalhar nos dias em que a população toda descansa e as notícias rareiam. O folclore das redações dava conta de uma certa manchete que anunciava assim a outrora data magna da Cristandade: “Quando Menos se Espera, Chega o Natal”. Assim mesmo, em caixa alta, de fora a fora lá no alto da primeira página.

Havia editores que procuravam se inspirar nas coleções dos jornais de anos passados. Pior ainda. Inspirações antigas contaminam os assuntos atuais, igualmente previsíveis. Aí é que não sai nada. A gente se sentia como aquele homem do soneto de Machado de Assis, a cuja inspiração “frouxa e manca” não acudia a pena. O único verso que ele conseguiu escrever na noite cristã veio em forma de pergunta: “Mudaria o Natal ou mudei eu?” O que mudar nas notícias de um calendário imutável? Falar do de sempre como se fosse grande novidade.

Aqui no JC, a manchete do plantonista viria no bolso, adrede preparada e com a frieza do estilo estatístico: “33% dos Brasileiros Acreditam em Papai Noel”. Nos jornais, o Papai Noel mítico cada vez mais se dissolve, perde seus traços originais, deixa de existir como personagem autônoma, não passando de ilusão ou imaginação evocada na fala de outras personagens. Até os repórteres se fantasiam de Papai Noel em busca de uma história para contar.

Lembro-me de uma vez em que o repórter, a bordo do helicóptero fazia cobertura das enchentes e do trânsito caótico. Houve pane de instrumentos na aeronave e o piloto, por precaução, resolveu descer no campo de futebol de uma favela. Centenas de crianças rodearam o bicho inerte, certas da descida do Bom Velhinho com o saco cheio de presentes. A frustração das criancinhas pobres rendeu a manchete que faltava para o jornalista. Foi um plantão de dupla alegria: escapou com vida e com uma bela história para contar aos leitores.

Numa véspera de Natal, no jornal que eu trabalhava os plantonistas resolveram fazer uma festa depois de fechada a edição. Escalaram o Ceará, o zelador, para ser homenageado. Todo mundo falou elogiando sua dedicação e presteza no serviço. Era um nordestino, desses milhões que foram a São Paulo ganhar a vida. O pessoal o colocou em cima da cadeira, ao lado da árvore de Natal toda ornamentada com grandes bolas azuis. Alguém lhe entregou um presente embrulhado em papel colorido, com cartãozinho e tudo. Era uma sandália de couro, luxuosa, de palmilha almofadada, coisa de rico. Todos haviam contribuído para comprá-la. Ao agradecer, fez um dos discursos mais comoventes que já ouvi: disse que nunca o haviam tratado de maneira tão afetuosa; lembrou da mãe e dos irmãos deixados em Quixadá; só não morria de saudades porque considerava todos ali como sua família. Contou que uma vez procurou se esconder atrás da porta do banheiro, para chorar, mas encontrou o esconderijo ocupado pelo repórter que acabara de levar uma descompostura do editor. Ceará tinha dois lábios peculiarmente grandes, quase bipartidos e roxos, pendurados no rosto como moelas de ave. Enquanto agradecia, segurava uma das bolas azuis do pinheiro natalino. As luzes, os flashes do fotógrafo, o guarda-pó que vestia davam a ele uma visão onírica. Baixo, cabelos cacheados, lembrou-me o Menino-Jesus-Mocinho ao lado de São José, do tempo de eu criança no Colégio das Freiras, lá em Marília. A imagem segurava um globo terrestre azul, como se desde jovem Ele já carregasse os pecados do mundo que haveria de redimir. “Nunca ninguém me deu nada nesta cidade, e agora vocês me dão isso”. Enquanto dizia palavras tocantes, sua mão se fechou e no auge da emoção esmigalhou a bola. O material quebrado rasgou sua carne. O sangue pingava no seu guarda-pó branco. A última performance daquela véspera de Natal foi no pronto socorro. A única garrafa de espumante foi esquecida intocada, no balde improvisado.

Dias depois topo com o Ceará de mão enfaixada. Perguntei sobre o presente. Ceará disse que tinha gostado da “alpercatinha”, mas, o que mais o agradou foi o cartão que acompanhava o pacote. Pela primeira vez alguém o tratara pelo nome de batismo: Francisco das Chagas.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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