Tribuna do Leitor

O bom samaritano


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O século 21 parece ser o século em que catástrofes, tragédias e atrocidades acontecerão ininterruptamente, como resultados da incapacidade do ser humano de viver neste planeta de forma pacífica, harmônica, sem buscar a autodestruição.

Diariamente, surgem notícias trágicas: desastres de aviões; homens-bomba que explodem-se em lugares públicos, matando dezenas, centenas, milhares de inocentes, espalhando terror em nome da causa do Islã, que nada tem a ver com violência; guerras civis; seqüestros; ataques sistemáticos do crime organizado; execuções sumárias, enfim, toda sorte de desgraças que levam a crer que a humanidade jamais deixará de cometer atos insanos, está fadada à bestialidade.

E quando, em meio a essas desgraças, surge a notícia de um ato de amor ao próximo, que levou um homem comum a tornar-se herói, não importa que tenha sido em Nova York, nos Estados Unidos, tão longe do Brasil, mas emerge a sensação de que a humanidade não está, de todo, perdida.

Certamente, há centenas de milhares de pessoas espalhadas pelos quatro cantos do mundo que pensam e agem como aquele nova-iorquino, que, ao deparar-se com um homem caído nos trilhos do metrô, desacordado, saltou para ampará-lo e, sem conseguir sair rapidamente, pois vinha um metrô que não frearia antes de atropelá-los, colocou o homem entre os trilhos, segurou-o e permaneceu abaixado por cerca de 20 minutos, enquanto o metrô passava.

Depois, retirou-o dali, ileso, tendo consciência que, por pouco, ambos não haviam morrido. Seu gesto foi automático, agiu em questão de segundos, não teve tempo de pensar que poderia tornar-se uma celebridade, que estaria na imprensa de todo o país e várias partes do mundo. Simplesmente, ajudou quem precisava, ainda que tenha colocado sua vida em risco.

Isto me lembrou uma das parábolas de Jesus: "(...) Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e veio a cair em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto. Casualmente, descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de largo. Semelhantemente, um levita descia por aquele lugar e, vendo-o também passou de largo. Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele. E, chegando-se, pensou-lhes os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem, e se, alguma coisa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar." (Lucas, 10:30-35).

O samaritano da parábola preocupou-se em salvar a vida de um estranho, aplicou os primeiros socorros e levou-o para ter melhores cuidados, arcando com as despesas. Daí a expressão bom samaritano, que qualifica quem ajuda ao próximo, quem faz o bem, como o novaiorquino. Que em 2007 os bons samaritanos multipliquem-se cada vez mais.

Elson Teixeira Cardoso - escritor

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