Articulistas

Lágrimas a serem lamentadas


| Tempo de leitura: 3 min

Findou-se mais uma legislatura, período de 4 anos em que os deputados federais e senadores da República exerceram, por força dos votos conquistados nas urnas, a representação da vontade popular. Muito se tem escrito, nas últimas semanas, sobre a qualidade deste Parlamento que encerrou suas atividades, profícuo na produção de escândalos e moroso na apuração de responsabilidades, leniente com corruptos e corruptores e generoso na fixação de seus próprios subsídios. Um parlamento nitidamente preocupado com a manutenção do status quo e ignaro com as questões urgentes do desenvolvimento nacional. Por esta razão, passo ao largo destas questões e peço, neste momento, a atenção para um outro detalhe, alçado possivelmente à condição de símbolo da resistência, de exemplo de uma postura política impoluta, mas que ouso dizer, carrega vício de igual monta aos anteriormente descritos.

Refiro-me ao emocionado discurso de despedida proferido pela senadora Heloísa Helena, representante do Estado de Alagoas por 8 anos junto ao Senado Federal. As cenas, amplamente divulgadas pelas emissoras de televisão e relatadas pela imprensa escrita, são inegavelmente comoventes. Podemos até discordar de algumas bandeiras defendidas pela senadora, mas temos que reconhecer que sua postura é autêntica e corajosa e que sua atuação dignificou o Senado Federal naquilo que foi possível.

Todavia, revelou ela, em seu discurso e em comentários aos 35 apartes requeridos por colegas de Legislativo, uma visão distorcida e contrária à sua postura, em manifestação típica de Estados onde a democracia ainda não está totalmente consolidada.

Como já dito em outra oportunidade em que ocupei este nobre espaço, a democracia foi magistralmente definida por Abraham Lincoln como sendo o governo do povo, pelo povo e para o povo. Os membros do Poder Legislativo (assim como do Executivo) são, por expressa determinação constitucional, meros representantes populares, detentores de mandato por tempo determinado. Devem ser considerados como nossos porta-vozes, cujo interesse jamais deve ser o próprio mas, sim, o do grupo que o elegeu!

Heloísa Helena, ao se despedir da Casa, perante seus colegas, demonstrou a confusão que ocorre entre o exercício do múnus público e o apego pessoal ao Poder. Por que tristeza por encerrar um mandato? Por que tristeza por deixar a convivência com os demais senadores? Por que chorar pela lembrança, como por ela dito, das brincadeiras com o filho do senador Arthur Virgílio?

Gostaria de ter visto a senadora chorar por não ter mais voz no Plenário para lutar pelo povo de seu Estado! Lamentar por não poder, como membro de um Poder, desfraldar bandeiras como a da resistência ao reajuste abusivo dos subsídios! Melhor teria sido se a senadora tivesse usado de seu tempo para defender, até o último momento, o interesse público, denunciar abusos e propor soluções para um Brasil melhor!

Mandato não é emprego. Ser político não é profissão. Representar o povo é um fardo, que se carrega com sofrimento, com prejuízo à vida pessoal. Quem se aventura por estas plagas deve fazê-lo por desprendimento, doando-se verdadeiramente ao seu povo, seu país, seu Estado, sua cidade. Evidente que todos concordam que deva haver justa remuneração e condições adequadas para o exercício parlamentar. Mas o gabinete não é propriedade do político. Não é lugar para pendurar quadros de revolucionários, imagens de santos ou acomodar parentes.

Se a senadora lembrasse de Gênesis, 3:19, com certeza teria tido outra postura, mas condizente com a democracia e não mancharia sua passagem pela Casa, justo em seu último pronunciamento. Isto porque ali está escrito:

“Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar.”

O autor, Conrado Rodrigues Segalla, é advogado e professor da Faculdade Fênix-Bauru - e-mail: segallaadvocacia@uol.com.br

Comentários

Comentários