Mogadíscio - Apoiados pelo Exército etíope, combatentes leais ao fraco governo provisório da Somália se apoderaram ontem de Mogadíscio, Capital daquele esfacelado país africano. As milícias islâmicas, que mantinham há sete meses o controle da cidade, retiraram-se sem maior resistência. Sua derrota satisfaz os EUA, que acreditam haver ligações entre elas e a Al-Qaeda.
O primeiro-ministro etíope, Meles Zenawi, afirmou que, nos dez últimos dias de operações, entre 2 mil e 3 mil milicianos islâmicos foram mortos. Não há como confirmar a cifra.
O jornal “Financial Times” diz que o fim do controle de Mogadíscio pelo Conselho dos Tribunais Islâmicos da Somália, nome desse conglomerado de grupos, pode abrir um período de incertezas, com a forte possibilidade de alguns chefes tribais voltarem a se enfrentar. Eles atuavam oportunisticamente sob o comando islâmico e agora podem relançar a antiga e intermitente guerra civil.
Milicianos leais aos chefes de clãs reapareceram ontem uniformizados pelas ruas de Mogadíscio. “A incerteza está no ar, e meu medo é que a cidade mergulhe novamente na anarquia”, disse Muktar Adbi, um morador da cidade. Um outro, Abdullahi Adow, disse ter presenciado três homens e uma mulher serem mortos durante uma operação de saque. Ao longe, disparos de metralhadora; pelas ruas, pessoas carregando mercadorias saqueadas de um mercado.
A cidade com seus 2 milhões de habitantes estava inundada por boatos. Um deles dizia que os tribunais islâmicos haviam apenas caído com seus arsenais na clandestinidade e tentariam reassumir o controle. Ao largo, afastavam-se pelo mar dezenas de botes carregados de refugiados.
Anteontem pelo menos 17 se afogaram e 140 estavam desaparecidos depois que embarcações naufragaram no litoral do Iêmen, segundo o Alto Comissariado de Refugiados da ONU. Houve tiroteio entre os ocupantes dos barcos e militares iemenitas.
Em Mogadíscio, poucos permaneciam em suas casas. Rukia Shekeye era um deles. Ele afirmou estar “satisfeitíssimo” com o fim do poder islâmico, porque, segundo ele, em nome da religião todos procuravam apenas enriquecer. Outro cidadão, Abdi Hassan, disse que seu plano imediato era “comprar algumas metralhadoras” para proteger seus familiares.
O indício de que os arsenais islâmicos estavam sendo saqueados era dado por uma mulher já idosa, com uma metralhadora sobre os ombros. Ela estava vendendo a arma. Há pouco mais de seis meses os Tribunais Islâmicos tinham certa popularidade. Mas fecharam os cinemas e proibiram que se assistisse à televisão. E ainda proibiram o “qat”, folha de mascar com efeitos tranqüilizantes.