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Legado de Chico Mendes sobrevive

Por Alceu Luís Castilho | Correspondente do Jornal da Cidade em Brasíllia
| Tempo de leitura: 5 min

No dia 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes era assassinado na porta dos fundos de sua casa, quando ia tomar banho, pelo filho de um fazendeiro. A mulher, Ilzamar, e os filhos, Elenira, então com 4 anos, e Sandino, 2 anos, assistiam na sala ao último capítulo de “Vale Tudo”, a novela que discutia quem matou a personagem Odete Roitman.

Dezoito anos depois, o líder seringueiro ganha as telas da mesma emissora, em minissérie ambientada no Acre, e uma maior visibilidade para sua trajetória. Mas o debate em torno de seu nome vai muito além de quem o matou - o autor do disparo, Darci Alves Pereira, e seu pai, o mandante Darly Alves, foram ambos condenados a 19 anos de prisão e já estão soltos.

Chico virou sinônimo de defesa da Amazônia. Na Fundação Chico Mendes, em Xapuri, em uma espécie de museu sobre a vida do seringueiro, um dos objetos chama a atenção. É um adesivo de campanha política, de 1986, com uma candidatura em dobradinha a deputado federal e estadual: dele e de uma jovem chamada Marina Silva.

A seringueira virou ministra do Meio Ambiente e é uma das referências internacionais do governo Lula. Chico, esse já era internacional antes de morrer - as fotos na fundação tocada hoje por sua filha, Elenira Mendes, 22 anos, mostram a via crucis que ele fazia pelo Brasil e pelo Exterior, levando a causa ambiental a líderes mundiais antes do tema virar um consenso.

A tragédia

Das fotos na parede da fundação, se inicia um mergulho na vida de um herói nacional - sim, Chico Mendes é tecnicamente um herói. Ele foi alçado em setembro de 2004 ao Panteão de Heróis da Pátria, por um projeto de lei da senadora (licenciada) Marina Silva. Do outro lado da rua está a casa. O cenário do crime, reconstituído como em 1988.

Elenira evita entrar lá. Há dois anos, ela herdou da mãe, a viúva Ilzamar, a incumbência de preservar a memória do pai. Ela está voltando para Xapuri, após passar quase toda a vida em Rio Branco, traumatizada. Aos 4 anos era assediada pela imprensa. A primeira lembrança de sua vida coincide com o dia da tragédia. “Perdi minha infância”, conta, com dignidade, do sofá de sua casa em Rio Branco.

Foi na porta do quarto de Elenira e Sandino que Chico caiu, baleado. E nos braços de Elenira, balbuciando seu nome. Cartazes pendem do teto, informando o local exato de cada movimento naquele fim de tarde (o Acre tem duas horas a menos em relação ao horário de Brasília) anunciado. Chico já dissera várias vezes que seus dias estavam contados.

Enquanto a guia ajuda a contar esse capítulo marcante da história do Brasil, um País que recém se democratizava, ainda sem um presidente eleito pelo povo, os visitantes choram. Ou pelo menos engasgam, vendo o local de onde Darci atirou, a toalha com a qual ele descia para o banheiro do lado de fora, no momento fatídico, e ouvindo a história dos dois policiais fujões - Chico tinha proteção policial quando foi morto, mas eles saíram correndo após ouvir o disparo.

Da frente da Fundação Chico Mendes, a cunhada Deusamar conta que também não consegue entrar no local sem reviver cada minuto daquela noite. Ela aponta um bar ao lado e revela: outros filhos do fazendeiro Darli freqüentam o local, ligam o som alto e riem, a poucos metros do casebre. “Por essas e outras que meu marido nem vem mais para cá, para não fazer besteira”, diz ela, resignada.

Futuro

A história de Chico Mendes em Xapuri não se restringe ao lamento da morte e à sua importância histórica - o que já seria muito, num Estado marcado pela resistência aos latifúndios grilados e ao mesmo tempo pela vanguarda ambientalista. No Seringal Cachoeira, pivô dos conflitos que levaram à morte de Chico, tudo mudou.

A época de conflitos ficou para trás. Pelo menos no Acre, a seqüência de assassinatos de trabalhadores, uma constante desde a época de Galvez e Plácido de Castro, foi interrompida. A história do mártir, mas também a organização pioneira do seringal, correu o mundo e atrai há vários anos centenas de estrangeiros ao local.

Na sede do seringal, uma escola (construída por Chico em 1987) - chamada Esperança do Povo - e um posto de saúde, antes inexistente, mostram que aquela luta também serviu localmente para algo, além de ter influenciado todo o debate sobre a preservação da Amazônia.

A poucos metros dali, está sendo construída uma nova pousada. O atual redário não é mais suficiente diante do crescente interesse turístico. Verba do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) banca o local entre as árvores - aquelas que teriam virado pastagem se a turma de Darli tivesse vencido a batalha.

Uma surpresa: as principais funções na Associação dos Moradores e Produtores do Projeto de Assentamento Extrativista Chico Mendes são tocadas por primos diretos. Todos com o sobrenome Mendes. Tião, Francisco, Antonio, Nilzamar, Orlene, Nilson. Todos Mendes, ainda estão ali, grudados à tradição - feitos borracha.

Cabe ao caçula a presidência da Associação. A Orlene, coordenar o turismo. O mais velho, Tião, o primo da idade de Chico, trabalha como guia. Foi com ele que a reportagem do Jornal da Cidade percorreu um pedaço do seringal, a ouvir histórias sobre Chico, sobre os bichos, sobre uma nova vida no coração do Acre. E é com ele que vamos.

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