Bairros

Adicional de salário por causa de violência torna escola ‘atrativa’

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Com histórico violento e longe de ser um bairro cobiçado em Bauru, o Parque Jaraguá acolhe uma das escolas estaduais mais disputadas por professores. Poucos abrem mão de trabalhar na Ayrton Busch por um motivo simples, desvinculado dos ideais pedagógicos. Trata-se da única escola da cidade contemplada com o adicional de local de exercício.

O benefício - criado pela lei complementar número 669 de 1991 - é garantido aos integrantes do quadro do magistério que estejam desempenhando atividades docentes em escolas situadas na zona rural ou em zona periférica dos grandes centros urbanos (com condições ambientais precárias).

Recebem, portanto, 17% a mais do salário os professores que trabalham em unidade escolar localizada em região de difícil acesso ou que apresente dificuldade no transporte coletivo, informa o dirigente de ensino substituto Paulo Maximino. Na prática, o adicional também é liberado para professores que atuam em áreas consideradas violentas.

“Na época em que (a lei) foi criada, o bairro (Jaraguá) tinha problemas. Agora são corriqueiros para a periferia. Há dois anos, tentaram extingüi-la (a lei) e o bolo (de recursos aplicados nestas instituições) seria dividido entre todos os professores (em forma de aumento). Mas não conseguiram reverter”, explica o dirigente de ensino.

Na ocasião, informa, o percentual caiu de 20% do salário para os atuais 17%. O salário de um professor que dá aulas para alunos de 1ª a 4ª série gira em torno de R$ 900,00. Com o adicional de 17% passa para R$ 1.053,00. Já o salário de quem ministra aulas para alunos a partir da 5ª série é de aproximadamente R$ 1.100,00 e vai a R$ 1.287,00, por exemplo.

O Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), no entanto, desconhece a redução de 20% para 17%.

O benefício, porém, não é mais concedido há anos, embora algumas escolas ainda façam solicitação à Secretaria de Estado da Educação, acrescenta Maximino. Quando chove, por exemplo, o acesso à escola de Domélia, distrito de Agudos, fica impedido. O prédio está situado a 50 quilômetros da cidade vizinha, sendo que 14 quilômetros são de estradas de terra.

Apesar da dificuldade, só recebe o adicional quem trabalha no Ayrton Busch ou é transferido para lá. Quem deixa de trabalhar no local perde o benefício.

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Perigo

Trabalhar e estudar na escola estadual Ayrton Busch, há cerca de sete anos, não era mesmo tarefa fácil. Naquele período, havia depredações, tráfico de drogas, ameaças e até homicídio na porta da escola, informa o comandante da Base Comunitária de Segurança Noroeste, tenente Samuel Gomes Pereira.

De acordo com ele, a partir de 1999, com a implantação do Programa Jovens Construindo a Cidadania (JCC), os índices de criminalidade começaram a cair. Neste ano todo, apenas oito ocorrências foram registradas. “Tivemos várias chamadas por causa de uma quadra próximo da escola. O pessoal pula o muro para usar”, informa o tenente.

Foi justamente a tranqüilidade que levou Adriana Regina Porfírio Cotrin a matricular suas duas filhas na escola Ayrton Busch. “Eu estudava numa escola do Parque Santa Edwirges e tinha briga toda a semana”, comenta a filha dela Ariane Francine Porfírio Cotrin, 15 anos.

Ela e a irmã mais velha, atualmente, estudam na mesma escola que a mãe Adriana completou o último ano do ensino médio. “Tem escola que é muito pior. Aqui não é perigoso”, diz Adriana.

Ela acredita que a avaliação de periculosidade pode soar de forma pejorativa para o bairro. A informação não é compartilhada pelo dirigente de ensino substituto, Paulo Maximino, porque a análise é antiga e conhecida, até então, apenas por profissionais do magistério.

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