Mau humor permanente, esgotamento físico e emocional, intolerância, agressividade e desinteresse total pela vida profissional ou pessoal. Esses são alguns dos sintomas da Síndrome de Burnout, uma doença de difícil diagnóstico, mas que tem avançado dentro das empresas.
Ela é conhecida como a depressão do trabalho, porque se desenvolve no ambiente profissional. É parecida com o estresse, mas é um pouco mais grave. Para curá-la não bastam alguns dias de descanso, é preciso uma mudança bem mais radical, como um remanejamento dentro da empresa, por exemplo.
Outra característica da síndrome é o público que ela atinge. Em sua maioria, são trabalhadores que lidam diretamente com outras pessoas e têm responsabilidades sobre a vida delas, como médicos, policiais, enfermeiros e bombeiros. No entanto, outros profissionais, de diferentes áreas de trabalho, também podem ser afetados, principalmente se for homem e solteiro.
A psiquiatra Elaine Lúcia Dias de Oliveira explica que homens solteiros (nem todos, é claro) tendem a sacrificar sua vida pessoal em função do trabalho. “Como eles chegam em casa e não têm de dar atenção para a esposa ou filhos, tendem a canalizar toda a energia para o trabalho.”
Profissionais mais idealistas, exigentes consigo mesmos e com menos capacidade de lidar com situações difíceis estão mais propensos a sofrer com a síndrome. É o que diz a psicóloga Ana Maria Benevides-Pereira, autora do livro “Burnout: Quando o Trabalho Ameaça o Bem-Estar do Trabalhador”. Segundo ela, baixos salários, poucas perspectivas de promoção, assédio moral e competição excessiva no ambiente de trabalho também podem desencadear a doença.
Além dos sintomas comuns do estresse (dores de cabeça, insônia, gastrite), a Síndrome de Burnout tem suas próprias características, como ausência constante no trabalho, intolerância e postura agressiva, seja com colegas, clientes ou pacientes.
Apesar da legislação brasileira permitir o afastamento do trabalho em razão de “burnout”, com direito à retirada do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e estabilidade no emprego, o diagnóstico não é tão simples, segundo a psicóloga. Segundo ela, ainda falta informação por parte dos médicos e coragem por parte das empresas para atacar o problema de frente.
Distância
A psicóloga Vera Borges de Carvalho já trabalhou em vários programas com o objetivo de resolver o absenteísmo (ausência freqüente no trabalho) dentro de algumas empresas em Bauru. Ela conta que chegou a ouvir relato de funcionários que diziam não passar nem em frente ao local de trabalho quando estavam de folga ou de férias. Segundo os funcionários, só o fato de passar pelo local já os deixavam incomodados.
“É um sofrimento psicológico muito grande. A pessoa adoece por tensão emocional”, afirma Vera. Segundo ela, isso acontece quando a pessoa não se adaptou muito bem ao ambiente de trabalho, mas continua lá por medo do desemprego.
Quando a situação chega a esse ponto, uma das alternativas mais indicadas é a empresa mudar o empregado de função. O remanejamento pode ser a solução, mas segundo lembrou Vera, nem todas as empresas permitem esse tipo de abertura.
De acordo com a psiquiatra Elaine, o tratamento para a Síndrome de Burnout vai muito além da concessão de férias, porque quando o funcionário retorna ele se depara com a mesma situação de antes. “É preciso mudar”, afirma ela.
Segundo a psicóloga Vera, a síndrome difere do estresse convencional. Por isso, alguns dias de folga não resolvem o problema de quem está doente.