Nessa época de passagem de ano, surgem manifestações das mais díspares sobre o fato. Existem aqueles que acreditam nos bons eflúvios da mudança, vestem-se de branco, celebram, fazem promessas para o novo período e renovam seu otimismo. Outros dizem tratar-se apenas de uma folha arrancada ao calendário que nos foi imposto, que outros povos sequer seguem e que, portanto, nada tem de especial e nada significa.
Um fato, porém, me parece inconteste: é um dos momentos em que adquirimos maior consciência do passar do tempo, mas até defensivamente, por medo de nossa finitude, nunca pensamos mais profundamente sobre esse passar do tempo. Um dos enfoques filosóficos mais interessantes sobre o tempo foi enunciado há mais de cem anos por Friedrich Nietzsche. Trata-se da Teoria do Eterno Retorno, um conceito bastante controverso, e de difícil digestão que, pretensiosamente, me proponho a sintetizar. Se você tem coragem, continue lendo.
Os conceitos metafísicos básicos da teoria são que o tempo é infinito e a “força”, substância básica do universo, é finita. Por força, entenda-se toda energia e matéria disponíveis no mundo. Como exista um número finito de estados (entenda-se arranjos dessa força), ocorrendo ao longo do tempo infinito, conclui-se que o estado presente (aquilo que você está vivendo) seja uma repetição de um estado que já ocorreu infinitas vezes no passado e que vai ainda ocorrer infinitas vezes no futuro.
Pare para pensar um pouco sobre esse conceito. As conseqüências psicológicas do Eterno Retorno são embasbacantes. Significa que cada vez que você faz uma escolha, deve estar disposto a escolhê-la por toda a eternidade, pois ela irá se repetir infinitamente e, o que é pior: sua escolha nunca é nova, você já a fez infinitas vezes no passado. O mesmo se dá com a ação não realizada, cada oportunidade perdida e cada idéia não concretizada serão vazios dentro de você, não vividos por toda eternidade.
Todo enunciado filosófico permite interpretações pessimistas ou otimistas. Com Nietzsche, não é diferente. Prefiro encarar o dilema do Eterno Retorno de um ângulo mais otimista: aceito a eternização do estado presente vivendo a vida de forma intensa, cada instante em sua plenitude, criando fatos e obras que valham a pena serem repetidos para sempre e não deixando lacunas a lamentar no futuro. Mas continuo detestando a sensação de que nada que faça agora já não terá sido feito antes. Esse é a aspecto do Eterno Retorno em que Nietzsche me sacaneou: quero, exijo, que minha atitude hoje tenha conse-qüências novas, pois, só assim, poderei buscar o desenvolvimento espiritual para repetir-me no futuro de forma aperfeiçoada, galgando o caminho que leva ao início de tudo, o princípio da criação e do eterno, que chamo de Deus.
Então, ficamos assim: arrancamos mais uma folha do calendário, o tempo infinito passa, mudamos de ano e isso vai se repetir eternamente. Vamos aproveitar o fato para nos fazermos a clássica pergunta: quem somos e para onde vamos? Não faz mal se você não tem a resposta. Afinal, como dizia, acertadamente, Maurice Blanchot, a resposta é a desgraça da pergunta.
O autor, Eric-Édir Fabris, é engenheiro civil e colaborador da coluna Opinião