Ser

O sagrado e o profano

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 10 min

“Adeus ano velho, feliz Ano Novo. Que tudo se realize no ano que vai nascer, muito dinheiro no bolso, saúde para dar e vender.” O trecho da canção, entoado por milhares de pessoas no Réveillon, é símbolo de esperança e renovação. É também uma preparação para imergir no sagrado, uma dimensão de tempo e espaço que rompe com os limites do cotidiano e busca explicar ao homem o sentido da sua existência.

Não é à toa que o Ano Novo é uma dos eventos mais comemorados do ano. “O Réveillon é o início de um transe, uma preparação para o sagrado, que dá esperança, e revigora. E as pessoas precisam acreditar que as coisas serão diferentes e melhores. À meia-noite o ano velho vira profano e o Ano Novo se torna sagrado”, aponta a jornalista e relações-públicas Dalva Aleixo Dias, que é mestre em comunicação interpessoal e religiões populares e é professora na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

Tal como o Ano Novo, o Natal também propicia a imersão no sagrado, algo que, na opinião da pesquisadora, tem função terapêutica, permitindo que as pessoas estabeleçam laços e formem comunidades. Em entrevista ao Jornal da Cidade, Dalva discute a importância do sagrado e como as pessoas vivenciam o profano, que corresponde ao tempo linear e ao cotidiano. Confira, a seguir, os melhores trechos.

Jornal da Cidade - Religião e sagrado são a mesma coisa?

Dalva Aleixo Dias - Acho que não necessariamente a experiência com o sagrado se dá por meio da religião. Existem mitos primordiais que contam a história do mundo em todas as religiões e são universais. Por exemplo, a religião serve demais para adequar as pessoas às situações e para que elas não se revoltem muito e tenham esperança em sair da opressão e viver dias melhores. Todas as religiões pregam sempre a esperança. A primeira função da religião é situar a pessoa no mundo, dizer quem ela é e por que vive dessa forma. Em segundo aspecto, ela revigora a pessoa para que ela continue funcionando. O sagrado é uma dimensão de tempo e espaço opostos ao cotidiano, ele envolve um ritual e é cíclico.

JC - Por que precisamos do sagrado?

Dalva - Para romper com os limites do profano, que é o cotidiano. Em ciências sociais, a noção é de que o sagrado se refere a um tempo e espaço diferentes do cotidiano, que é o profano, correspondendo ao tempo linear. Este é contado e medido de zero a 24 horas, dependendo do calendário que utilizamos. Já o tempo ritual, que seria o tempo do sagrado, é cíclico e sempre volta ao início. Na ausência de sentido atual, ele busca na história original a sua história, quem ele é e por que ele é assim e explicações sobre qual é o sentido atual de sua vida. Por meio da religião e dos mitos que contam as histórias das origens, os homens tentam se situar e adquirir um modelo de comportamento.

JC – Como as pessoas vivenciam esta dimensão?

Dalva – Se elas não tivessem a imersão no sagrado e se somente racionalizassem a vida, teriam maiores limitações. Por um lado há uma barreira econômica e, por outro, há uma limitação de poder. O ser humano tem muitas limitações e, se ele não acreditasse que existe alguma coisa para superá-las, ele poderia se desequilibrar psicologicamente, e a sociedade como um todo também. Por isso as imersões no sagrado são importantes para superar as limitações da vida cotidiana ou da sociedade mais ampla. Há também uma função compensatória, como, por exemplo, a falta de atenção, poder, dinheiro, assistência médica e psicológica que uma pessoa não tem. A imersão no sagrado também tem função terapêutica, que é equilibrar psicologicamente e propiciar relacionamentos e, de certa forma, proporcionar qualidade de vida, formando comunidades, o que é muito importante nas cidades.

JC – Por quê?

Dalva - Na vida rural, havia uma rede social mais extensa de amigos e compadres. Na cidade este contexto não é muito permitido, principalmente nos centros da cidade. As pessoas buscam nas religiões, nas igrejas ou em qualquer prática ligada ao sagrado, formar comunidades e dar um sentido coletivo à vida. Além disso, existe a função terapêutica e também compensar as limitações e permitir a inversão de papéis sociais. Uma doméstica na sociedade mais ampla pode, por meio da religião, fazer um inversão de papéis sociais. Ela é empregada, mas em um ritual de umbanda, por exemplo, pode incorporar um espírito que atende a patroa. Na Folia de Reis, a pessoa que não tem poder na sociedade é líder e respeitada no ritual. Há pessoas ainda que não têm família na sociedade e encontram na religião uma família de santos ou de protegidos por eles. Para buscar as funções das religiões, nós traçamos um paralelo entre os papéis que as pessoas desempenham no cotidiano ou na vida profana e os papéis que elas têm dentro dos rituais, tentando identificar qual é a função da imersão do sagrado para estes indivíduos. As religiões também servem para adaptar as pessoas às realidades do momento.

JC – Dê alguns exemplos.

Dalva – A religião umbandista serviu no início do século, durante o processo de urbanização e industrialização, para adaptar as pessoas da zona rural e urbana porque haviam ex-escravos sem empregos, imigrantes marginalizados e pessoas que vieram da zona rural para indústrias, não havia formação de comunidades e sentido para a vida delas nas cidades. E o trabalho por si só não dava sentido. Então essas religiões foram muito importantes porque cultuavam os valores que faziam com que as pessoas se sentissem bem na transposição da zona rural para a vida urbana. As religiões protestantes são um rompimento com a igreja católica porque as visões de mundo começaram a se diferenciar muito. Para os católicos, era, de certa forma, pecado ser rico; é uma ética de pobreza e sofrimento para se chegar ao reino dos céus. Para os protestantes não é proibido ser rico, pelo contrário: eles pregam a prosperidade e não querem a salvação para depois. E o espiritismo prega que fora da caridade não há salvação.

JC – Como a senhora avalia os ateus?

Dalva - Nenhuma pessoa vive sem exercer a dimensão do sagrado. Um ateu pode ter como deus Marx. Um adolescente que não acredita em Deus ou em religião, pode idolatrar um cantor de rock. As pessoas têm necessidades de ter mitos e heróis porque eles são modelos de comportamento exemplar. O mito sempre tenta contar uma história que justifica a existência e, quando não há a história da origem, a pessoa pode ter encontrado uma outra forma de se situar no mundo ou fazer parte de uma comunidade que idolatra um herói ou um ídolo. A pessoa faz parte de uma comunidade que comunga do amor ou da esperança ou aceita como modelo de comportamento exemplar um cantor de rock, de tênis ou peão de rodeio. Todo mundo tem sempre um modelo de comportamento atual.

JC – Os mitos e heróis de uma pessoa podem mudar ao longo da vida?

Dalva - Há os mitos primordiais, que contam a origem das pessoas e os atuais, que tentam situar as pessoas na sociedade de consumo. Existem pessoas que idolatram a Xuxa, Rebeldes, são mitos atuais porque a função deles é contar uma história ou servir de modelo de comportamento exemplar para uma quantidade grande de pessoas que comungam e aceitam esse mito. As novelas e os grandes atores também são mitos. Dificilmente uma pessoa sobrevive sem se ancorar.

JC – Qual é a importância dos rituais no cotidiano?

Dalva – Os rituais são “retualizações” dos mitos. Eles têm a função de explicar a sociedade, como e porque as coisas acontecem. Quando se pratica um ritual, que está sempre ligado à noção de festa, se imerge no sagrado porque é um momento diferente do cotidiano, é uma retualização. A função dos rituais é contar de novo para a pessoa que esqueceu, é sempre a mesma história, todos os anos e, portanto, de manter o sentido da vida para determinada sociedade.

JC – Esta é a função do Natal?

Dalva - O Natal sempre vem contar a história do nascimento de Jesus, falar sobre alegria e a esperança. É um momento muito importante para a sociedade cristã. Não é à toa que 25 de dezembro vem próximo ao final do ano. A data relembra o nascimento e o renascimento. É quase uma preparação para que as pessoas se lembrem do Ano Novo. O que as pessoas fazem entre o dia 25 a 1 de janeiro? Elas se preparam para entrar em um novo ano. Isto é um início de um transe, uma preparação para o sagrado, que dá esperança, e revigora. E as pessoas precisam acreditar que as coisas serão diferentes e melhores. À meia-noite o ano velho vira profano e o Ano Novo se torna sagrado, por que a pessoa tem esperança de emergir. É como se a pessoa estivesse entrando de forma sagrada no Ano Novo.

JC - A fé transcende a razão? Por quê?

Dalva – A razão impõe limites, inclusive para a percepção do mundo. E a função principal da fé é de aumentar o campo de percepção das pessoas, porque o mundo é melhor para quem acredita. Ele tem mais cores, sentido e profundidade. A religião insere a pessoa no mundo de uma determinada forma. Eu penso em fé como uma âncora, uma flecha que nos leva para cima. É um momento elevado com dimensão maior do que o limite normal e tem a ver com esperança e superação de problemas.

JC - As pessoas estão mais espiritualizadas atualmente?

Dalva – Elas estão buscando mais o sentido e explicações para a vida. E o sentido é buscado sempre na experiência com o sagrado.

JC - Existe diferença entre religião e religiosidade e espiritualidade?

Dalva - Há pessoas que têm valores cristãos, mas elas não se agrupam em igrejas. Elas se unem pela crença no sagrado por compartilharem os mesmos valores, mas elas não se unem no mesmo espaço e tempo. Elas estão separadas e o que as unifica é a crença em um determinado valor. Já a espiritualidade é outra dimensão, não que ela seja mais profunda. São visões diferentes do sagrado. Uma pessoa pode acreditar em espírito e outra em alma.

JC - Uma pessoa pode freqüentar várias religiões sem se prender a nenhuma. Por que?

Dalva – Sim. Ela, inclusive pode não ter nenhuma religião e adorar Marx, por exemplo.

JC - Qual é a diferença entre as religiões ocidentais e orientais?

Dalva – As duas têm dimensões cíclicas, mas as orientais cultuam os antepassados e os ancestrais. É o encontro da vida com a morte, o pensamento oriental é “quanto mais perto dos mortos estou, mais vivo, estou”. E o pensamento ocidental é “quanto mais longe dos mortos estou, mais vivo estou, é o medo da morte”. Para os orientais á morte é um momento de passagem deste ciclo e o morto vive, ou seja, o vivo está comungando com os mortos, não existe uma separação. Ao cultuar os ancestrais, os orientais estão sempre retualizando a identidade e sua força. Por exemplo, quando um avô muito importante morre, para o ocidental, acabou. Para o oriental, ele estará sempre inspirando e sendo modelo de comportamento exemplar, ele vira mito.

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