Cultura

Sobre mundos: Ulisses e as sereias

Por Padre Beto * | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Conta uma velha lenda grega que o grande Ulisses conseguiu vencer todos os seus sentidos. Ele se orgulhava de dominar a si mesmo e utilizar os sentidos de seu corpo para o que desejava. Mas certo dia se aproximou com seu navio da região das sereias. Estes seres belos possuíam o poder de hipnotizar os homens através de seu canto e conduzir os seus navios aos rochedos da morte. Foi nesta situação que Ulisses descobriu que nada, nem sua coragem, nem sua inteligência e muito menos seu autocontrole, poderia impedi-lo de ser vítima das sereias, do feitiço de seus cantos e de sua música. Ele foi, então, obrigado a mandar tapar os ouvidos de seus marinheiros e fazer-se atar ao mastro do navio, pois seu ouvir, sua escuta, era o sentido mais passivo e frágil entre todos os outros.

Segundo os antigos gregos, o primeiro passo para se refletir sobre a vida com profundidade e alcançar autonomia é exercitar a capacidade da escuta. Qualquer informação escutada e recolhida pelo ser humano irá de algum modo se entranhar no sujeito, se incrustar nele e começar a se tornar, aos poucos, sua verdade e fazer parte de seu comportamento. Muitas vezes, verdades que falamos são fruto da freqüência que as escutamos do que de nossas próprias conclusões. Repetimos a verdade de outros simplesmente porque a escutamos da maioria. A passagem da teoria para a prática de uma idéia, de uma verdade, se inicia através da escuta.

Mas o escutar possui uma natureza profundamente ambígua. Em primeiro lugar, a audição é o mais passivo dos sentidos. A não ser que possamos colocar um obstáculo, imediatamente ouvimos o que chega a nossos ouvidos. Não se pode não ouvir o que se passa ao nosso redor. Eu posso desviar meu olhar, posso me recusar a tocar, posso segurar minha respiração, posso optar em não sentir o gosto, mas não consigo desviar os ouvidos. O ouvir é evidentemente mais capaz do que qualquer outro sentido de enfeitiçar o nosso pensamento, recebendo e sendo sensível aos elogios como também às ofensas das palavras, às influências dos discursos, certamente também sendo sensível a todos os efeitos da música ou dos ruídos.

Em segundo lugar, o escutar está diretamente ligado ao conteúdo teórico, à visão de mundo que se torna comportamento mais tarde. Enquanto os outros sentidos estão envolvidos com a questão do prazer, o ouvir é um caminho para a prática de vida. Para Plutarco, por exemplo, as virtudes só podem ser apreendidas através do ouvir. Portanto, o ouvir é, talvez, ao mesmo tempo o mais passivo como também o mais influente de todos os nossos sentidos.

Por isso se faz necessário o exercício do escutar. Este exercício, tão urgente nos dias atuais, se assemelha ao exercício do falar. Nós podemos dizer palavras construtivas, eficazes, palavras que transformam a vida para o bem, como também podemos desperdiçar nosso falar com palavras fúteis, sem sentido, podemos falar sem saber o que dizemos e, por fim, podemos destruir pessoas e situações com simples palavras. Da mesma forma, podemos ouvir com atenção e tentar atingir a verdade do que recebemos através dos ouvidos, podemos simplesmente escutar sem o raciocínio ou, então, ouvir para encontrar algum defeito, alguma falha e fazermos uso delas mais tarde.

Assim, se exercita o ouvir através de uma atitude ligada à fala, ou seja, através do silêncio. A tagarelice é uma atitude que nos leva a utilizar muito mal a nossa capacidade de ouvir. O silêncio aqui não significa simplesmente que devemos nos silenciar quando o outro fala. Mas, principalmente, que devemos manter silêncio quando ouvimos algo de significativo, um pensamento, um ensinamento, uma poesia, uma “verdade” sobre a vida e sobre pessoas que acabamos de conhecer. Este silêncio evita que venhamos a converter imediatamente o que ouvimos em nosso discurso.

É necessário, em primeiro lugar, reter o que ouvimos, ou seja, conservá-lo. Plutarco costumava dizer que no tagarela existe uma anomalia fisiológica. Assim ironizava o filósofo que no tagarela o ouvido não se comunica diretamente com a alma: o ouvido se comunica diretamente com a língua. O tagarela é sempre um recipiente vazio. Portanto, para um bom escutar é necessário um silêncio ativo e reflexivo. A segunda atitude para aperfeiçoar nossos ouvidos é estar atento ao conteúdo e não simplesmente à beleza das palavras, das rimas ou da música. É preciso tentar compreender o que realmente é dito, cantado, musicado. Sem estas duas atitudes escutamos passivamente e nos acostumamos com ruídos, uma musicalidade de mau gosto, falsas verdades sobre a vida e os outros.

A conseqüência dessa não utilização séria dos ouvidos é nos tornarmos barulhentos, aceitarmos passivamente a música veiculada pelos meios de comunicação de massa e repetirmos “verdades” que não nos convêm. Se não nos atemos ao ato de escutar continuamos barulhentos no futebol, mas silenciosos na política, nos acostumamos com os ruídos do trânsito e com o silêncio da exigência de nossos direitos. Por fim, corremos o risco de sermos levianos uns com os outros, pois aceitamos sem refletir criticamente o que chega a nossos ouvidos.

* Para entrar em contato com o padre Beto, acesse o site www.padrebeto.com.br.

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