Uma pobre mulher encontrou, certa vez, um ovo. Com grande entusiasmo a mulher mostrou o ovo a seus filhos e começou a explicar: “Estão vendo este ovo? Nós não iremos comê-lo. Nós pediremos ao nosso vizinho que o coloque debaixo de uma de suas galinhas. Do ovo nascerá uma galinha. Mas nós não iremos comê-la. Ela botará e chocará outros ovos, dos quais nascerão mais galinhas.
Mas nós também não iremos comê-las, pois quando tivermos um número suficiente de galinhas, nós as trocaremos por um bezerro. Mas prestem atenção, nós não iremos comê-lo. Ele crescerá e se tornará uma vaca. Da vaca nascerão outros bezerros e, quando tivermos um pequeno rebanho, nós o trocaremos por um pedaço de terra. Este lote de terra nós iremos vender por um preço melhor e...”, ao continuar a sonhar com entusiasmo, a mulher deixou o ovo cair e se espedaçar.
No famoso diálogo descrito pelo Êxodo, Deus deixa claro a Moisés: “Este é o meu nome para sempre” (Ex. 3, 15). “Para sempre” é escrito em hebraico “leolam”, uma expressão que, segundo Abraham Heschel, deve ser lida “lealem”, palavra que significa “ocultar”. Resumindo a mensagem do texto, o nome de Deus deve ser mantido oculto.
Por isso, os hebreus se referiam a Deus como “Adonai”, ou seja, o inefável, aquele que não pode ser conceituado, objetivado. Não é por menos que, diante de Moisés, Deus se manifesta como uma sarça ardente, um arbusto que, apesar de estar em chamas, não se consome. Um extraordinário absurdo que não pode ser concebido pela razão humana.
Para a espiritualidade judaica, Deus é o grande desconhecido. Desta forma, o homem do Antigo Testamento proclama a ignorância a respeito de Deus, juntamente com o seu esclarecimento a respeito do ser ignorado. Esta declaração coloca Deus em seu devido lugar. Ele não é um objeto passivo, não pode ser utilizado e muito menos manipulado.
Assim, a religião consiste muito mais na pergunta de Deus e na resposta do homem. A religião é uma provocação. No mesmo diálogo, Moisés ouve de Deus: “Sou o que sou (...). Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós” (Ex. 3, 14). A provocação é justamente esta: Deus é o único ser que, na verdade, pode dizer de si mesmo que é.
O ser humano ontologicamente “não é”. O nosso “eu” é uma autodecepção e ao mesmo tempo uma autoaceitação, pois a vida não foi uma escolha nossa mas sim algo que nos foi oferecido. Em outras palavras, nós surgimos na existência sem a livre escolha.
A grande premissa ou provocação da religião está no despertar do homem para um superar-se. Esta vida que me foi dada não pode permanecer um objeto, mas deve se desenvolver na busca de realização, de uma verdadeira construção do ser. Este é o caminho religioso, um caminho de transcendência que vai da criação, da vida dada, para a redenção, a vida que posso construir em busca da perfeição.
Esta só pode ser atingida pela autonomia, pelo domínio de meu próprio ser. Portanto, não somente para os judeus, mas também para os cristãos, a Bíblia é um início da nossa resposta à pergunta suprema: O que Deus espera de nós? Bíblia é revelação no sentido de indicação. Ela celebra o mistério, nos introduz nele sem penetrá-lo ou explicá-lo.
Os Evangelhos, para os cristãos, não são o fim, mas o começo, um precedente e não uma história. Não são livros que devam ser simplesmente lidos ou decorados, mas um drama do qual podemos participar. A mensagem de Jesus Cristo é uma proposta a ser vivida e encarnada em pleno século 21, sem nos transformarmos em homens da Antigüidade. Em outras palavras, cada ser humano está convidado a ser um Evangelho, uma “Boa Nova” ao nosso mundo.
O Homem religioso é aquele que assume conscientemente uma responsabilidade: fazer da sua vida uma resposta a Deus. Esta resposta não é professada por simples palavras, mas através da nossa capacidade extraordinária de agir, de realizar e de transformar o nosso universo em um verdadeiro espaço de vida. Celebrar o Natal é fazer reacender a “sarça ardente” que existe em cada ser humano e retomar, com toda vitalidade e de forma consciente, a resposta que estamos dando a Deus.
O Espírito de Natal deve nos levar à percepção de que devemos ser, neste ano de 2007, uma “Boa Nova” para os nossos semelhantes, para a nossa sociedade e para a vida. Desejo a todos um Feliz e Santo Natal com as Bênçãos do Deus que nos provoca à busca de conhecimento, de bem-estar e de perfeição.