Hoje, no Brasil, dezenas de empresas jornalísticas desenvolvem programas que levam seus próprios veículos a escolas, o que se constitui em iniciativa de grande relevância para a formação de novos leitores, podendo significar a viva expressão do compromisso social que têm com as comunidades nas quais estão inseridas. A questão que aqui quero discutir é se também para as escolas tais iniciativas trazem benefícios. Até que ponto a leitura e o uso de jornais facilitam – ou podem facilitar - um processo de construção de conhecimento onde cada qual – alunos e professores - seja sujeito que vive um processo que contribua para que cada qual reconstrua o conhecimento sobre os fatos, tomando posições, analisando os diversos ângulos de cada questão, podendo escolher caminhos sabendo o porquê de suas escolhas? Para que a presença de jornais na escola possa trazer benefícios, alguns requisitos são necessários, indispensáveis mesmo. Lembro apenas alguns:
§ A presença do jornal na escola deve estar vinculada à defesa da democratização do acesso ao mundo da leitura, em seu sentido mais amplo, indispensável para a construção da cidadania. Livros de literatura devem chegar aos alunos, pela porta aberta pela leitura dos jornais.
§ O jornal em sala de aula deve ser utilizado garantindo sua análise como objeto de estudo, devendo ser aproveitado em seu todo, Trabalhar apenas recortes soltos dificulta a compreensão da dinâmica e das características da imprensa, pelos alunos.
§ A presença do jornal na escola não pode prescindir de um processo de formação continuada dos profissionais do Magistério, onde se dê voz a cada um deles, divulgando, inclusive, suas experiências bem sucedidas. Somente profissionais sujeitos podem formar alunos sujeitos.
Nesse processo de formação (O que seria dos professores sem seu trabalho conjunto, coletivo?), podem ser enumerados alguns pontos a serem estudados pelos professores, nas diversas atividades de formação continuada que venha congregá-los: a) o cuidado para não se escolarizar o jornal de forma a prejudicar o interesse do aluno por sua leitura. Não se pode correr o risco, por exemplo, de se fazer com o jornal o que muitas vezes se faz com as obras literárias, aplicando-se “provas” para se conferir o que é uma manchete, uma seção ou uma editoria; b) o debate sobre a relação entre o trabalho com o jornal e os conteúdos escolares, enfatizando a relação entre a teoria e a prática. Esta deve ser a constante referência para o processo pedagógico, de modo a colaborar para que sejam superadas práticas arcaicas e centradas na conteúdo como fim em si mesmo. c) as amplas possibilidades de o jornal contribuir para o tratamento interdisciplinar do currículo, já que a notícia já possui um caráter amplo e não aprisionado a apenas uma área do conhecimento. d) o jornal e sua contribuição para o cumprimento da função da escola, hoje (o aluno que lê melhor o jornal, não pode ler melhor a realidade?), e) e, por fim, a discussão sobre a própria imprensa e a sua influência no modo de pensar e agir de cada um.
Para que um programa se utilização de jornal na escola forme leitores deve se colocar em oposição aos dois mitos que hoje existem em torno do uso do veículo na escola, quais sejam: mito 1 - “A busca da informação na Imprensa, em si, é condição para se exercer a cidadania” ; mito 2 - “É melhor não buscar a informação na grande Imprensa já que ela é pelo pensamento das elites”. Superá-los deve significar a promoção de um trabalho que contribua para que todos leiam sim, mas criticamente, fazendo-se interpretadores da interpretação que cada jornal faz da realidade.
A escola, na verdade, forma valores e atitudes do sujeito em relação ao outro, à política, à economia, ao sexo, à droga, à saúde, ao meio ambiente, à tecnologia, etc. Para tanto, os conteúdos curriculares precisam ser desenvolvidos em prol do desenvolvimento de capacidades que permitam que cada aluno compreenda e intervenha nos fenômenos sociais e culturais de seu tempo. O jornal, desde que lido criticamente, pode ajudar - e muito! - nessa direção.
Uma coisa é certa: passe por onde passar a utilização de veículos noticiosos nas escolas, o principal é que os professores estejam vivamente envolvidos na definição, realização e acompanhamento da proposta pedagógica que a envolve. São eles, sem dúvida os grandes formadores de leitores com que se conta, cada vez mais. Até porque, é a possibilidade de ler o que está impresso que pode preparar os nossos jovens para as leituras que vierem a fazer de veículos noticiosos em suas versões on line.
A autora, Carmen Lozza, é diretora do Programa Jornal e Educação, da ANJ, coordenadora pedagógica do programa “Quem lê jornal sabe mais”, do jornal O Globo e diretora do Grupo de Consultoria em Educação - Leitores e Leituras