O conflito sangrento entre muçulmanos e judeus na Oriente é apenas um dos inúmeros exemplos de como as diferenças religiosas podem criar profundas divisões entre as pessoas. Mas na mesma medida em que são capaz de separar, as igrejas também são eficientes para aglutinar. Em Bauru, quando o assunto é solidariedade, todas as barreiras doutrinárias caem por terra: as denominações esquecem as diferenças e se unem para ajudar ao próximo.
Um caso notório pode ser encontrado no Núcleo Fortunato Rocha Lima (zona Noroeste de Bauru). Ali todo o trabalho assistencial é desenvolvido por três entidades religiosas distintas: a creche Santo Antônio é administrada pela Igreja Católica; a Casa da Esperança é mantida pela Comunicação e Missão Cristã; e o Projeto Girassol está sob responsabilidade do Centro Espírita Amor e Caridade.
Embora ligadas a diferentes religiões, as entidades assistenciais costumam ter muita sintonia entre si. “Na verdade somos uma grande irmandade destinada a atender às pessoas carentes do bairro, independente da fé que elas professem”, garante Martha Maria de Oliveira César, coordenadora da Casa da Esperança. A instituição em que trabalha costuma atuar em parceria com o Projeto Girassol.
“É que as duas entidades atendem a um público que tem o mesmo perfil, ou seja, crianças de 6 a 14 anos - a creche cuida de menores de 6 anos. Às vezes, pode ocorrer de uma mãe fazer cadastro tanto aqui quanto no outro projeto. Por esse motivo, as assistentes sociais das duas instituições se reúnem para fazer um cruzamento de dados, evitando assim que uma mesma família seja beneficiada duas vezes”, explica a coordenadora.
Tamanho intercâmbio não impede que cada entidade mantenha uma postura própria frente a questões doutrinárias. “É lógico que buscamos transmitir aquilo que acreditamos. Lemos a Bíblia para as crianças, procuramos passar a elas as mensagens de Jesus, acho isso natural. Imagino que nas outras entidades também seja feito o mesmo, dentro da visão religiosa de cada um. O importante é nunca tentar impor nosso ponto de vista à pessoas por nós atendidas”, pensa Martha.
Alguns podem imaginar que fraternidade religiosa existente no Núcleo Fortunato Rocha Lima seja um ponto isolado em meio a um universo de discórdias. Para aqueles que pensam dessa forma basta acompanhar as inúmeras campanhas de arrecadação de alimentos, roupas e medicamentos desenvolvidas em Bauru no decorrer do ano.
Quando eventos dessa natureza ocorrem, costumam reunir no mesmo barco desde católicos e espíritas até evangélicos e ateus. “Nesses ocasiões as diferenças religiosas deixam de ter importância. É como se elas nunca tivessem existido. O que vale mesmo é poder servir ao próximo”, acredita Edson Valentin, presidente do Conselho de Pastores de Bauru.
Pensamento muito parecido ao dele tem o frei Ernani Pereira Marinho, responsável pela paróquia de São Paulo Apóstolo, que engloba bairros da zona norte de Bauru, como Vila São Paulo e Pousada da Esperança. “Nossa missão aqui é levar conforto espiritual às pessoas e ajudar a criar meios para que a população carente possa superar a miséria”, afirma. Nem sempre essa tarefa é fácil, sobretudo no caso das pequenas igrejas de periferia.
Teresa Neri dos Santos Eleodoro, 41 anos, vive no Parque Jaraguá. Ela e o marido lutam há dois anos para concluir as obras do templo da Igreja Evangélica Pentecostal Jesus é a Paz no bairro. Por enquanto, eles conseguiram levantar apenas parte das paredes. “É que meu esposo trabalha (é segurança) e só tem tempo para construir nos finais de semana”, explica.
Os cultos estão sendo realizados em uma edícula que há nos fundos do terreno. A privação de recursos com que a pequena igreja convive é grande, mas ainda assim sempre sobra espaço para os gestos solidários.
“A pobreza é grande aqui na vizinhança. Volta e meia aparece alguém aqui em casa pedindo ajuda, daí a gente colabora como pode”, afirma ela. O auxílio pode vir tanto em forma de oração quanto por meio da doação de alimentos e roupas. “Mês passado distribuí dez cestas básicas aqui no bairro”, garante Eleodoro.
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Conversão
Às vezes, sem necessidade de doar uma única cesta básica, as igrejas conseguem provocar profundas transformações nos locais onde estão instaladas. O presidente do Conselho de Pastores de Bauru, Edson Valetin, teve a oportunidade de presenciar um acontecimento, no mínimo, curioso.
Ele é responsável por um templo da Igreja Batista Bereana situado na rua Antônio Alves, próximo aos trilhos que cruzam a área central da cidade. “Quando fui para lá, em 1997, aquela era uma região degradada, que reunia muitos drogados e prostitutas”, recorda-se.
O perigo na região era grande. “Nas poucas semanas que se seguiram à inauguração do templo, foram encontrados três cadáveres na vizinhança, dois deles vítimas de assassinato”, diz Valentin. O terceiro teria sido atropelado por um trem.
Ao invés de ficarem amedrontados, os fiéis e o pastor resolveram se apegar à fé. “Durante os cultos, rogávamos a Jesus que abençoasse aquela vizinhança”, afirma. O interessante é que os meses foram passando e a violência no lugar de fato diminuiu.
Embora credite boa parte da transformação à intervenção divina, Valentin reconhece que outros fatores podem ter colaborado para a mudança. “Os cultos provocaram um aumento na movimentação de pessoas pela região. Isso deve ter inibido a ação dos marginais”, pondera.