O vetusto casarão ainda permanece lá, resistindo teimosamente ao tempo. Na rua Cussy Júnior nº 9-83 (esquina com Agenor Meira). Reminiscência nostálgicas afloram à minha mente. Como se fosse um filme projetado diante de meus olhos, retorno no túnel do tempo ao ano de 1965. Ali era então a delegacia. Estando em pleno vigor de minha juventude, amava a vida com frenesi. Com certa ingenuidade, com romantismo, com desmedido otimismo. Ali vivi os anos dourados de minha história profissional.
Éramos como uma grande família. Heterogênea nas faixas etárias, no grau de cultura, nas idiossincrasias. Homogênea nas alegrias e nas tristezas da labuta cotidiana. Mara, Francisca, Nelson, Dr. Walter, Dr. Felisdeu, Dr. Dourado, Amanda, Júlia, Diva, Wanda, Lucy, Mathilde, Luzia, Euclides, Ayda, Battaiola, Juracy, Brunatti, João Baptista, Colomera, Feres, Bukvic, Lázaro, Campezi, Dirce, Valderez, Juvenal e Dr. Speridião.
A metade delas já subiu para o andar de cima. A outra metade aguarda sua vez, pois que a morte é o destino de quem nasce.
O Dr. Wilson Pedro Speridião era então o delegado. Dedicava-se com denodo ao cumprimento de suas atribuições. Ocupava um cargo sujeito a uma natural e compreensível demissão “ad nutum”. Mas ele sempre resistiu com galhardia às inúmeras trocas de secretários e de governadores. O que se deve indubitavelmente à sua irrefutável competência profissional. Era reputado como um dos melhores delegados. Já Juvenal Bastos (irmão do prefeito Irineu Bastos) era o almoxarife da delegacia. Sempre era visto pitando um não muito perfumado cigarro de palha.
Juvenal me contou, em 1965, entre baforadas de seu cigarro, um inusitado incidente ocorrido na delegacia, quando o delegado não era ainda o Dr. Speridião. Era outro. Juvenal andava intrigado com misteriosos desaparecimentos de materiais e/ou remédios das prateleiras do almoxaridado. Quem seria ele afinal, o rato que na calada da noite surrupiava coisas, sem deixar rastro algum? Juvenal arquitetou uma armadilha “sui generis”. Ao término do expediente, na hora do crepúsculo, espalhou meticulosamente uma finíssima camada de farinha do trigo pelo chão do almoxarifado.
No dia seguinte, a prova contundente. Pegadas incriminatórias pelo chão. Coincidentemente, análogas ao tamanho dos pés de anjo do delegado. Juvenal foi discreto, não fez alarde. Resolveu levar tudo em banho-maria. Seria temerário afrontar a autoridade máxima, acusando-a de improbidade administrativa. A corda sempre arrebenta para o lado mais fraco. Cada vez que algo desaparecia, da noite para o dia, Juvenal emitia uma fatura em nome do delegado. Este, incontinente, as assinava sem questionar. Assim foram três faturas. Não houve necessidade de uma quarta vez. Portanto, as coisas não mais sumiram das prateleiras do almoxarifado.
Gilberto Sidney Vieira