Certa vez, passamos uns dias na casa de parentes em Itajubá, cidade do sul de Minas. Uma tarde, na qualidade de ex-vereador, resolvemos fazer uma visita ao prefeito local e foi-nos dada a instrução para chegar à prefeitura. Para lá seguimos a pé e, numa ponte sobre o rio que corta a cidade, vimos um mineiro pescando, enquanto lia jornal e fumava um cigarro de palha.
- Está dando muito peixe? - perguntamos.
- Até agora, nada, seu moço, se bem que essa pescaria, a bem dizer, é mais um pretexto para vir aqui fumar e ler jornal...
- Talvez seja porque o Sapucaí, como a maioria dos rios, deva estar poluído - dissemos.
- O Sapucaí poluído? Ora gente! Pois se a cidade inteira bebe desse rio, uai! Pode ser que os peixes de hoje sejam mais espertos que nós e não se deixem desmisturar fácil da água... Isso sim!
Raios e trovões de súbito espoucaram.
- Será que chove? - perguntamos. O mineiro deu uma olhada para o céu:
- Como as nuvens estão na cabeceira do rio, pode ser que chova, mas como o vento está em sentido contrário, talvez não chova.
- Diga uma coisa: a prefeitura fica naquela direção?
- Isso mesmo.
- Será que o prefeito está lá?
- Era de se esperar que estivesse porque estamos no expediente, mas nesse trenzão ruim que é a vida dos coitados dos prefeitos, que não param em lugar nenhum, não dá para garantir nada.
- Ele é um bom prefeito?
- Não tenho ouvido reclamação, se bem que não sou o ibope para responder com certeza.
- O senhor votou nele?
- Essa vida é tão corrida, seu moço. Tem eleição toda hora... um trenzão de números pra gente decorar... É propaganda de todo tipo e acabamos fazendo confusão e esquecendo em quem votamos.
- O senhor sabe me dizer quanto tempo eu levo até a prefeitura?
- Sei dizer, não, seu moço.
Nos despedimos e seguimos em frente. Mas não tínhamos dado trinta passos e o mineiro gritou: - Ei moço! Nessa sua andadura, o senhor chega lá em meia hora, um pouco mais, um pouco menos...
Rui Bertoti