Não é de hoje que a mesa do brasileiro vem sofrendo uma transformação. Do café da manhã ao jantar, as famílias passaram a adotar um cardápio rico em gorduras trans e açúcar. O consumo de arroz e feijão caiu enquanto o de biscoitos industrializados teve um crescimento gigantesco.
O ritmo acelerado da vida moderna faz com que as pessoas optem cada vez mais por refeições rápida e nem sempre saudáveis. O fato das mulheres estarem trabalhando fora de casa também contribuiu para a falta de tempo na hora de preparar a comida. Por isso, nem sempre é possível fazer um prato variado e balanceado.
Diante disso, tornou-se comum ver as pessoas trocando o prato de arroz, feijão, carne e salada por uma coxinha de frango, um pastel ou um lanche, entre outras opções pouco nutritivas.
O quadro também é preocupante quando se trata da alimentação de crianças e adolescentes. Fissuradas por salgadinhos e doces, muitas não têm o costume de comer verduras e frutas. Refeições desbalanceadas contribuem para o aparecimento de doenças e para a obesidade.
É por isso que profissionais da saúde recomendam que os cuidados com a qualidade da alimentação devem ser tomados desde cedo, porque uma das coisas mais difíceis é mudar o hábito alimentar das pessoas.
“O hábito é uma coisa difícil de mudar. Por isso, é muito importante que desde cedo as pessoas criem o costume de se alimentar bem”, recomenda a nutricionista Lígia Maria Fioravante de Carvalho.
Na opinião dela, a base alimentar do brasileiro, mesmo o mais simples, era melhor do que a atual, porque sempre teve arroz e feijão. Hoje, avança o consumo dos lanches rápidos, os chamados fast-foods, cuja preparação não demora mais do que alguns poucos minutos.
Pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre Orçamento Familiar (2002-2003) mostra como, em 30 anos, o brasileiro diversificou sua alimentação, reduzindo o consumo de gêneros tradicionais como arroz, feijão, batata e pão, e aumentando, por outro lado, o consumo per capita de iogurte e refrigerante.
Dados do Ministério da Saúde reforçam essa mudança no cardápio do brasileiro. Do início dos anos 70 até hoje, o consumo de feijão caiu 31% e o de arroz, 23%. No mesmo período, o consumo de biscoitos cresceu impressionantes 400%.
Uma das razões para isso, na opinião da nutricionista Márcia Leme, é a influência da propaganda sobre uma parcela da população. “O apelo é muito forte. Os mais jovens ficam encantados. Muitas vezes, eles aderem à novidade para não ficarem de fora da ‘tribo’”, comenta ela. Segundo a nutricionista, o apelo seduz não apenas os mais jovens, mas o público adulto também. A influência tem sido generalizada.
“Chegamos a um ponto em que é preciso resgatar a cultura da alimentação saudável”, concluiu Márcia. “Ela (cultura) foi se perdendo ao longo dos anos e é importante recuperá-la”, afirma. Parte dessa mudança, segundo Márcia, começou a acontecer quando as mulheres passaram a trabalhar fora de casa. Como são elas que normalmente cuidam do alimento, a falta de tempo não permite a elaboração de pratos variados. A pressa não deixa. “Hoje, são poucas as famílias que têm uma pessoa com tempo de sobra para cuidar da alimentação”, diz ela.
A correria, aliás, representa um outro dano à saúde. Porque não é apenas o que se come que tem de ser levado em consideração na hora da refeição, mas como se come. A pressa faz a pessoa comer rápido. Conseqüentemente, o alimento não é mastigado o suficiente e isso acaba exigindo um esforço maior do estômago no momento da digestão.
De acordo com a nutricionista Lígia, a situação pode provocar problemas gástricos e, além disso, levar a pessoa a comer mais do que o necessário, porque a ingestão rápida de alimento não dá tempo do organismo “avisar” que está satisfeito. Fica a sensação de que a fome não foi saciada e procura-se complementar com um doce ou outro alimento.
“Às vezes o alimento é até saudável, mas ele é ingerido com muita rapidez e isso faz mal”, afirma Lígia. O ideal, segundo ela, é comer devagar e porções menores, várias vezes ao dia. Isso faz com que os alimentos sejam melhor aproveitados pelo organismo e a sensação de fome, menos freqüente.
A junção do alimento errado com a forma errada de consumi-los leva a nutricionista a afirmar que o hábito alimentar do brasileiro, de uma forma geral, piorou. “Ficou parecido com o estilo do americano”, compara Lígia, destacando o estilo de vida corrido de parcela do povo americano e o sucesso que os fast-foods fazem naquele país.