Cultura

Sobre mundos: Perspectivas e surpresas

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 5 min

“Você não pode fazer isso!”, disse o pai. O menino imediatamente parou o que estava fazendo. “Para isso, você ainda é muito pequeno!”, disse a mãe. Com todo respeito, o menino recuou. “Isso também não é bom para você”, disse o pai. “Isso não está certo”, disse a mãe. “Quando adultos conversam, as crianças se calam!”, o menino ouvia sempre. “Não seja tão estúpido!”, disse o professor. “Ele é desajeitado e não fala muito”, diziam as meninas. “Você só fica em casa!”, dizia o pai. “O que você fica fazendo tanto tempo na rua?”, perguntava a mãe. O médico constatou: “Seu organismo é saudável, mas ele é um pouco retraído!” Os vizinhos comentavam: “Todos, família e escola, cuidam dele com carinho. Mas, ele parece não ter personalidade para vencer na vida. Coitados dos pais!”

Em sua obra mais expressiva “Eu e Tu”, Martin Buber expõe duas atitudes básicas e inevitáveis do ser humano. Elas não são características do nosso eu, mas são o eu se realizando no mundo. O ser humano é um ser inacabado e só se realiza na sua relação com o mundo. Em outras palavras, dependendo de qual atitude predomina em minha pessoa estou formando minha personalidade. Cada uma dessas duas atitudes é expressa por aquilo que Buber chama de “palavra-princípio”.

Esta palavra não é para o filósofo um “logos” (um simples conceito), mas possui seu significado na expressão hebraica “dahar”, que significa dinâmica do ser, realização do ser. As duas palavras-princípio expressam dois modos de existir. A primeira palavra-princípio Buber chama de “Eu–Tu”. O “Eu-Tu” é sempre a primeira relação que possuímos com o nosso universo. Esta atitude não é racional, mas imediata, vivencial. Na relação “Eu-Tu”, não somente eu me coloco como pessoa, ou seja, alguém que possui liberdade de pensamento e ação, mas também vivencio o outro como tal. Eu me coloco em uma relação aberta, sem conceitos pré-concebidos sobre o outro.

Este, por sua vez, não precisa ser necessariamente um ser humano, mas qualquer coisa ou situação. Nós podemos estar na relação “Eu-Tu” com um ser humano, com Deus, com uma obra de arte, uma pedra ou uma flor. A relação existe desde que o eu permita a livre reciprocidade. Se o ser humano possui esta atitude diante das coisas que o circundam, ele se transforma, para Martin Buber, em um ser dialógico. A relação faz o eu.

A segunda palavra-princípio é o “Eu–Isso”. Nesta relação procuramos compreender racionalmente o outro, ou seja, o meu eu procura conceituá-lo transformando-o em objeto. A relação “Eu–Isso”, para Buber, é sempre posterior à relação “Eu–Tu”. O “Eu–Isso” é uma relação de conhecimento. O “Isso”, por sua vez, não é simplesmente uma coisa, mas pode ser também seres humanos. Tentando conhecer o outro, seja um ser humano, uma coisa ou situação, faço do outro um objeto e o coloco em algum lugar no meu universo: ele é meu amigo, conhecido, importante, desinteressante, etc. A relação “Eu-Isso” instaura o mundo da experiência, do conhecimento, da utilização.

O ser humano que possui esta atitude diante das coisas e pessoas é chamado, por Buber, de ser “egótico”. A relação faz o eu. A criança, por exemplo, vivencia o mundo em primeiro lugar na relação aberta do “Eu-Tu”. Com o passar do tempo, através de seu próprio raciocínio e do aprendizado por meio da educação estimulada pelos adultos, ela entra em uma relação “Eu-Isso” com seu universo. Ser “Eu” significa, então, proferir existencialmente uma das duas palavras-princípio. O Eu de uma palavra-princípio é diferente do Eu da outra. Isso significa que existem sempre dois Eus, uma dupla possibilidade de existir como ser humano.

O eu na relação “Eu–Isso” conhece o mundo, impõe-se diante dele, ordena-o, estrutura-o, pode vencê-lo e transformá-lo. O Eu do “Eu-Isso” é despótico, na medida que quer subjugar. Mas esta atitude da relação “Eu–Isso” não é necessariamente negativa. Ela é, na verdade, inevitável, pois temos a necessidade de conhecer o universo, o que significa ordená-lo. Se não vivêssemos nesta relação seríamos mais facilmente manipulados ou dominados. A atitude do “Eu-Isso” se torna um mal quando o ser humano a incorpora de forma permanente tornando tudo ao seu redor um simples e somente “Isso”.

Quando não é permitido que o outro seja um “Tu”, me transformo em um simples ser egótico e padronizo o comportamento humano não aceitando a liberdade de ser do outro. Por exemplo, um relacionamento amoroso só pode ser uma relação “Eu-Tu”, se ele se tornar somente uma relação “Eu-Isso”, passa a ser posse, dominação. O “Eu–Isso” é necessário para que o eu não seja alienado e possa se distanciar para pensar sobre suas relações. Porém, é na relação “Eu-Tu” que sinto, em meu ser, tanto finitude quanto transcendência, pois minha abertura ao outro, que é meu Tu, define ao mesmo tempo meu ser como finito, isto é, eu não tenho o direito de desrespeitar sua liberdade, mas também me oferece a oportunidade de transcender, pois o outro me ensina com suas surpresas e sua maneira autêntica de ser.

Como afirma Martin Buber: “Se o homem não pode viver sem o Isso, não se pode esquecer que aquele que vive só com o Isso não é homem”. Afinal, somente na relação “Eu-Tu” podemos vivenciar reciprocidade, verdadeira presença, imediatez e responsabilidade. O ideal é termos a ponderação de viver as duas relações na medida certa. Procurar conhecer as pessoas, coisas e situações para não ser alienado e saber agir corretamente, mas estar aberto para uma viva relação, na qual o outro possa, a qualquer momento, fazer com que eu tenha que reformular minhas idéias e meus conceitos.

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