A 25 anos atrás, na manhã de 19 de janeiro de 1982, morria a maior cantora da história da música brasileira. Hoje é dia de ver seus discos em destaque nas lojas, assistir a programas especiais na televisão, ler sobre ela no jornal e ouvi-la como se estivesse viva, como se o tempo não tivesse passado - porque, de certa forma, não passou mesmo.
Quatro décadas depois de seu começo e duas décadas e meia depois de sua morte, Elis ainda é o norte, a referência na interpretação vocal na música brasileira. Sua memória ainda é tão viva e sua presença ainda tão sentida que ao menos três megalançamentos com seu nome chegaram às lojas nos últimos meses - e a cantora também foi tema de um especial de fim de ano da Rede Globo.
O box triplo da EMI, com os três DVDs “Na Batucada da Vida”, “Doce de Pimenta” e “Falso Brilhante”, é o mais representativo. Produzidos por Roberto de Oliveira - diretor de especiais de TV para diversos canais e com a bagagem de ter sido empresário de Elis -, os DVDs trazem imagens de apresentações de todas as fases da cantora, tudo amarrado por fotos, depoimentos, entrevistas.
Outro lançamento revelador e essencial para os fãs é a reedição do álbum “Elis”, de 1980. Além da caprichada remasterização, ele vem com um bônus delicioso: a entrevista de Elis ao programa “Jogo da Verdade”, da TV Cultura, em 1982, exibido originalmente apenas alguns dias antes da morte da cantora.
De entrega emocional tão forte quanto seu valor musical, Elis era a personificação da intensidade de sua música - e isso fica absolutamente claro nas entrevistas e interpretações ao vivo surgidas nos DVDs.
Ainda outro relançamento curioso de 2006 da cantora foi a caixa “Os Primeiros Anos”, pela Som Livre, com os dois primeiros álbuns da cantora, lançados em 1961 e 1962.
Na época contratada como uma “segunda Celly Campello”, segundo palavras da própria, Elis ainda não tinha sua personalidade artística totalmente definida, mas sua voz já se destacava.
Elis foi muitas e fez muito. Sempre dividida entre ser suave e forte, trágica e feliz, romântica e agressiva, a cantora começou cantando canções adolescentes, passou pelo samba-jazz, negou a bossa nova, fez um disco com uma das figuras mais importantes da bossa, fez passeata contra a jovem guarda, gravou Roberto Carlos, cantou Beatles, black music, Rita Lee, Carmen Miranda, jazz, Jorge Ben, rock rural.
Em 2003, sob o slogan de “a cantora que todos estavam esperando”, outra amostra da relevância de Elis até os dias de hoje invadiu rádios, lojas e aparelhos de som: a estréia em disco de sua filha, Maria Rita.
Independentemente de seus méritos próprios, Maria Rita surgiu como prova de que o público definitivamente ainda não estava cansado nem tinha tudo que queria de Elis. Com voz parecida, postura semelhante e arranjos musicais similares à mãe em seu auge, Maria Rita deixou no ar a sensação de que a maior cantora brasileira dos anos 00 era quase a mesma, uma continuação da maior cantora brasileira de 20, 30 anos antes.
Em 2004 houve as reedições de dois importantes e marcantes momentos de Elis: o programa “MPB Especial”, de 1973, em DVD; e o álbum “Elis & Tom”, de 1974, em versão áudio-DVD com faixas-bônus - ambos pela gravadora Trama, dirigida por seu filho, João Marcelo Bôscoli. “Elis & Tom”, inclusive, já ganhou reedição em CD simples em 2006, dessa vez pela gravadora Universal.
Agora, no final de 2006, outra grande homenagem, ainda que controversa: o especial de fim de ano na Globo. Gerando críticas até de João Jardim, um dos diretores do especial, o programa foi ao ar no formato de “docudrama”, com atores interpretando pessoas e acontecimentos reais.
Uma das críticas mais ressonantes foi a respeito da morte de Elis - segundo o laudo médico, por complicações decorrentes da ingestão de drogas e álcool, informação suprimida do especial.
“Eu queria morrer sendo eu”, diz Elis na entrevista de 1982 ao “Jogo da Verdade”. Sua morte foi o reflexo de sua personalidade: marcante e polêmica.