A responsabilidade é uma das grandes dádivas que nos foi concedida. Ela permite sermos participantes ativos no dinâmico desenrolar do destino de nossa comunidade. Não devemos nunca ignorá-la. Para um líder, a responsabilidade é uma necessidade básica, assim como o alimento e o oxigênio; ele não pode preencher ou justificar sua existência sem ela. Mesmo que tenha sido guindado a líder por causa fortuita, a responsabilidade não é uma coisa que deve ser aceita com relutância, por culpa ou obrigação. Não é possível ignorar a necessidade interior de responsabilidade pessoal, desviando-se dela. Assim como a fome, ela irá lhe acossar. Ela irá lhe falar por intermédio da sua consciência, por intermédio da sua angústia.
Cada um de nós recebeu talentos e capacidades distintas e é nossa responsabilidade partilhá-los de forma positiva. Quando vemos alguém em necessidade, precisamos mostrar-nos sensíveis. Quando vemos injustiça, precisamos protestar. Quando vemos imperfeição, precisamos fazer tudo o que for possível para saná-la. O Executivo e o Legislativo devem governar a cidade, assim como um professor deve ensinar e um escritor escrever. É sua obrigação perguntar-se, com regularidade, como pode utilizar suas habilidades para melhorar sua cidade. Pode parecer possível encarar de outro jeito, isolando-se, afastando-se, mas, este não é um comportamento responsável, é simples protecionismo.
Em nossa sociedade laica, tendemos a considerar líder uma pessoa bem relacionada, poderosa, carismática ou rica. Julgamos nossos líderes pelo que eles têm. Mas, um grande líder deveria ser julgado pelo que ele não tem – egoísmo, arrogância, oportunismo. Um verdadeiro líder encara seu trabalho como um serviço altruísta com vistas a um propósito superior. Como dizem os sábios: “liderança não é poder e dominância; é servidão”. Isto não significa que um líder seja fraco; ele extrai força de sua dedicação a um propósito que é maior do que ele mesmo. Especialmente hoje em dia, é importante diferenciarmos a liderança da demagogia. Um demagogo pode inspirar as pessoas, mas suas razões são impuras e suas expectativas irrealistas. Precisamos ser um pouco céticos ao avaliar um líder. Ele está, verdadeiramente, devotado a sua missão ou apenas em busca de glória? Ele está interessado no bem-estar dos outros ou, simplesmente, construindo um rebanho para seu próprio engrandecimento? Um verdadeiro líder não quer controle; quer a verdade. Ele não procura seguidores; prefere criar outro líder e mais outro; assim como a chama de uma vela acende outra e mais outra, até que a impenetrável escuridão de nossas cidades se transforme em luz brilhante. Um líder com mundo interno fraturado levará o externo ao colapso; um mundo interno saudável reflete-se na ordem externa. Há uma fascinante ressonância a estes padrões internos e externos de ordem, por isto, a “cara” da cidade reflete a “cara” de suas lideranças ao longo do tempo.
Ser uma liderança responsável é ser criativo, é estar presente, participar, agir, batalhar por recursos porque a energia potencial ou, simplesmente, o “querer” não é suficiente, a ação é necessária. A liderança responsável sabe que o tempo não é uma matriz passiva sobre a qual grava suas ações; é a fonte de energia para tais ações. O tempo, para ela, é uma causa, não um mero expectador. A liderança responsável não se inclina para o futuro porque a expectativa de algo melhor à frente, a torna menos sensível para o que está acontecendo agora. Na verdade, embora o transtorno que ocorre no momento acabe um dia, um novo, com certeza, surgirá. Portanto, o ato de esperar é uma derrota que o líder inflige a si próprio.
O autor, Paulo Cezar Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp-Bauru