Dia em que os cristãos comemoram o nascimento de Jesus, o Natal costuma despertar um sentimento de bondade no coração das pessoas. Pais ficam mais carinhosos com os filhos, amigos visitam-se uns aos outros e as pessoas ficam mais dispostas a darem atenção umas às outras. É época de caridade, amor ao próximo, e assim por diante.
Uma verdadeira “corrente do bem” toma conta da cidade. Enquanto voluntários se organizam para arrecadar comida, roupas e brinquedos, as entidades assistenciais se mobilizam para distribuir doações às famílias mais carentes.
A aproximação da data representa um verdadeiro alívio para moradores das áreas pobres de Bauru, acostumados a conviver com diversas privações durante a maior parte do ano. Mas nem todos estão sendo beneficiados com essa “onda de solidariedade” de final de ano. A desempregada Benedita da Fonseca Mesquita tem 53 anos e mora no Parque Ferradura Mirim. Ela e o marido, Emílio de Oliveira, 64 anos, sofrem de sérios problemas de saúde e que os impedem de trabalhar.
A família sobrevive com R$ 350,00 mensais que o filho de 15 anos, deficiente físico, recebe de aposentadoria. Três filhos de Mesquita, já casados, vivem próximos à mãe. Com isso, a casa da avó fica sempre lotada com os netos (uma delas, inclusive, foi adotada como filha pela mulher).
Ela não sabe como fará para festejar o Natal. “Até agora pouco, estávamos falando disso. É que, geralmente, o pessoal dá cesta básica pra gente, só que este ano o negócio anda meio fraco”, reclama Mesquita.
Ela vive no Ferradura Mirim há mais de 20 e já se acostumou a receber ajuda quando chega o final do ano. Apesar de suas queixas, a família foi presenteada há alguns dias com uma peça de pernil suíno. “Eu e meu marido não podemos comer, mas mesmo assim vou assar para as crianças”, afirma Mesquita, que também pretende preparar uma macarronada para a família no dia de Natal.
Possuir um pedaço de carne de porco guardado na geladeira chega a ser privilégio para alguns bauruenses moradores de áreas carentes. Adriana Regino Solano, 31 anos, tem seis filhos e já sabe como será a ceia de Natal em sua casa, no Parque Real. “Vai ter arroz, feijão e ovo, isso se alguma galinha resolver botar no meu quintal”, diz.
Ela ganha R$ 15,00, por semana, coletando material reciclável pelas ruas de Bauru. Até o momento a família não recebeu uma cesta básica sequer. “É difícil aparecer ajuda neste bairro”, reclama Solano, que vive há cinco anos no lugar.
Na casa dela, presente de Natal nem pensar. Não que os crianças não peçam. “O menino vive falando: ‘Mãe, me dá um videogame. Como, se nem pão e leite para ele comer eu consigo comprar?”, diz. O garoto tem 5 anos e, apesar de mal saber falar direito, vive implorando para ganhar um Supernintendo, verdadeira febre entre as crianças de 12 anos atrás.
Na casa ao lado vive Eliana Cristina, 36 anos, mãe de sete filhos e irmã de Solano. Na casa dela a situação anda bem pior, indo muito além da falta de videogame: a família não possui sequer uma televisão para assistir. Mesmo com tantos motivos para andarem revoltadas, as duas irmãs afirmam gostar do Natal. “Nem sei explicar o porquê, só sei que é uma época feliz”, diz Solano.
Apesar de estar doente e sem dinheiro, Mesquita também costuma se alegrar neste período do ano. “Natal é um dia do qual a gente tem de gostar, pois é quando se comemora o ‘Pai Lá de Cima’. Ele faz tanto por todo mundo, que não custa nada a gente se lembrar um pouquinho dele também”, pensa.