Pesca & Lazer

História de pescador: Laterna de pescador


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A pequena cidade de Pongaí fervilhava de gente naquela tarde de Sexta-feira Santa e a rua José Cândido Carneiro servia de passarela para o footing, onde as moças da região ostentavam seus vestidos novos de saias rodadas - as mais ousadas e modernas arriscavam uma saia justa, para o delírio da rapaziada, que quase sempre lhes dirigia algum gracejo do tipo: “Ai, minha nossa senhora, quanta moça bonita e minha mãe sem nora”. Nas ruas transversais, estacionavam-se grandes carros pretos, que prendiam a atenção de todos por serem em pequeno número e de terem pneus com faixa branca. Em cima da longa tampa do motor, o pássaro de asas abertas em metal branco e reluzente parecia indicar que se tratava de algo muito veloz. Os jeeps cor cinza, de capota preta feita de um material estranho, pois não era lata nem pano, tinham janela transparente - que os mais sabidos chamavam de matéria plástica -, tinham ao lado da tampa do motor uma seqüência de letras sem nexo: J.e.e.p.

Disputando espaço com os jeeps, havia um grande número de carroças, carros-de-boi e muitos cavalos, em sua maioria com arreios novos e bem forrados, com pelegos vermelhos e baldranas amarelas com margaridas, niqueladas, em cujos bolsos escondiam revólveres ou litros de pinga. Na praça simples e bem cuidada, a imponente igreja de São José estava coberta de luto pela Quaresma - as imagens todas cobertas de pano preto demonstravam a tristeza dos católicos pela morte de Cristo, cujo corpo, representado em estátua de tamanho natural, continuava exposto para visitação pública, sempre assustando as crianças. Os fazendeiros de café e os caciques políticos da região disputavam a atenção do padre, que na sacristia, entre uma doação e outra, se preparava para a procissão do Senhor morto.

Aninha, filha de dona Laura, dava os últimos retoques no ensaio da Ave Maria. Sua voz já era uma tradição, como Verônica nas procissões da Semana Santa. Ao lado da igreja, alheio a todo este clima de religiosidade, seguia freneticamente a quermesse. José Palo comandava as vendas de frango cheio e leitoa assada, a cerveja já não saía direto do saco com palha para as mãos do ávido consumidor, pois a grande novidade era uma grande geladeira vinda da América do Norte, comprada de segunda mão em Pirajuí.

No alto da torre, uma ruidosa corneta distribuía para toda a cidade a voz impostada do locutor, intercalada com sucessos do rádio. “Tu queres que eu sofra, és grande o teu engano...”, com este prefixo musical o serviço de alto-falante da igreja matriz de São José encerrava sua programação musical, convidando todos os fiéis para acompanhar a procissão de nosso Senhor morto, “ logo após voltaremos com músicas variadas e oferecimentos”.

Todos se concentravam na praça em frente à igreja, famílias inteiras prontas para o cortejo. Os homens de meia-idade disputavam entre si a condução do andor do santíssimo, os rapazes alternavam-se conduzindo o andor de Nossa Senhora rodeado pelas filhas de Maria, todas de vestido branco e fitas azuis, que lhes davam uma áurea toda especial. À frente de tudo ia o andor de São Benedito, conduzido pelos mais velhos simples e religiosos. A presença do andor de São Benedito na frente do corso era a garantia de tempo bom durante todo o trajeto. As crianças brincavam soltas e largadas, não havia risco de se perderem, a única preocupação das mães era com aquelas que, vestidas de anjo, acompanhariam a procissão em cumprimento a promessas da última tosse comprida...

O relógio da torre da igreja deu uma única badalada, curta e seca. Eram oito e meia da noite, o jovem Humberto confirmou a hora em seu relógio de pulso, percorreu mentalmente os quase 10 quilômetros que separavam a cidade de sua casa. Por estar a pé e sozinho resolveu ir embora; com cinco minutos de caminhada já deixara o clarão da pequena cidade, cruzando o rio que separa a cidade da zona rural. Seguindo por uma estrada boiadeira cercada de altos barrancos, a escuridão absoluta não lhe permitia ver nem os curiangos que voavam pelo caminho - às vezes sobre sua cabeça. Mas o rapaz conhecia muito bem o trajeto e seguia em passos largos e firmes, diminuindo o ritmo da caminhada apenas nas baixadas de areia.

Passado os areões, retornava o ritmo acelerado da caminhada, onde a estrada subia pelos cafezais e adentrava a fazendas de gado. Humberto seguiu cortando as invernadas, ouvindo grilos e corujas, às vezes era obrigado a desviar-se do gado, que em manadas dormia na terra quente da estrada. O relógio avançava na mesma proporção, quando o rapaz dobrou o espigão, já podendo identificar sua casa - o velho dínamo mantinha acesa uma lâmpada na varanda no longínquo horizonte.

Lá pelos lados da fazenda Cabo Verde, a lua cheia nascia exuberante, vencendo a escuridão daquela que seria a pior noite daquele jovem. Na estrada em declive, em direção ao rio Sucuri, um corredor com quase 1.000 metros de extensão, que seguia paralela a uma estrada velha abandonada, que com o constante passar de boiadas e as enxurradas das freqüentes chuvas na região foi se transformando em uma estrada funda e que com o passar dos tempos se tornara inviável. A caminhada facilitada pelo declive animou o jovem já meio cansado, que com o auxílio do clarão da lua podia ver uns 500 metros à sua frente.

Bem próximo ao rio havia algumas luzes em movimento e ele imaginou que fossem pescadores e continuou a caminhada. As luzes desapareceram subitamente, parecendo confirmar que realmente se tratava de lampião de pescadores. Humberto deu mais um passo e percebeu que algo estranho estava acontecendo, pois alguns vultos caminhavam pela velha estrada abandonada em sentido contrário ao seu. O medo tomou conta de seu corpo e, apesar da brilhantina que usava, sentiu seus cabelos arrepiados. Ele tentou manter a calma, lembrando para si mesmo a familiaridade com aquele local, fixando o olhar na lâmpada da varanda de sua casa, porém alguma força muito forte fez com que ele voltasse o olhar para a estrada velha, deparando-se com uma imagem que jamais iria esquecer: um esquife revestido de mortalha branca flutuava a mais ou menos um metro do chão, sem que ninguém o tocasse. Igualmente flutuando seguiam quatro velas acesas demarcando um quadrilátero que cercava o féretro, que era seguido por um pequeno grupo de acompanhantes de vestes brancas, cada um deles segurando uma vela acesa.

O próprio protagonista desta história diz não saber precisar por quanto tempo fixou o olhar naquelas funestas imagens, pois sentira seu corpo levitar, parecendo perder por completo o sentido, não lembrando absolutamente de mais nada, só recobrando a consciência já em sua casa, rodeado de seus familiares, que tentavam acalmá-lo enquanto buscavam uma explicação pelo fato do rapaz estar todo molhado e sujo de lama.

Lázaro Carneiro é pescador e contador de histórias.

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