Politicando

Tapetes e degraus são os maiores inimigos

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Em novembro de 2004, o mundo assistia perplexo à queda do presidente de Cuba, Fidel Castro, na época com 78 anos. Para os desmemoriados, que fique bem claro: o “comandante” apenas tropeçou nos degraus do mausoléu do revolucionário argentino Ernesto “Che” Guevara, na cidade de Santa Clara, durante uma cerimônia de formatura.

Na ocasião, Fidel fraturou um osso do joelho esquerdo e sofreu ferimentos leves em um dos braços. Apesar dele possuir inúmeros inimigos declarados, o tombo certamente não foi resultado das energias negativas enviadas pelos “anticastristas”.

Na verdade, acidentes como o sofrido pelo ditador cubano são muito comuns na terceira idade. Especialistas estimam que, após os 65 anos, 30% das pessoas sofram quedas. O índice sobe para 50% entre idosos com mais de 80 anos. A aposentada Therezinha de Carvalho Popoffi, 78 anos, mora nos Altos da Cidade e, há seis anos, passou a integrar o grupo dos acidentados da terceira idade.

Ela caminhava despreocupada pela casa do irmão, em Araraquara (139 quilômetros de Bauru), e não percebeu um tapete que estava solto no meio da sala. “Meu chinelo enroscou nele. Quando percebi, já estava caída”, lembra.

O saldo gerado pelo tombo não foi nada agradável para a aposentada. Ela fraturou o fêmur e teve de colocar dois pinos de metal na perna esquerda. “Fiquei quatro meses de cama. Para caminhar e tomar banho, eu precisava ser ajudada pelo meu marido”, conta.

Pior veio depois: a perna quebrada acabou ficando três centímetros mais curta que a outra. Atualmente, Popoffi enfrenta diversas limitações em seu dia-a-dia: usa bengala quando precisa sair sozinha na rua, dirige um carro com câmbio automático e teve de colocar um salto especial nos calçados para não mancar.

Mesmo assim, a aposentada não se lamenta. Aliás, ela costuma dizer que a queda ajudou a abrir sua cabeça (no sentido figurado, é claro). “Antes, eu não costumava dar importância para a segurança no lar. Depois do tombo, as pessoas aqui de casa passaram a tomar mais cuidados na prevenção de acidentes”, garante.

Popoffi adorava encerar o chão; hoje, ela tem pavor à pisos escorregadios. Precavida, a aposentada também instalou barras de segurança no banheiro da residência. “Por sorte tive de fazer poucas mudanças, pois minha casa não tem degraus e é bastante espaçosa”, afirma.

A atenção dada por ela à segurança da residência não vem do acaso. Afinal, o lar é um espaço onde as pessoas estão sujeitas a acidentes das mais diversas intensidades. Mesmo os mais jovens sempre têm pelo menos uma queda ou uma topada para relatar.

Darcy Leite tem 64 anos, mora no Jardim Bela Vista e sofreu um tombo, há cerca de três anos. “Eu havia acabado de chegar da praia e estava lavando uma barraca de camping. De repente, escorreguei, caí e quebrei o pulso”, lembra. O irônico, no caso dela, é que ela havia trabalhado durante 15 anos no setor de prevenção e reabilitação de acidentes de trabalho do antigo Instituto Nacional de Previdência Social (INPS).

Para ela, o tombo ocorreu devido à falta de atenção de sua parte. “Eu deveria ter sido mais precavida. A maioria dos acidentes ocorre por imprudência. Aqui em casa mesmo, vivo falando: cuidado, cuidado... Mas nem sempre o pessoal escuta”, diz.

A empregada de Leite, por exemplo, adora deixar tapetes de pano (os maiores inimigos dos idosos) espalhados pela casa. “Sei que são perigosos, mas é sempre bom ter um lugar para a gente limpar o pé”, acredita Luzia Aparecida Camargo Pereira, 60 anos.

____________________ Pequeninos

Os riscos existentes no interior de uma residência são “democráticos”: embora tenham preferência pelos idosos, eles também costumam atingir crianças e jovens. Os pais conhecem isso melhor do que ninguém e costumam ficar de cabelo em pé a qualquer sinal de perigo.

Todo atenção é pouca. Há cinco anos, um pequeno descuido foi suficiente para estragar o almoço da família de Vera Lúcia de Oliveira, moradora da Vila Paraíso (zona oeste de Bauru). Ela estava passando roupa e tirou os olhos do ferro durante alguns minutos para poder arrumar a mesa.

A filha Larissa, então com 3 anos, não perdeu tempo e ligou o ferro na tomada, talvez querendo dar uma de dona de casa. Mas a brincadeira não teve final feliz, pois a menina acabou queimando a mão no eletrodoméstico. “Ainda bem que não foi nada grave”, afirma Oliveira.

Mesmo assim, ela redobrou as atenções em relação às crianças que freqüentam sua casa. Todas as tomadas da residência ganharam protetores e as portas passaram a ter travas de segurança.

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