O laudo da perícia da Polícia Técnico-científica entregue ontem à Câmara Municipal de Bauru confirma os trechos da conversa gravada pelo vice-prefeito Renato Purini (PMDB), em 2005, onde em conversa com a jornalista Inês Ferreira esta atribui ao presidente do Departamento de Água e Esgoto (DAE), José Clemente Rezende, a atuação como mediador para a suposta indicação de amigos ou empresas para patrocinar o custo de matéria veiculada pelo Jornal Atalho falando dos benefícios do contrato de prestação de serviços da autarquia com os Correios, na época.
A audiografação (sic) do CD gravado por Renato Purini, então presidente da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb), e o ex-diretor de Limpeza Pública da empresa, Jorge Monteiro, traz o conteúdo preliminar divulgado pela Comissão Especial de Inquérito (CEI) instalada no ano passado pela Câmara Municipal para averiguar contratos de publicidade no DAE.
Na conversa, da qual também participou como “contato publicitário do jornal Atalho o então secretário das Administrações Regionais (Sear) Nélson Fio, Inês Ferreira atribuiu a Clemente Rezende o papel de buscar recursos, ou patrocinador, para financiar o custo da matéria pró-DAE veiculada na época, tratando do serviço de leitura e impressão de contas de água firmado com os Correios.
Na oportunidade, Jorge Monteiro confidenciou ao JC que a gravação foi feita com o objetivo de levantar qual a circunstância em que ocorreu o trabalho de publicação de matéria supostamente custeada por um patrocinador indicado por membro do governo. Depois, com a entrega do CD contendo o diálogo para a CEI, o vice-prefeito Renato Purini apresentou a versão de que realizou a gravação para se preservar em relação ao conteúdo da conversa.
No laudo apresentado ontem pelo Núcleo de Perícias de Bauru, assinado pelo perito criminal José Carlos Fioretti, a Polícia Civil informa que não degravou todo o conteúdo da conversa, mas “trechos de interesse pericial e policial do CD, a critério deste relator que, para tanto, utilizou um microcomputador do tipo doméstico”. O diálogo completo tem quase uma hora de duração, mas a degravação traz cerca de 30 minutos.
A perícia se debruçou basicamente sobre os trechos em que a jornalista Inês Ferreira fala, sobre qual foi o procedimento adotado para que o Jornal Atalho publicasse matérias pró-governo municipal, nesta gestão, cujo formato teria os custos financiados pelo interessado ou através da indicação de uma empresa. Em um dos trechos, Purini questiona Ferreira: “A minha dúvida é se era feito pelo próprio DAE”. A jornalista responde: “Não. O DAE ele tem... O Clemente tem alguns amigos que têm algumas empresas que patrocinaram...”. O vice-prefeito complementa: “Que ele pediu e elas ajudaram”. A jornalista confirma: “É”.
Em outro trecho, os interlocutores insistem com a jornalista se a empresa que patrocinou o custo da matéria pró-DAE veiculou anúncio na edição correspondente. A jornalista responde que não, “ela não apareceu”. Clemente Rezende disse ontem que prefere não comentar sobre o assunto por não conhecer o laudo.
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Repercussão política
A fita de vídeo e o correspondente laudo recebidos pela Comissão Especial de Inquérito (CEI) não diferem do que foi antecipado pelo JC em 25 de novembro do ano passado. O laudo também não identifica trechos publicados pelo JC em que Nélson Fio, o ex-secretário da Sear, apontou que atuou como contato publicitário para matérias no Atalho, com a discussão inclusive de preços para cobrir os custos da produção e publicação.
Mas o laudo deverá ser utilizado por parlamentares, sobretudo da oposição, para criar embaraços ao presidente do DAE, José Clemente Rezende, potencial candidato da situação à sucessão de Tuga Angerami. O problema é que o objeto da CEI é genérico e fala em “contratos de publicidade no DAE”,o que a comissão já sabe não há registro na autarquia.
Ainda assim, não será surpresa se o caminho da apuração for levado para a área da falta de decoro, para gerar dificuldades políticas contra Clemente Rezende. Os integrantes da CEI se reúnem novamente em seis de fevereiro, para avaliar documentos e decidir pelos próximos passos.
Ao falar sobre a existência da gravação e seu conteúdo, no final do ano passado, Clemente Rezende negou que tivesse intermediado ou indicado empresas para patrocinar matéria sobre a autarquia veiculada no jornal Atalho. Ele disse que espera ser convocado pela comissão para falar sobre o tema.
Ao falar com o JC sobre o episódio, Inês Ferreira confirmou a versão que consta do diálogo no CD. O laudo entregue ontem não faz menção sobre a existência ou não de cortes ou montagem na gravação, limitando-se à degravação de trechos.