Neste final de ano, o brasileiro aprendeu mais uma porção de palavras estrangeiras, além do francês Réveillon, que vem de réveiller: significa acordar, despertar. Nunca o colonialismo cultural falou tão alto como nesta estação de overbookings, stand-by e stopover. Hoje, todos nós sabemos, inclusive aqueles que só vêem aviões no céu quando tiram os olhos da TV, que essas estranhas palavras significam alguma coisa parecida com “vende-mas-não-entrega”, “é-de-quem-chegar-primeiro” , “espera-trouxa” e “vai-para-onde-der-quando-der”. Toda essa nomenclatura demonstra a evolução tecnológica da aviação e o nosso atraso em relação aos computadores e à aviônica embarcada nessas maravilhosas máquinas voadoras.
Em toda edição de passagem de ano, os jornais discutem o futuro com projeções das tendências tecnológicas. Dizem que teremos computadores mais velozes e mais baratos; novos tratamentos médicos (como a terapia genética), que poderão prolongar nossas vidas. Asseguram que haverá necessidade de intervenção do Estado para proibir que se viva mais de 120 anos; da necessidade de se capar 80% dos machos, desde o nascimento, para evitar a explosão populacional. Noticia-se a existência de aviões ainda mais rápidos e de maior capacidade de transporte; de televisões digitais mais nítidas; que será possível assistir novelas no visor do celular.
Mal sabem que a maioria das pessoas que vai nascer em 2007 nunca vai chegar a usar um computador, receber tratamento médico num hospital ou viajar de avião. Essas pessoas terão sorte se aprenderem a usar lápis e papel e mais sorte ainda se forem tratadas com algum medicamento mais caro do que uma aspirina.
O mais assustador do futuro humano é que não existem projeções convincentes de aumento geral do nível de igualdade humana. Quando o morro desce para o asfalto, no Rio, ou quando Sapopemba sobe à avenida Paulista, em São Paulo, sentimos que alguma coisa está errada e o problema é da polícia. O obstáculo somos nós! Ninguém até agora escreveu um roteiro plausível no qual, no ano 2100, uma criança nascida na Bahia ou no Congo terá as mesmas oportunidades na vida que uma criança nascida em Munique ou San Francisco.
Ninguém prevê um dia em que todas essas crianças terão igual acesso a computadores na escola. Ninguém tão pouco imagina que alguém que vive na zona rural do Zimbábue e tem aids vá ter acesso ao mesmo tratamento médico de um engenheiro em Helsinque (Finlândia) acometido da mesma doença. Aqui, no Brasil, ainda discutimos se é justa uma cota para os negros na universidade, como se o overbooking discriminatório devesse prevalecer como legítima defesa da meritocracia da “elite branca”. A TAM também acha “normal” o overbooking. O contrário de utopia é “distopia”, tornada popular pelos profetas da desesperança, como Foucault e Lacan. Essa popularidade é análoga àquela desfrutada entre os que gostam de cinema e amam os filmes cada vez mais aterradores do que nos aguarda no espaço sideral.
Prefiro continuar acreditando na raça humana. Assim como já se recuperou da Peste Negra, da Guerra dos Cem Anos, de Átila, de Napoleão e de duas Guerras Mundiais, a humanidade haverá de encontrar o caminho da liberdade, igualdade e fraternidade, no qual estamos patinando desde a Revolução Francesa. É preciso ter esperança. A Europa destruída se reergueu porque os vencedores souberam compartilhar com os derrotados.
Essa esperança é inseparável da fé na capacidade dos seres humanos de cooperarem para determinar seu próprio futuro. A transformação mais importante que tem lugar na história humana não é o desenvolvimento tecnológico. É a gradativa disseminação da convicção de que não existem obstáculos à fraternidade humana, exceto nossa própria falta de disposição em fazer o que é preciso para conquistá-la. Feliz Ano Novo.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC