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Educação inclusiva

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 10 min

“A educação inclusiva não significa a simples inserção de crianças com deficiência em escolas regulares de educação. Se a criança com deficiência estiver lá, mas for tratada como ‘coitadinha’, se não se acreditar nas possibilidades de aprendizagem e oferecer estratégias favoráveis ao seu desenvolvimento, se colabora para aumentar o preconceito. Elas poderão não se sentir capazes de realizar coisas significativas. A estrutura do sistema educacional como um todo precisa ser modificada para que se pratique uma educação inclusiva.”

A avaliação é da terapeuta educacional Deigles Giacomelli Amaro e sinaliza um dos grandes vértices da educação inclusiva, um dos maiores desafios do sistema educacional brasileiro na atualidade. De acordo com ela, crianças com deficiência aprendem e se desenvolvem melhor em ambientes que respeitem suas características e não as superprotejam. Pelo contrário: esses locais devem deixá-las lidar com desafios, testando seus recursos motores, visuais, comunicativos e cognitivos. Este é um principais temas abordados no livro de sua autoria “Educação Inclusiva, Aprendizagem e Cotidiano Escolar” (editora Casa do Psicólogo).

Baseada na dissertação de mestrado da autora, que foi desenvolvida no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), a obra é fruto de uma pesquisa realizada em escolas municipais de Mauá (SP). Em 262 páginas, a terapeuta estuda aspectos como socialização, desenvolvimento e aprendizagem na educação inclusiva. “Quantas coisas se aprende na vida ao observar o outro fazendo? Há melhores condições de desenvolvimento e de aprendizado em ambientes ricos em interações sociais, com os objetos e com o espaço, entre outros elementos”, diz.

Para Deigles, qualquer indivíduo pode desenvolver o aprendizado quando é respeitado e incentivado a criar algo novo. “E as pessoas com deficiência não fogem à regra”, ressalta ela, que acumula 11 anos de trabalho na área de pesquisa e educação de pessoas com deficiência. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - O que significa educação inclusiva?

Deigles Giacomelli Amaro - Educação inclusiva é uma concepção de educação a qual entende que todas as pessoas, independente de sua condição física, orgânica, psíquica, mental e cultural, têm características singulares e devem conviver e aprender juntas, em um contexto educativo que respeite e invista nas possibilidades de desenvolvimento e de aprendizagem de cada aluno. Em outras palavras, é uma forma de se compreender e propor intervenções educativas, as quais valorizam as especificidades de desenvolvimento e de aprendizagem de cada aluno, acreditando que a interação entre pessoas diferentes é favorável a todos. Em um sistema educativo que trabalhe a partir dos princípios de uma educação inclusiva, entende-se que as intervenções pedagógicas devem ser realizadas considerando as características específicas do desenvolvimento de cada aluno, criando estratégias em que a diversidade da composição do grupo pode oferecer desafios e possibilidades para ele progrida em seu desenvolvimento e na sua aprendizagem.

JC - Quais são os estímulos necessários para o aprendizado humano?

Deigles - Qualquer pessoa, para se desenvolver e aprender, precisa vivenciar situações que provoquem o desejo e a necessidade de fazer e pensar algo novo. Vou citar alguns exemplos. Um bebê coloca em movimento seus recursos motores para engatinhar porque a bola que estava na sua mão escapou e ele deseja tê-la novamente. O ser humano aprende a falar porque quer se comunicar e interagir com quem está ao seu redor. Aprende ainda a se alimentar sozinho porque precisa da comida para sobreviver e saborear o prazer que ela nos proporciona. Quando adulto, aprimora sua habilidade em fazer contas porque recebe uma quantidade específica de dinheiro e deve fazê-lo durar o mês todo, até receber seu próximo salário. Portanto, os estímulos necessários para o aprendizado de qualquer indivíduo, incluindo as pessoas com deficiência são: sentir a necessidade, desejar fazer algo novo e ser provocado para isto. As formas são extremamente variadas. Na escola, desenvolver maneiras de se relacionar com os alunos e de propor atividades que os estimulem para aprender algo novo é um desafio constante do educador.

JC - O que a senhora busca transmitir com o livro?

Deigles - Várias coisas. Entre elas, o desejo de compartilhar algumas questões em torno do desenvolvimento e da aprendizagem de pessoas com deficiência e de formas mais favoráveis para educá-las; atentar para algumas características da educação inclusiva, entendida como um sistema complexo; valorizar as vivências das relações no cotidiano escolar para o desenvolvimento e a aprendizagem das pessoas, compreendendo que se aprende nas relações com as pessoas, objetos e atividades, em um determinado espaço e tempo. Além disto, busco observar as formas com que cada aluno se relaciona para compreender suas necessidades e, desta maneira, propor formas favoráveis ao seu desenvolvimento e aprendizagem. Qualquer indivíduo pode aprender quando respeitado em suas características e incentivado para desenvolver algo novo. E as pessoas com deficiência não fogem à regra.

JC - Em que ambientes escolares as crianças com deficiência aprendem mais? Por quê?

Deigles - Em ambientes que respeitem suas características e apresentem desafios onde elas precisam colocar em movimento seus recursos motores, visuais, comunicativos e cognitivos, sendo todos estes interdependentes. Em ambientes que não as superprotejam, mas sim as deixem fazer as atividades com os recursos disponíveis em determinado momento para que novos sejam desenvolvidos. Um exemplo simples e rápido para ilustrar esta questão é o seguinte: se colocarmos em um mesmo grupo várias crianças que não falam, não será muito mais difícil para que elas aprendam a falar do que em um ambiente em que têm a referência da linguagem oral do outro para desenvolver a sua? Quantas coisas se aprende na vida ao observar o outro fazendo? Há melhores condições de desenvolvimento e de aprendizado em ambientes ricos em interações sociais, com os objetos e com o espaço, entre outros elementos.

JC - Quais são os benefícios proporcionados pela educação inclusiva?

Deigles – São muitos. Quando a pessoa passa a ser respeitada em suas características, ritmos de desenvolvimento e de aprendizagem, tem oportunidades de construir seu conhecimento da forma mais significativa para si. Esta idéia já mostra o desdobramento de vários benefícios. Se consideramos que cada pessoa é única, perceberemos que todos somos diferentes. E, sendo diferentes, os indivíduos devem ser respeitados na sua condição: tendo ou não deficiência, sendo mulher, homem, rico, pobre, negro, branco, baixo, alto, gordo ou magro. Todos têm possibilidades de ser menos preconceituosos, ser mais cooperativos e solidários. Os valores de respeito e de cidadania trazem, pela vivência cotidiana com a diferença, a oportunidade de viver com mais justiça e igualdade social.

JC - Existem pontos negativos neste processo? Quais?

Deigles - Os pontos negativos existem se a educação inclusiva for compreendida de maneira equivocada. Este processo não significa a simples inserção de crianças com deficiência em escolas regulares de educação. Se a criança com deficiência estiver lá, mas for tratada como “coitadinha”, se não se acreditar nas possibilidades de aprendizagem e oferecer estratégias favoráveis ao seu desenvolvimento, se colabora para aumentar o preconceito. Elas poderão não se sentir capazes de realizar coisas significativas. A estrutura do sistema educacional como um todo precisa ser modificada para que se pratique uma educação inclusiva. De nada adianta alguém acreditar que está a favor da inclusão por aceitar a presença física de alguém com uma diferença significativa se ele não mudar a estrutura, a concepção de ensino e a forma de se relacionar com os outros.

JC - Os professores estão capacitados para atender crianças com deficiência em sala de aula?

Deigles - Se considerarmos que, historicamente, os indivíduos não foram acostumados a conviver com pessoas com deficiência - por exemplo, já se passaram 2007 anos do calendário cristão e somente nas três últimas décadas se percebe maior freqüência de pessoas com deficiência nas escolas regulares -, é possível apontar que eles, assim com qualquer cidadão, não estão preparados para conviver e educar pessoas com deficiência. Porém, acredita-se que um dos fatores essenciais para esta “preparação” é a convivência no cotidiano com elas. Por exemplo, o ser humano aprende a falar direcionado a uma pessoa que não ouve, mas faz leitura labial se precisar fazer isto várias vezes no seu cotidiano. Teoricamente, é necessário. Mas se não houver esta experiência, é mais difícil desenvolver tal habilidade. Cito ainda a importância que os cursos de graduação têm em abordar, sistematicamente, o desenvolvimento e a aprendizagem de pessoas com deficiência nas disciplinas, bem como princípios gerais da educação inclusiva. Além disto, é fundamental realizar trabalhos de formação continuada em serviço para que os educadores reflitam sobre sua prática a partir de conhecimentos e troca de experiências. Muito se tem falado sobre essa necessidade de preparação. Mas que preparação é esta? Ela se baseia em quais princípios e fundamentos? Não dá para esperar que toda uma geração de pessoas se forme em outros moldes e somente a partir daí se inicie uma prática inclusiva. Ela tem de ser aprendida nas relações cotidianas subsidiadas por espaço de formação.

JC - Qual é o número adequado de alunos em uma classe onde se realiza o processo de educação inclusiva?

Deigles - Não há uma resposta específica para esta questão, já que o número adequado depende da faixa etária de cada grupo e das características das crianças que o compõe. Mas acredito que 40 alunos por classe, em média - número freqüente em escolas de ensino fundamental - não é muito favorável ao desenvolvimento e a aprendizagem de qualquer pessoa porque dificulta o estabelecimento de relações mais individualizadas. Vale lembrar que a educação inclusiva não diz respeito somente a alunos com deficiência.

JC - As aulas de apoio ou reforço para crianças com deficiência são eficazes?

Deigles - Elas podem ser eficazes se complementarem a freqüência nas atividades regulares da escola. Muitas vezes, à medida em que o aluno é indicado para aulas de apoio, há um desinvestimento, o que acontece nas aulas regulares. Isto não pode ocorrer. Em todo ambiente educacional deve haver uma busca de estratégias para favorecer o desenvolvimento e a aprendizagem dos alunos. O apoio pode trabalhar algumas estratégias específicas, mas não pode substituir a vivência das aulas regulares.

JC - Qual é o papel da família no processo de inclusão social?

Deigles Amaro - A família deve acreditar na possibilidade de desenvolvimento, aprendizagem e participação social do seu filho. Infelizmente, sabemos que a sociedade ainda é muito excludente e preconceituosa. A família precisa estar ciente disto, mas não deve desanimar. Ela precisa buscar parcerias para auxiliá-la a lidar com dificuldades que poderão surgir no caminho de busca de um contexto educacional e social com mais qualidade para seus filhos.

JC - Como o Brasil pode evoluir no processo de inclusão?

Deigles Amaro - Avançando na forma de conceber e se praticar educação. É preciso mudar a forma de compreender as necessidades dos outros, de sistematizar a estrutura de ensino e de realizar intervenções pedagógicas. É necessário um envolvimento, além de mudanças em termos governamentais, políticos, pedagógicos, coletivos e individuais.

JC - De que forma é possível superar as barreiras das pessoas em relação à inclusão social?

Deigles Amaro - Refletir sobre esta idéia e se relacionar com indivíduos com diferenças significativas - entre elas, as pessoas com deficiência. O preconceito é um fator que dificulta bastante o desenvolvimento, de forma justa e solidária, de se relacionar com as pessoas. A educação inclusiva e a inclusão social significam um processo e não um estado. Por isto, é necessário que os indivíduos, continuamente, se responsabilizem no sentido de entender a constituição educacional e social. A mudança de valores e atitudes só ocorre no cotidiano. É possível superar as barreiras, mas, para isto, é fundamental ter muita disposição para lidar com os desafios.

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