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Hanseníase é ‘coadjuvante’ no Lauro

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 5 min

Fundado há 72 anos, o Instituto Lauro de Souza Lima, referência nacional no tratamento de hanseníase, não cuida apenas de portadores da doença. Atualmente, cerca de 80% dos pacientes têm outras moléstias dermatológicas, inclusive câncer. E entre os hansenianos, a maioria já é paciente antigo. Isso porque o número de novos casos da doença está em queda no Estado de São Paulo.

No ano passado, foram detectados 46 casos novos de hanseníase no Estado (coeficiente de 0,48 para cada 10 mil habitantes). Em Bauru, o índice é um pouco menor ainda: 0,43 para cada 10 mil habitantes, de acordo com a Secretaria do Estado da Saúde. Mesmo com a queda dos últimos anos, o Brasil é o segundo País em casos de hanseníase no mundo, fincando atrás apenas da Índia.

Porém, a Secretaria de Saúde pondera que o índice é tolerado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Com a redução da hanseníase, o Instituto Lauro de Souza Lima atua mais na complementação de tratamento e reabilitação dos pacientes da doença, conta Marcos da Cunha Lopes Virmont, diretor do órgão. No instituto são atendidos pacientes de todas as partes do Brasil e até mesmo do Exterior.

De acordo com Virmont, os dois tipos de doenças mais atendidos são acnes e micoses. Mas ele ressalta que é alarmante o número crescente de portadores de câncer de pele em diferentes estágios da doença, o que já representa cerca de 10% dos atendimentos do instituto. Entre esses pacientes também há moradores de localidades distantes.

Um dos casos é o de Alcides Pereira da Silva, 56 anos portador de feridas desde os 4 anos de idade. Silva conta que as feridas sararam com o tempo deixando manchas. A idade avançou e trouxe novamente as feridas por todo o corpo. Em 1999, ele que mora em Angélica, no Mato Grosso do Sul, chegou ao instituto para se tratar.

“Eu confio em Deus, só aqui no ‘Lauro’ eu consegui melhorar. Já remexi vários hospitais em Campo Grande, Campinas e Ribeirão Preto e nada”, desabafa. Como outros pacientes em tratamento e que moram longe, Silva hospeda-se no instituto que, no passado, já foi uma colônia de hansenianos e ainda conserva estrutura de uma cidade, com igreja, jardim e até um cinema.

Redução dos casos

Amanhã será comemorado o Dia Mundial de Combate à Hanseníase. Virmont aponta alguns fatores que ajudam a diminuir o número de casos da doença, como o um maior conhecimento da população sobre os sintomas e sinais da moléstia. “As pessoas procuram tratamento mais cedo e com isso diminui a disseminação da doença. Na última década, o tratamento também se tornou muito mais eficaz e efetivo, oferecido gratuitamente pelas unidades de saúde”, diz.

Em todo Estado, o diagnóstico e o tratamento da hanseníase vêm sendo feitos com rapidez. Os sinais clínicos e os posteriores exames de laboratório permitem que a descoberta precoce da doença permita também um tratamento curto que dura, em média, de três meses a um ano.

Elismar João de Lima, 35 anos, veio de Palmas, no Tocantins, para se tratar. O funcionário público descobriu a hanseníase em 2003 e tentou tratamento em seu Estado. Tomou remédios por dois anos, mas teve uma infecção em um dedo do pé esquerdo. “Queriam amputar, fui a dois médicos e eles disseram que essa era a solução. Eu sabia do instituto e vim para cá. Operaram o meu dedo e semana que vem eu posso voltar para casa”, comenta, aliviado.

Na época em que Carlos Martins da Cunha, 62 anos, soube que tinha hanseníase, ele foi proibido de ir à escola. O ano era 1960, ele morava em Goiás e não teve orientação adequada ou recebeu medicação suficiente, relata. A conseqüência foi a atrofia dos membros, especialmente dos pés. Cunha faz tratamento no instituto há cinco anos. “A quantidade de casos novos caiu bastante, mas somos o segundo país em números da doença (...) Mas ainda sim é uma vitória já poder aproveitar uma estrutura como a do instituto para outras doenças” diz.

No instituto, hansenianos e portadores de outras doenças convivem lado a lado. Uma das pacientes com outro tipo de problema de pele atendida é Marta Maria Martins, 60 anos. Marta é de Bauru e sofre de herpes. Tentou atendimento em outros hospitais, mas apenas no instituto a doença apresentou um recuo.

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Pesquisa

Pensando no conforto dos pacientes de hanseníase que, por causa da atrofia nos membros muitas vezes ficam impossibilitados de atividades simples, o Instituto Lauro de Souza Lima mantém uma oficina para confecção de calçados e palmilhas para os portadores da doença.

Cada peça é feita sob medida e levando em conta o equilíbrio e as áreas de maior pressão que o pé exerce. O diretor do instituto, Marcos da Cunha Lopes Virmont, explica que a estética não pode ser esquecida. Os sapatos são feitos de modo que as diferenças sejam minimizadas.

Essas diferenças que a hanseníase impõe aos doentes é ainda geradora de muitos preconceitos, ressalta Virmont. A doença é antiga, citada na Bíblia como ‘lepra’, termo considerado pejorativo.

A enfermidade é uma infecção causada por uma bactéria (Mycobacterium leprae) e ataca a pele e os nervos periféricos que, em estado avançado, causa deformidades. Os principais sintomas da hanseníase são manchas na pele que não coçam, doem ou incomodam; dormência ou formigamento sem causa aparente e insensibilidade a cortes ou queimaduras.

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